Entrevista: Tereza Cruvinel
Uma solista na crise
Entrevista: Tereza Cruvinel
Uma solista na crise
Entrevista: Tereza Cruvinel
Uma solista na crise
Fotos:Lúcio Távola / ObritoNews
Do alto da experiência de quem cobriu – como repórter ou colunista – os governos Figueiredo, Tancredo, Sarney, Collor, Itamar, Fernando Henrique e Lula, Tereza Cruvinel assiste incomodada ao fulminante desenrolar da crise política que tomou conta dos noticiários. “A mídia está pautando a crise”, critica. Muitas de suas palavras, sobretudo as ditas em off, destoam do grande consenso que parece ter tomado conta das manchetes. É como se pegasse mal na tribo, como se fosse coisa de gente “chapa-branca” criticar a CPI ou os excessos cometidos pela cobertura.
Aliás, se tem uma coisa que tira Tereza do sério é a expressão “chapa-branca”. Principalmente depois do famoso jantar organizado por ela em fevereiro 2004 em sua casa, onde o presidente Lula pôde conversar com os jornalistas que cobrem a política nacional. “Como Ricardo Kotscho não conseguiu convencer o presidente Lula a dar uma entrevista coletiva, ele sugeriu um jantar informal para quebrar gelo. Só que fora do Palácio. Ofereci minha casa. Não vejo delito nisso. Alguns jornalistas participaram do jantar e depois vieram jogar pedras”, desabafa. Nesta entrevista para IMPRENSA, Tereza Cruvinel nada na contracorrente do grande consenso ao apontar um aroma de macarthismo no ar, em referência à caça às bruxas promovida pelo senador americano Joseph McCarthy, célebre pela implacável caça aos “comunistas” no período da Guerra Fria.
Em nome de uma tarefa política, Tereza era, em 1980, uma operária de fábrica na Baixada Fluminense, no Rio de Janeiro, quando se deparou com uma bifurcação em sua vida. Um caminho apontava para Brasília e as salas de aula da UnB, onde deixara incompleto o curso de jornalismo. A outra estrada era a da militância política na “Convergência Socialista”, grupo de esquerda que se preparava para engrossar as fi leiras do recém- criado PT.
Entre o engajamento partidário e a carreira profissional, Tereza fi cou com a segunda opção. “Um monte de organizações de esquerda em um partido... não tinha como dar certo. Eu também estava precisando de espaço para minha individualidade. A vida dentro das seitas é cheia de limitações”, avalia hoje, mais de duas décadas depois. De volta à Capital Federal, sua terra por adoção – deixou Coromandel, em Minas Gerais, ao 14 anos –, a “candanga” Tereza abraçou seu ofício com toda força. Concluídos os créditos que faltavam na UnB, conseguiu trabalho na TV Brasília. Depois foi para o Jornal de Brasília, Correio Braziliense, e, finalmente, O Globo, sua casa até hoje.
Na redação de O Globo, recebeu do chefe, Evandro Carlos de Andrade, a missão de editar a seção de notas localizada abaixo do editorial de Roberto Marinho. Uma responsabilidade e tanto. Foi a primeira vez na história da imprensa brasileira que uma mulher assinou uma coluna política. Passados 25 anos desde que decidiu o lado certo da bifurcação, Tereza Cruvinel assina a coluna política mais antiga da imprensa nacional. Além da coluna, faz comentários na Globo News e na rádio CBN regularmente. Eis o solo de Tereza Cruvinel, uma ária pouco cantada nos dias de crise política.
A versão completa da entrevista você encontra na edição de outubro da Revista IMPRENSA
IMPRENSA – A imprensa está pautando a agenda da crise?
TEREZA CRUVINEL - Os políticos, especialmente os membros da CPI, estão contaminados pela excitação da mídia, da projeção. Isso signifi ca que os meios de comunicação estão pautando a agenda e o curso da crise, a ponto de influir na lista de cassações. Hoje, eu ouvi do senador Fernando Bezerra a seguinte frase: “No tempo do Ibsen, diziam: ‘O que o povo quer, essa casa acaba querendo’. Agora, é ‘O que a mídia quer, essa casa acaba querendo’”. O fato é que a crise teria tido outra dimensão se o engajamento da imprensa não fosse tão grande. Existe um certo antipetismo na mídia.
