Entrevista: Lúcio Flávio, do Jornal Pessoal, do Pará, comemora 20 anos de jornalismo alternativo
Entrevista: Lúcio Flávio, do Jornal Pessoal, do Pará, comemora 20 anos de jornalismo alternativo
Entrevista: Lúcio Flávio, do Jornal Pessoal, do Pará, comemora 20 anos de jornalismo alternativo
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Um jornal alternativo que completa 20 anos de existência em setembro deste ano, o Jornal Pessoal não dá retorno financeiro e não teve uma trajetória das mais fáceis. Idealizado pelo jornalista Lúcio Flávio Pinto e criado no Pará, o veículo nasceu da necessidade de um espaço que não era dado pela grande imprensa.
O curioso é que nem mesmo Lúcio, seu idealizador, acreditava que o veículo duraria tanto tempo. Idealizador que, aliás, faz jus ao nome do jornal que criou: O jornalista é responsável sozinho pela redação, edição, distribuição e defesa jurídica do veículo.
Em entrevista ao Portal IMPRENSA, Lúcio Flávio Pinto conta a história do jornal independente que movimentou a cobertura de imprensa no nordeste e fala de suas expectativas e receios quanto ao futuro do jornal.
IMPRENSA - Como surgiu a idéia de fazer um jornal como o Jornal Pessoal e por que fazê-lo praticamente sozinho?
Lúcio Flávio Pinto - Em setembro de 1987, eu tinha uma reportagem completa sobre o assassinato do ex-deputado estadual Paulo Fonteles, que demarcaria uma escalada de crimes de encomenda e políticos no Pará. Dizia tudo que naquele momento era possível saber. Inclusive que os dois homens considerados os mais ricos do Pará tinham alguma coisa a ver com o atentado. Só não tinha onde publicar a matéria (que, depois, viria a ser premiada com o Prêmio Fenaj, o primeiro dessa premiação de curta duração). Então criei um jornal para apresentá-la ao distinto público e tentar contribuir para que aquele crime não ficasse impune. Achava que o JP ia persistir por certo tempo e evaporar, como a regra desse tipo de publicação. Mas ele sobreviveu, inclusive à minha determinação de acabar com ele para que ele não acabasse comigo, o que esteve perto de acontecer ao longo dessa história. E o faço sozinho porque é o tamanho mínimo possível. Se pudesse escrevê-lo por psicografia, o faria. Como não sei desenhar, a ilustração e edição ficam com meu irmão, o Luís, o artista da família (que tem quatro jornalistas em sete irmãos). O resto é comigo. Eu grito fecha! E viro contínuo. Outro fecha! E me transformo em burocrata. Mais um fecha! E assumo a função de editor. Outro grito desse e me metamorfoseio em jornaleiro. E assim a Lusitana roda e o JP circula.
IMPRENSA - Como você mesmo citou, jornais alternativos não costumam durar muito tempo. O que você acha que garante, já há 20 anos, a sobrevivência do Jornal Pessoal ?
Lúcio - Depois de 21 anos com um pé na grande imprensa e outro em publicações alternativas, quando comecei a fazer o Jornal Pessoal estava convencido de que só há uma maneira de ser realmente independente: aceitar ser pobre. Assim, montei a estrutura mínima (um homem só) para suportar minha opção editorial: fazer um jornal sem publicidade. Desta vez, além de não alimentar ilusões sobre a adesão dos anúncios, eu simplesmente os recusei desde o início. Iria viver só da venda avulsa do jornal. Tinha certeza de que continuaria pobre, mas pelo menos estou chegando aos 20 anos.
IMPRENSA - Por que não aceitar publicidade?
Lúcio - Quando fiz um jornal alternativo em bases convencionais (com equipe e publicidade), em 1975, eu vi que até mesmo agências não queriam programar o Bandeira 3, mesmo levando seus 20%, porque discordavam da linha editorial independente ou tinham receio dela, já que não podiam interferir nela. Eu tive que fazer as vezes de contato e batalhar para conseguir uns poucos anúncios, dados mais em função da relação pessoal. Isso era muito desgastante e sempre deixava um halo de ação entre amigos. Por isso decidi que o Jornal Pessoal teria que viver sem se submeter a esse desgaste porque sua linha editorial era clara: publicar tudo de importante, doesse a quem doesse. E o órgão do corpo humano que mais dói, conforme já estamos ficando carecas de saber, é o bolso. Disse Delfim neto pela boca de lorde Keynes.
