Entrevista: Salomão Schvartzman "Nunca mudei minha opinião..."

Aos 77 anos de idade, o colunista da rádio BandNewsFM, Salomão Schvartzman, se emociona ao relembrar a carreira

Atualizado em 03/06/2011 às 10:06, por Luiz Gustavo Pacete.

Sentado em frente ao vidro que separa os estúdios e a redação da o colunista Salomão Schvartzman aguarda pacientemente a hora de ir ao ar com sua , diariamente às 9h36 ao vivo e reprisada outras duas vezes durante a programação da emissora. Isso acontece desde que chegou à rádio, há dois anos.
Entre as notícias de última hora, Schvartzman entra na programação e pede ao noticiário um minuto de reflexão entrelaçando temas que vão do sexo ao futebol, da saúde à política, do clima às celebridades. Assinando sempre com a frase: Seja feliz. No dia da entrevista, ele falou sobre os desmatadores na Amazônia.
Assim que cumpre mais uma de suas missões diárias, Schvartzman recebe o Portal IMPRENSA. Arredio a dar entrevistas, o advogado, sociólogo e jornalista de 77 anos, o "papagoiaba" nascido em Niterói (RJ), chegou em São Paulo aos 25 anos. Diz ter se tornado um paulistano de coração. "Não é que eu não me sinta confortável a falar, é que eu não improviso, escrevo, apago, reescrevo e deleto", diz em tom poético.

Schvartzman começou a carreira no jornal O Globo , na época do Dr.Roberto Marinho, trabalhou quase 40 anos na TV Manchete, emissora onde, em 1977, ganhou o Prêmio Esso de Jornalismo. Também apresentou durante sete anos na TV Cultura, o programa "Diário da Manhã", saiu de lá em 2007, na gestão Paulo Markun, da qual ele afirma ter sido "degolado".
Ele lembra outra "degola" e ri, quando conta sobre sua saída da TV Manchete, presidida por Amilcare Dallevo [presidente da RedeTV!]: "O Amilcare chegou pra mim e disse: 'Salomão eu tenho que te tirar do ar, porque o senhor tem a cara do Adolpho Bloch'. E eu respondi: não, sou mais bonito". Apesar do humor, o jornalista diz que por dentro ele "sangrava" ao ouvir tais afirmações.

Em uma conversa que ele diz lhe provocar fortes recordações, Schvartzman fala sobre a opinião no jornalismo, a interação com os ouvintes, a forma como concebe suas crônicas e o valor que a opinião agrega às empresas jornalísticas. De ascendência judaica, Salomão esboça opiniões fortes sobre o Oriente Médio e declara que só quem viveu sabe dizer o quanto dói ouvir afirmações superficiais e desencontradas sobre o holocausto.
Crédito:André Rizzatto/Band "Os anos de chumbo deixaram a redação da Manchete mais fraca, mas eu fiquei mais forte" IMPRENSA - O que foi opinar em tempos de ditadura?
Schvartzman - Em 1964, eu chefiava a sucursal da Manchete em São Paulo, foram tempos difíceis. Conseguíamos trabalhar, mas a censura era instalada na sede central da manchete no Rio. Sofríamos advertências, eu não escrevia sobre [questões políticas], preferia não falar nisso. Os anos de chumbo deixaram a redação da Manchete mais fraca, mas eu fiquei mais forte. IMPRENSA - E as criticas dos ouvintes, lhe afetam? Schvartzman - Eu tenho uma interação grande com o ouvinte pelo e-mail. Eles me policiam. Algumas são criticas construtivas, tem também os elogios. E outras criticas me parecem injustas, principalmente quando me refiro ao Oriente Médio. Como sou de ascendência judaica, pensam que falo sempre defendendo Israel. Às vezes me xingam e nunca deixam minha mãe em paz.
IMPRENSA - Você responde aos xingamentos? Schvartzman - Eu só respondo se a pessoa mencionou algo diferente daquilo que escrevi. Tenho pouco tempo, e só respondo quando me toca, quando vejo que preciso reajustar uma frase. IMPRENSA - Como é a produção de sua crônica? Schvartzman - O repertório ajuda muito. Geralmente escrevo à noite, mas acordo cinco da manhã e leio novamente. Ler um texto que eu considero ter ficado bom me rejuvenesce. Mas muitas vezes não sai nada, é o papel em branco. Outras vezes fico parado diante do computador, refém do vazio. Escrevo, apago tudo e depois recomeço. Mas sinto um orgasmo dentro de mim quando concluo que um texto meu está bem feito.
IMPRENSA - Quando escreve, pensa em mudar a opinião do ouvinte?