IMPRENSA – Quem está engajada: a cúpula ou a base das redações?
TEREZA – As cúpulas estão deixando as redações livres para trabalhar. E nelas há de tudo: competição exacerbada pelo furo, redações jovens, muita gente buscando afi rmação profi ssional.
IMPRENSA – Esse anti-petismo nas redações talvez tenha crescido em função da péssima relação construída entre o governo Lula e os jornalistas...
TEREZA – Outro dia, o ex-ministro José Dirceu reconheceu que tinha uma política de imprensa completamente errada. E que, hoje, tem dificuldade de interlocução.
IMPRENSA – A suposta “arrogância” dele criou um ranço?
TEREZA – Esse ranço antipetista se manifesta com mais freqüência contra algumas pessoas. O José Dirceu é uma delas.
IMPRENSA – Existe muito patrulhamento ideológico por parte dos coleguinhas?
TEREZA – Existem os jornalistas que não viveram a época da ditadura... e os que viveram, mas foram omissos. E existem aqueles que nasceram na época pós-ditadura, que não conheceram a censura, o AI-5, a tortura. Os jornalistas que tiveram um passado de militância freqüentemente são vistos com reservas pelos jovens repórteres, que deixaram há pouco tempo a faculdade e são filhos da democracia.
IMPRENSA – Com a eleição de Lula, a imprensa de esquerda e engajada perdeu o rumo?
TEREZA – A imprensa de esquerda não é formada por jornalistas, mas por intelectuais. O governo os inibiu. Esse é o chamado “silêncio dos intelectuais”. Alguns deles não se calaram e trombaram de frente com o PT, como o Chico de Oliveira. Outros se recolheram, preferiram o silêncio a criticar o governo em que acreditavam.
IMPRENSA – Existem muitos componentes ideológicos nessa crise?
TEREZA – A senadora Heloisa Helena, que é radical de esquerda, tem uma boa aliança operacional com o PFL na CPI... Isso faz parte da luta política.
IMPRENSA – Você se entusiasmou mais com a vitória do Lula do que com a vitória do FHC? Há quem a acuse de ser muito pró-governo...
TEREZA – Jornalista que pretenda a unanimidade deve procurar outro ofício. Estamos todos sujeitos à critica e ao julgamento dos leitores, e isso é bom, sinal de uma cidadania mais atenta a seu direito de ser bem informado. Sou muito criticada no meu blog no Globo On Line. Fora as ofensas, ponho tudo no ar. As pessoas confundem proximidade e acesso com intimidade. Muita gente ainda fala de um jantar do presidente Lula com um grupo de jornalistas que aconteceu na minha casa. Foi um esforço do Ricardo Kotscho para melhorar as relações do presidente com a imprensa. Ele se recusava a dar a primeira entrevista coletiva, mas topou o jantar. Entrei com a casa, com a comida e com a hospitalidade a todos os coleguinhas. Todos aproveitaram bem a conversa, mas houve quem devolvesse atirando pedras. Paciência. Mas eu tinha também uma interlocução especial com o presidente Fernando Henrique, com quem tive longa convivência no Congresso. Tive com ele muitas conversas reservadas quando era presidente, algumas apenas para me situar, não para reproduzir.
IMPRENSA – Qual dos dois é mais acessível?
TEREZA – FHC, sem dúvida. O presidente Lula é fóbico com relação à imprensa. Isso lhe fez muito mal.
IMPRENSA – A rotina do jornalista em Brasília muda muito em tempo de crise?
TEREZA – Em momentos de crise todos os jornalistas trabalham mais. Só que o foco gira muito em torno da investigação, o que é ruim para os colunistas. Nestes momentos, a política, enquanto arte de mediação dos confl itos, desaparece do cenário. Sobra só a luta política.
IMPRENSA – A competição pelo furo leva a erros de apuração e excessos?
TEREZA – Toda crise política detona uma competição entre veículos e dentro das redações. Essa competição é indutora da leviandade, da pressa e da má apuração. Essa é, ainda, a primeira crise sobre o impacto da cobertura em tempo real. As TVs a cabo, as rádios, os blogs e os sites são veículos que, por sua natureza, trabalham em uma competição que se mede nos segundos. Por isso, têm menos tempo para apuração. Houve muita leviandade na cobertura, mas eu prefi ro não citar nenhum caso.