IMPRENSA - A falta de publicidade dificultou a subsistência do jornal e que o foco do veículo fosse mantido?
Lúcio - Não, porque foi uma decisão editorial prévia. Uma vez perguntaram ao Millôr Fernandes se era difícil ser honesto e ele respondeu que não. "Não tem concorrência", explicou. Pois como nunca quis publicidade, não sou incomodado pelo problema que é não tê-la. Eu a abstrai por completo, o que só se tornou factível porque optei deliberadamente pela pobreza.
IMPRENSA - A veiculação do jornal sofreu duas interrupções. Quais foram esses dois momentos e por que essas interrupções?
Lúcio - Em 1989, em meio a muitos problemas pessoais, de reestruturação da vida, abandonando a grande imprensa e a garantia de renda, dediquei-me à experiência de pesquisador e professor universitário. Pensava que talvez pudesse me dedicar integralmente à carreira acadêmica, que era a minha meta de 1969, depois do AI-5. Mas durou pouco essa ilusão: logo as notícias me chamavam de volta e eu atendia ao canto da sereia. A segunda interrupção, em 1991, foi mais curta ainda: tentei retomar a grande imprensa, escrevendo num jornal de Belém artigos três vezes por semana. Mas novamente colidi com a direção da empresa e voltei ao JP , para mantê-lo até agora.
IMPRENSA - Qual a temática central da cobertura do Jornal Pessoal?
Lúcio - Em primeiro lugar, abordar o que, mesmo sendo relevante, ou justamente por isso, a grande imprensa não está cobrindo nem se interessa por publicar. No início, como já estávamos em plena democracia, com a Nova República, eu achava que essa posta-restante do proibido, incômodo e perigoso seria pequena. Com o tempo, vi que ela engrossava cada vez mais. Alguns dos temas a grande imprensa desconhece. Mas outros circulam pelas redações sem chegar ao público. Se não fosse tão extenso o rol dos temas excluídos da mídia, certamente o Jornal Pessoal já teria acabado. Não faria sentido ter uma publicação alternativa só no título. Ela é realmente alternativa porque sem ela determinadas abordagens, pontos de vista, informações e fatos não chegariam à forma imprensa. E, em segundo lugar, eu escrevo o que me motiva e dá prazer. Mas quem for ver a coleção verá que só episodicamente o Jornal Pessoal é, de fato, pessoal. Como regra, pauta-se pela realidade, pela dinâmica do cotidiano.
IMPRENSA - Por abordar temas que a grande imprensa não aborda, você considera que o Jornal Pessoal exerça o Jornalismo Investigativo?
Lúcio - Eu exerço, há 41 anos, o jornalismo. Sem adjetivo acompanhante. Se há algum jornalismo que não checa as informações ele não é jornalismo. Mesmo cobrindo uma visita na redação ou aproveitando um press-release, o jornalista tem que checar. Seja para confirmar as informações como para ampliá-la, libertando da redoma dos interesses e da camisa-de-força das intenções do responsável pelo press-release.
IMPRENSA - Qual o público-alvo do jornal?
Lúcio - Eu gostaria de atingir a todas as pessoas que precisam da informação do jornal, mas seu formato, seu preço e sua forma de comercialização impedem o acesso amplo. Esse formato, que desfavorece o faturamento, permite maior disseminação. Por ser em formato pequeno e ter 12 páginas, ele pode ser xerocopiado com ganhos para quem recorre a esse meio. Infelizmente (falando como - digamos - manager da publicação), eles são numerosos, ainda mais no serviço público, onde nem a xerox é paga. Mas com isso cada exemplar do JP é lido por um universo entre 15 e 20 leitores, muito mais do que a média de um jornal convencional. É assim que ele atinge de empresários, profissionais liberais, universitários, acadêmicos e estudantes até porteiros de prédio, empregadas domésticas e lavradores. E está no clipping de empresas e órgãos públicos, não só no Pará e no Brasil.
