Entrevista: Síndrome de abstinência
Entrevista: Síndrome de abstinência
Mônica Waldvogel voltou ao jornalismo diário. Sucumbiu à síndrome de abstinência que a tomou desde meados do ano passado, quando as CPIs inflamaram o Planalto e as denúncias do pagamento de mensalão inundaram o noticiário. Nos intervalos da produção do seu programa de entrevistas "Dois a Um", no SBT, e das conversas femininas do "Saia Justa", no GNT, ela assistia às seções da TV Senado com uma certa "melancolia" por estar longe do olho do furacão.
A recaída aconteceu quando o "Dois a Um" foi sacado da grade do SBT e Mônica passou a receber sondagens para voltar à antiga rotina do telejornalismo. "Cheguei a pensar que não voltaria mais a fazer telejornal. Não achei que o mercado ainda me visse como âncora", relata. Convites à mesa, ela fechou com a Globo um contrato para ancorar o principal telejornal da emissora na GloboNews, o "Jornal das Dez", direto de São Paulo, em companhia de André Trigueiro e Carlos Monforte.
Quando retornou aos estúdios da GloboNews, Mônica sentiu uma ponta de insegurança. Bateu o mesmo frio na barriga do dia em que estreou informal, sem tailleur , nos sofás do "Saia Justa", onde tinha a inédita missão de tagarelar assuntos de mulher. Quando pediu à diretora do programa, Alice Maria, uma semana para olhar o telejornal e tirar a ferrugem, ouviu uma sonora gargalhada: "É como andar de bicicleta, não se preocupe". Dito e feito. Logo no programa de estréia, começou a pedalar à vontade, como nos velhos tempos.
A paixão de Mônica Waldvogel pelo seu ofício nasceu aos 11 anos de idade, de forma inesperada, quando ela passava férias na casa de uma prima mais velha que se preparava para prestar vestibular para o jornalismo. Fascinada pela obsessão da prima com aquela profissão, a pequena Mônica disparou a pergunta que marcou sua vida: "O que é jornalismo?". "É um trabalho que funciona assim: você vai nos lugares onde as coisas estão acontecendo e pergunta tudo o que aconteceu. Aí você volta e escreve no jornal para as pessoas ficarem sabendo". "Eu pensei: que máximo, eu vou num lugar onde as coisas acontecem. É isso que eu quero", relembra a âncora do "Jornal das Dez".
Sem pistolão em nenhuma redação e armada apenas de competência e entusiasmo, Mônica conseguiu seu primeiro emprego na raça, durante um processo seletivo na extinta TV Manchete, no fim dos anos 70, quando ainda era uma jovem estudante da ECA que sonhava trabalhar na Folha de S.Paulo . Em sua carreira passou por quase todos os departamentos do telejornalismo diário brasileiro, viveu 10 anos em Brasília e cobriu seis governos federais antes de decidir abandonar o "vício" do hardnews e produzir seus próprios programas. Com a palavra, Mônica Waldvogel, uma veterana que vive dias de foca.
"Cheguei a pensar que não voltaria mais a fazer telejornal"
IMPRENSA - Depois de tanto tempo longe do hard news , estava com saudade da adrenalina do fechamento?
Mônica Waldvogel - Eu não tinha saudade do fechamento. Mas no ano passado, durante as CPIs, eu me sentia como um viciado quando fica muito tempo em abstinência e, de repente, sente um desejo incontrolável de usar sua droga. Cobri as CPIs do Collor e aquilo me dava uma adrenalina enorme...Eu era viciada. Era uma sensação gostosa não saber como o dia ia terminar, que revelações eu teria pela frente. A leitura dos jornais, os almoços, os jantares, as madrugadas em Brasília, os depoimentos...Aquilo me deixava muito excitada. Então, quando eu comecei a assistir a cobertura da crise do mensalão pela GloboNews, a adrenalina voltou com uma força tão grande que me deu uma certa melancolia de estar longe .
IMPRENSA - Você ficou nervosa com a volta para a bancada?
Mônica - Quando a Alice Maria me convidou para a GloboNews eu disse para ela me deixar uma semana olhando o telejornal para sentir como era e tal, porque eu estava meio "enferrujada". Ela caiu na gargalhada e disse: "É como andar de bicicleta. Não se preocupe". Ela tinha razão. Quando você vê, está pedalando de novo...É só recuperar o reflexo.
IMPRENSA - Você cobriu as CPIs do Collor, em 1992, e acompanhou as do Lula pela TV. Qual a grande diferença?
Mônica - Em 1992, não existia cobertura ao vivo. A população não acompanhava a crise o dia inteiro, só em flash e na cobertura dos jornais. O papel do repórter era, portanto, muito valorizado. Era ele que resumia aquele dia para contar à noite. Tinha que acompanhar os depoimentos, ver o que tinha por trás, ir nos bastidores, arrumar um furo para o dia seguinte e, no fim, editar aquilo tudo.
Já as CPIs do ano passado foram um grande show, com as pessoas nos bares, assistindo TV Senado, acompanhando pela Internet. Isso muda não só a cobertura, como a postura do parlamentar. Ele tende a fazer perfomance e perde o foco. Se preocupa mais em fazer grandes discursos. As perguntas nas CPIs do "mensalão" eram menos objetivas que na época do Collor. Em 1992, o sujeito ia mais preparado para as sessões. As assessorias orientavam melhor o parlamentar. A grande diferença, porém, é que nessa CPI não tinha o PT na oposição.
IMPRENSA - Você viveu mais de uma década em Brasília, cobrindo o poder. Existe uma confraria dos repórteres ou é cada um por si?
Mônica - Não tem essa de confraria em Brasília. Lá é todo mundo muito amigo até começar a matéria. Quando começa, ninguém passa nada. Esse foi um dos meus primeiros choques. Em São Paulo, o pessoal ainda trabalhava em rede. Um ajudava o outro, dizia se o cara saiu por aquela porta e para onde foi. Em Brasília, você além de não avisar, despista. É muito competitivo o ambiente. A cobrança é enorme.
O pessoal sai junto, faz churrasco e fica falando sobre poder e política. Mas só até começar a matéria. Aí ninguém é mais amigo de ninguém. Essa é a regra. Ninguém fica magoado com isso. Faz parte do jogo.
Leia matéria completa na edição 211 (abril) de IMPRENSA