Crédito:André Rizzatto/Band "Nunca deixei de dar uma pitada daquilo que penso" Schvartzman - Não. Eu penso em explicar o que penso, como raciocínio. Não quero impor minha ideia, só quero dizer como alfabetizo meu pensamento. Mas o importante é estar contente consigo e saber onde colocar os travessões, aspas, traços, hifens, pontos e vírgulas.
IMPRENSA - Aceita sugestões? Schvartzman - Às vezes recebo, mas e difícil. Na maioria das vezes, [as sugestões] não correspondem aquilo que eu projeto para escrever. Não posso aceitar muitas interferências. E muito raramente eu agradeço, confesso que eu poderia ser mais bem educado com essas pessoas. IMPRENSA - Alguma vez já mudou de opinião após ler uma coluna? Schvartzman - - Não que eu me lembre. Não, nunca.

Portal IMPRENSA - Você já foi censurado alguma vez? Salomão Schvartzman - Quando estava na TV Cultura fui chamado uma única vez pelo diretor do conselho curador da Fundação Padre Anchieta. Ele disse 'o senhor tem falado muito sobre Israel'. Mas eu rebati, e disse que também falava sobre o Japão e qualquer tema que fosse notícia. Essa foi minha primeira pré-censura. Aqui na Band nunca me falaram nada. Nunca deixei de dar uma pitada daquilo que penso.

IMPRENSA - O senhor traz uma experiência profunda dos dramas de sua família nos campos de concentração. Qual sua reação ao ter de lidar com piadas sobre o tema como a que o repórter do CQC, Danilo Gentili proferiu no Twitter? Schvartzman - A piada é a gloria do mau gosto, não só a piada antissemita, mas a piada de uma mente pervertida. Não admito nem o antissemitismo, nem a má fé sobre os judeus. Eu admito a discussão sobre o Estado palestino. Quer saber? Sou a favor, mas com fronteiras seguras.
IMPRENSA - E a relação comercial com a opinião? Opinião agrega valor? Schvartzman - Ela [a opinião] é indispensável para valorizar o jornalismo. E eu tenho visto a valorização das opiniões e crônicas. É muito bom ver a atenção que os anunciantes dão a uma boa reputação. Eu inclusive cito quem me suporta comercialmente: Porto Seguro, Nestlé, Bradesco e General Motors.
IMPRENSA - Qual a hierarquia de assuntos? Schvartzman - Escrevo somente aquilo que me toca. Muitas vezes em meio a tantas coisas no noticiário, faz sentido falar sobre o pássaro que pousou em sua varanda. O segredo é sentir.
***

A entrevista com Schvartzman segue o mesmo ritmo de suas crônicas, carregada de linguagens poéticas, a ponto de emocioná-lo constantemente. "Peço desculpas, se continuar assim daqui a pouco vou falar sobre meu casamento", os pedidos se repetem conversa afora.

Entre várias lembranças durante a entrevista, o cronista retoma a imagem do dia em que sua mãe, no ano de 1946, o agarrava e chorava desesperadamente após ler uma carta que anunciava a morte do avô e dos tios de Schvartzmanm assassinados em no campo de extermínio alemão na Polônia Auschwitz. "Em meio a comentários desencontrados hoje sobre o assunto, eu posso esquecer isso [o holocausto]?", pergunta, elevando o tom de voz.
Termina a entrevista, ao repórter ele diz: "Esse momento [a entrevista] me fez chorar, recordar muitas coisas". Emocionado e com lágrimas nos olhos, Schvartzman silencia, após alguns segundos menciona a experiência com o neto de 10 anos. "Dia desses, andando no shopping com meu netinho ele virou e disse 'vovô o senhor não é famoso', porque meu filho? Perguntei: 'porque o senhor não tem uma Ferrari e nunca vejo fotógrafos te procurando'. Minutos depois uma mulher chegou e me pediu um autógrafo, meu neto virou e disse: 'me perdoe vovô'".
Assim, Salomão encerrou a conversa, entre lágrimas, nostálgico e visivelmente abalado com os anos que avançam, mas esboçando um novo sorriso e concordando com a afirmação do repórter: "Essa foi uma entrevista poética assim como as minhas crônicas devem ser. Aqui vou eu. Seja feliz".