IMPRENSA - Quais atividades você realiza no jornal?
Lúcio - Todas as possíveis, como já disse. Até levo os exemplares em alguns pontos de venda não alcançados pelo distribuir, que é o único luxo a que me permito: quem leva o jornal para as bancas e algumas livrarias é a firma Albano Martins, de amigos, que se incumbem brilhantemente dessa tarefa. Sem eles eu não podia manter o jornal na banca. Nem tanto pela tarefa de levar o jornal às setenta bancas nas quais ele é exibido em Belém, mas para cobrar a receita. Só uma distribuidora profissional, com conceito estabelecido no mercado, dá conta dessa tarefa hercúlea.
IMPRENSA - Durante sua trajetória, o jornal sofreu muitas retaliações?
Lúcio - Como o jornal inteiro sou eu, em geral eu a sofro inevitavelmente. As maiores retaliações foram as pressões sobre as gráficas. Poucas delas podem resistir a um aperto, seja de um poderoso privado ou do governo. Já passei por 11 gráficas. Fui descendo da maior e mais sofisticada para a menor e mais simples, onde agora me encontro. Também nessa matéria fui me tornando mínimo. O que é bom por um lado, por imunizar contra essas pressões, é ruim por outro: porque qual a pressão que resta? Sobre o redator-contínuo-expedidor-etc. solitário.
IMPRENSA - Quando você começou o Jornal Pessoal, você trabalhava em outros veículos? Como era sua rotina para dar conta do conteúdo desse novo jornal?
Lúcio - Eu ainda continuei a ter alguma forma de trabalho na grande imprensa até 1992, como freelancer. Em 1989 deixei O Estado de S. Paulo , onde trabalhei ao longo de 18 anos contínuos, por ter perdido as esperanças de executar um projeto pelo qual me empenhara desde 1974: de uma cobertura justa da Amazônia. Em 1992 deixei de ter qualquer vínculo, mesmo ocasional e sem relação trabalhista, com a imprensa local. Em 1997 saí da Universidade, onde, durante sete anos, dei aulas. Desde então, vivo de biscates jornalísticos e uma e outra palestra que me pagam (nunca essa proporção chegou a 5% das palestras que faço). O problema é que fazer o Jornal Pessoal exige muito trabalho. Como a partir de 1992 fui processado 32 vezes, dos quais 15 processos ainda estão em curso, freqüentemente até para fazer o jornal não tenho tempo, absorvido que sou por essa perseguição política via judiciário. O objetivo é me calar de vez e matar o Jornal Pessoal . Estão perto de conseguir esse objetivo. Até hoje não posso me dedicar exclusivamente ao JP . É comum que eu escreva todo o jornal no fim-de-semana. E isso me tem desgastado fisicamente. Estou no limite da resistência.
IMPRENSA - O veículo dá algum retorno financeiro?
Lúcio - Quanto a isso não há o menor problema: nenhum retorno financeiro. Paga-se. E isso já é o bastante, porque nem sempre foi assim.
IMPRENSA - É fato que você mesmo defende seu jornal, em caso de processos? Foram muitos os processos contra o jornal?
Lúcio - Como os advogados que procurei em 1992, quando começaram esses processos, não quiseram enfrentar a Maiorana que me perseguia, recorri a um amigo que não militava no fórum nem tinha escritório. Ele condicionou sua participação na minha defesa a que eu fizesse o fórum, acompanhasse o Diário da Justiça, fizesse as pesquisas e o ajudasse na redação das peças. Ele trabalhava, como ainda trabalha, no serviço público estadual, como procurador. É o que faço até hoje, agora trabalhando com um tio que é advogado, muito experiente e capaz. Não posso sobrecarregá-lo, inclusive porque ele tem um sério problema de saúde, e também precisa ganhar a vida. E minha causa é absolutamente gratuita e franca, embora nem um laivo tenha de risonha. Pelo contrário: é triste e ofensiva ao direito.






