Entrevista: André Singer, porta voz da presidência

Entrevista: André Singer, porta voz da presidência

Atualizado em 04/03/2006 às 11:03, por Luciana Bento e de Brasília.

Entrevista: André Singer , porta voz da presidência

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fotos: Ricardo Stuckert/Presidência da República

Ao assumir a função de secretário de Imprensa da Presidência da República, cargo que acumula com o de porta-voz de Lula, o jornalista e cientista político André Singer não poderia imaginar a bomba que estouraria em seu colo dois meses mais tarde.

Imediatamente lançado ao olho do furacão da crise política que estremeceu as bases do poder no ano passado, o secretário foi obrigado a encarar, durante meses, uma rotina de trabalho de até 15 horas por dia em ambiente de forte pressão.

Nesse período, sua principal tarefa foi enfrentar o que denomina "falta de equilíbrio" na cobertura do episódio por parte de certos setores da imprensa - na verdade um dos muitos eufemismos utilizados pelo porta-voz do presidente para qualificar os momentos mais difíceis enfrentados pelo governo Lula até agora.

O garimpo de palavras, aliás, parece ser uma marca de André Singer. Comedido, como se cada uma de suas frases pudesse surtir efeitos devastadores, o secretário cuida do que fala, mas não foge das questões colocadas a ele. Responde a todas. Algumas em tom didático, quase professoral. Outras de forma objetiva, para não deixar dúvidas quanto a suas intenções.

Foi desta última maneira que respondeu à pergunta sobre os boatos de que será candidato a deputado federal nas eleições deste ano: "não". E encerrou o assunto sem mais delongas, deixando claro o destino que quer seguir ao terminar a sua missão no governo Lula: voltar às salas de aula da Universidade de São Paulo, onde ocupa o cargo de professor de Ciência Política.

Singer explica sua opção chamando para si a responsabilidade de levar para a universidade a experiência "riquíssima" que está tendo no governo federal. "A perspectiva que temos do país a partir de Brasília é totalmente diferente da que temos desde São Paulo", garante.

A afirmação ganha mais sentido quando lançamos o olhar sobre um currículo diversificado, que faz jus à inquietação típica dos aquarianos: formado em Jornalismo e em Ciências Sociais pela USP, universidade pela qual obteve doutorado em Ciência Política, André Singer foi secretário de redação da Folha de S.Paulo , diretor de redação da revista Superinteressante e porta-voz da campanha presidencial do PT em 2002 - além de autor vários livros nas áreas de jornalismo e ciências sociais.

O secretário, que despacha pelo menos três vezes ao dia com o presidente Lula, avalia que o pior já passou: minimiza o incidente envolvendo o jornalista do The New York Times e trata com naturalidade a pesada carga de responsabilidade imposta pelo cargo. "Era uma aspiração muito antiga, venho de uma família que sempre teve muito envolvimento político. Eu tive a oportunidade de viver por dentro este desafio de governo de que eu tanto havia ouvido falar e isso me deu uma visão totalmente diferente do que é a realidade do país."


"O presidente dá, em média, quase uma entrevista por semana"

IMPRENSA - Vamos começar por uma questão óbvia, mas absolutamente necessária: como o senhor avalia a cobertura da imprensa durante a crise no ano passado?
André Singer - Eu acho que em países democráticos, como é o caso do Brasil, a relação entre imprensa e governo sempre envolve um certo grau de tensão. A imprensa tem a missão de ser crítica e, em regimes democráticos, em que a imprensa é livre, não há como fugir desta equação. Mas eu diria que, no ano passado, durante a crise, houve momentos em que faltou equilíbrio a certos setores da imprensa na cobertura.

IMPRENSA - O senhor poderia citar algum exemplo desta falta de equilíbrio, algum episódio?
Singer - Eu não gostaria de fazer isto, pois me obrigaria a citar nomes e, na minha posição de secretário de Imprensa e porta-voz da Presidência da República, cabe a mim manter um diálogo permanente com estes mesmos veículos. Por isso eu prefiro não nominar. Mas eu poderia te dizer que, em diversos momentos, faltou presunção de inocência em vez de presunção de culpa com relação ao governo. Ao mesmo tempo, creio que prevaleceu, em certos setores da imprensa, a idéia de que a administração federal estava paralisada quando, na realidade, em nenhum momento o governo deixou de agir naquilo que são os seus compromissos: ações sociais e de infra-estrutura, na economia, etc.

