Entrevista: Fernando Salerno, presidente da APJ e diretor do jornal Valeparaibano
Entrevista: Fernando Salerno, presidente da APJ e diretor do jornal Valeparaibano
Fernando Salerno, 35 anos, não é jornalista por formação, mas comanda o mais poderoso jornal do Vale do Paraíba, o Valeparaíbano. O diário que reina sozinho na região é sediado em São José dos Campos (SP), mas conta com um poder de fogo que ultrapassa com folga as fronteiras da cidade. Fundado nos anos 50, foi só em 1976, sob a batuta do empresário Ferdinando Salerno, pai de Fernando, que o Valeparaíbano começou a se transformar na potência que é hoje.
Além de diretor do Valeparaíbano, Salerno é presidente da APJ (Associação Paulista de Jornais) e diretor da ANJ (Associação Nacional de Jornais), cargos que o colocam entre os empresários de comunicação mais poderosos do país. Seu jornal cobre 25 cidades, com uma tiragem de 33.000 exemplares diários e tem 63 jornalistas na redação. Em decorrência de uma grave crise financeira, o gigante grupo Folha fechou sua sucursal na região, tornando o reinado do Valeparaibano absoluto.
PORTAL IMPRENSA - Como nasceu o Valeparaibano?
Salerno - Meu pai, Ferdinando Salerno, comprou o título Valeparaibano do João Jorge Saad, da Bandeirantes, em 1976 e entregou o projeto editorial ao jornalista Cláudio Abramo. Naquela época, o Vale não tinha nem periodicidade. Eram só 9 funcionários na redação. Quem liderava aqui era o jornal Agora, que não existe mais. Construímos esse prédio de tal forma que a noticia tivesse um fluxo como uma indústria da informação.
PORTAL IMPRENSA - A força do Valeparaibano tem alguma relação com o fracasso dos cadernos regionais da Folha de S. Paulo?
Salerno - A Folha chegou a lançar 5 suplementos. Num primeiro momento cancelou 2 e manteve 3 - Vale, sudeste e Ribeirão. A Folha Vale eles cancelaram ano passado e a Sudeste este ano. Não acho que exista uma relação direta. Talvez por tabela, de forma indireta, o trabalho em bloco dos líderes regionais tenha contribuído para isso. A APJ fortaleceu os jornais locais inibindo o crescimento de outros veículos. Mas existem outros aspectos. Veja só o caso do Valeparaibano, por exemplo: Nós temos 63 funcionários na redação, a Folha tinha 3. Ou seja: o investimento é desproporcional. A tendência de fortalecimento da mídia regional não é só brasileira. Eu tenho aqui um exemplar do Orlando Sentinel, que circula exclusivamente na cidade de Orlando. Eles circulam com 400 páginas e 265 mil exemplares aos domingos em uma cidade com 1 milhão de habitantes. A Folha não tem 250 mil exemplares na cidade de São Paulo, eles tem 300 mil no Brasil...
PORTAL IMPRENSA - E vocês hoje reinam sozinhos no Vale...
Salerno - A maioria dos jornais líderes de região, como Correio Popular, de Campinas, Jornal da Cidade, de Bauru e o próprio Valeparaibano, atuam de forma hegemônica. Você tem um ou outro jornal que concorre, mas com uma participação pequena de mercado. Eu acho isso uma tendência.
PORTAL IMPRENSA - Como o jornal consolidou-se como uma potência do Vale? Foi difícil romper com o bairrismo em cidades como Taubaté e Pinda?
Salerno - Nós encontramos dificuldades nesse sentido, mas procuramos quebrar resistências. O próprio nome é mais abrangente e contribui. O investimento que a gente faz na cidade de Taubaté é desproporcional ao retorno. Eu tenho uma estrutura própria na cidade, com 3 jornalista, um gerente e uma redação. Mas não recebo a contrapartida em função desta resistência histórica. Nenhum outro jornal regional investe em cidades adjacentes tanto quanto nós. Taubaté tem uma página e meia por dia no Valeparaibano.O Correio Popular, por exemplo, não entra em cidades como Limeira ou Americana.
PORTAL IMPRENSA - De que forma opera e qual o papel da Associação Paulista de Jornais?
Salerno - A APJ foi fundada em junho 1993 com o objetivo de trocar informações com transparência e fortalecer os jornais líderes das regiões. Nós temos dois núcleos de trabalho: o editorial tem como objetivo compartilhar material noticioso. Esse núcleo promove seminários e palestras para fortalecer nosso conteúdo e negocia a compra de pacotes de agências de noticias com preços melhores. O outro núcleo é o de insumos. Nós compramos matérias primas em conjunto. Fazemos uma negociação única para a compra de papel, tinta, chapas de impressão e filmes. Isso nos traz uma vantagem competitiva muito grande. Diferentemente da ANJ, no ambiente da APJ os jornais não concorrem entre si. Essa é uma grande vantagem que a gente leva. Nosso objetivo central é defender ferozmente a liberdade de imprensa. Nossos associados praticam um jornalismo sério, apartidário. Nós não dependemos de verbas de governo em nenhuma esfera.
PORTAL IMPRENSA - Se vocês não dependem de dinheiro do governo, porque manter um escritório comercial em Brasília?
Salerno - Nós não dependemos dessas verbas, mas seria incompetência nossa não trabalhar em Brasília. Nosso objetivo lá é buscar um investimento proporcional com a circulação destes jornais. O governo pulveriza investimentos em grandes jornais, quando poderia investir nos líderes regionais com resultados melhores.
PORTAL IMPRENSA - O mercado editorial do interior está blindado contra crises?
Salerno - Sem dúvida os jornais regionais mantém o equilíbrio financeiro melhor que os jornalões. Por que? Porque nós dependemos menos de uma bolha publicitária que surgiu com os investimentos em Internet e telecomunicações. Os jornais regionais foram crescendo ao longo dos últimos anos de uma forma gradativa. E os grandes, nos últimos dois anos, passaram a depender muito destas duas verbas. Os regionais pulverizaram a dependência publicitária.