IMPRENSA - O senhor assumiu o cargo de secretário de Imprensa da Presidência, no lugar do jornalista Ricardo Kotscho, mais ou menos na época em que estourou a crise. Como foi isto?
Singer - Eu assumi esta nova função em março de 2005, a partir da decisão de fundir o gabinete do porta-voz e a Secretaria de Imprensa - que decorreu do diagnóstico de que, com a fusão, poderíamos fortalecer as atividades de relacionamento com a imprensa. Bom, eu assumi em março e a crise começou no final de maio, de modo que eu fiquei os primeiros três meses neste trabalho de reestruturação da Secretaria. Esta tarefa continuou, mas tive que cumpri-la paralelamente ao cuidado com o atendimento à imprensa, que naturalmente passou para um patamar mais intenso do que era antes da crise. Então, passamos mais ou menos três meses com uma sobrecarga de trabalho enorme, nosso cotidiano era trabalhar 15 horas por dia, sob forte tensão.

IMPRENSA - O senhor falou em estreitamento do contato com a imprensa. Este é, na verdade, um ponto bastante criticado pelos jornalistas, que dizem que o presidente não fala com a imprensa, não dá entrevistas coletivas, só fala de improviso... Mudou alguma coisa?
Singer - Em primeiro lugar, eu acho que há um certo exagero nesta visão de que o presidente não conversa com a imprensa. O presidente tem uma regularidade no contato com a imprensa que muitas vezes não fica muito visível, mas ele já deu mais de 200 entrevistas desde que assumiu. Muitas delas foram para grupos de jornalistas, outras foram exclusivas. Eu diria que o presidente dá, em média, quase uma entrevista por semana. Para te dar um exemplo, nas recentes viagens que o presidente tem feito, para dentro e para fora do Brasil, ele fala quase diariamente com os jornalistas. Por isso eu afirmo que há um certo exagero nesta visão de que o presidente fala pouco com a imprensa, isto está errado. Por outro lado, as demandas de entrevistas com o presidente são muito numerosas. E nós temos, aqui na Secretaria de Imprensa, a política de que todas elas sejam atendidas. São demandas da imprensa regional, nacional e internacional.

IMPRENSA - Mesmo assim, a imprensa aproveita muito as falas improvisadas do presidente. Isto não traz algum tipo de problema?
Singer - Eu acho que o presidente tem uma comunicação direta com a população por meio de seus discursos, o que é muito positivo também. Uma coisa não se contrapõe à outra, elas se complementam. Se o presidente tem uma forma de expressão que atinge diretamente a população, isto é importante. Assim como é importante que ele responda as perguntas dos jornalistas. Não faço uma contraposição entre as duas coisas, acho que elas são complementares.

IMPRENSA - E as entrevistas coletivas? O senhor teve um papel importante no convencimento do presidente em atender a imprensa em uma entrevista coletiva em abril do ano passado. Haverá outras?
Singer - O presidente deu, ao longo destes três anos de mandato, várias entrevistas coletivas. Ele falou várias vezes para grupos de jornalistas de veículos diferentes e isto certamente se caracteriza como entrevistas coletivas. O que eu acho que existe é uma demanda para que sejam feitas coletivas onde participem muitos órgãos de imprensa ao mesmo tempo. Nós, da Secretaria de Imprensa da Presidência, achamos que esta é uma modalidade boa e que deve ser usada outras vezes. Foi muito positivo que o presidente tenha feito uma coletiva nestes moldes no dia 29 de abril do ano passado. Ela pode e deve se repetir. Mas o que eu acho importante a gente olhar também é que esta não é a única modalidade de contato com a imprensa. É uma das modalidades. Até mesmo na organização daquela coletiva ficou claro que, quando se fala em coletiva aberta, não há como contemplar o universo de veículos de comunicação. Eu vou dar um exemplo: naquela coletiva houve uma insistência muito grande para que fosse reservado um espaço para veículos de Internet. É uma demanda absolutamente legítima, pois há veículos importantes que se expressam exclusivamente pela Internet. No entanto, não foi possível atender a este pedido, pois o número de veículos que existe hoje no Brasil é tão grande que, por mais que tenhamos tentado chegar a um formato que agregasse o maior número possível de veículos, fica difícil contemplar a todos.

Leia a matéria completa na edição 210 (março) de IMPRENSA