Entrevista: Fernando Gabeira
Entrevista: Fernando Gabeira
Fotos : Marcelo Botelho Antena no mangue*
Em 1993, durante a CPI do Orçamento, o pré-candidato Lula, em um de seus rompantes de espontaneidade, se referiu aos ocupantes do Congresso Nacional como "300 picaretas com anel de doutor". A frase causou furor no Parlamento e inspirou a banda "Paralamas do Sucesso" a criar o hit daquele verão "Luís Inácio falou, Luis Inácio avisou..."
Nos corredores da Câmara a declaração do líder petista, que estava na dianteira de todas as pesquisas de opinião para a presidência, e a música, que não parava de tocar nas rádios, causaram uma onda de indignação corporativa. Coube ao solitário jornalista e deputado verde Fernando Gabeira a missão de subir a tribuna para defender tanto a banda, quanto Lula.
Luis Inácio ainda perderia duas eleições antes de chegar à presidência, em 2002, quando contou com o apoio de Gabeira. Naquele ano, ele deixou o PV para concorrer à Câmara pelo PT. A vida do deputado como governista durou pouco. Uma vez no poder, Lula teve de se render aos "300 picaretas" que um dia foram alvo de sua verborragia. Já Gabeira, não. Ele preferiu voltar ao pequeno PV, de onde poderia seguir erguendo suas bandeiras solitárias, entre elas, a luta contra o corporativismo e a corrupção na Câmara. Gabeira abandonou o barco bem antes do começo do naufrágio, apesar do risco de enfrentar cláusula de barreira em sua próxima empreitada.
Livre das amarras partidárias e dos "acordões", denunciou, dedo em riste, os desmandos de Severino Cavalcanti na presidência da Câmara: "Vossa Excelência está em contradição com o Brasil. Vossa Excelência é um desastre para o Brasil. Ou Vossa Excelência fica calado ou vamos iniciar um movimento para derrubálo", disparou, da tribuna. Severino caiu, o quixotesco Gabeira venceu.
Para agendar essa entrevista, concedida a IMPRENSA em seu gabinete em Brasília, bastou um telefonema, direto para seu celular. O jornalista e ex-guerrilheiro Fernando Nagle Gabeira não tem assessor de imprensa. Dos tempos de militância nas redações, em especial no Jornal do Brasil, herdou o gosto pelo contato direto com os repórteres. Entre uma sessão e outra da CPI dos Sanguessugas, onde está na linha de frente, apesar de não ter nenhum cargo relevante, Gabeira falou sobre as dificuldades para renovar seu mandato e desabafou: "Sou popular, mas as pessoas não votam em mim".
*O título "Antena no mangue" foi inspirado na música de Chico Science e Nação Zumbi.
"Sou popular, mas as pessoas não votam em mim. Uns porque sou supostamente maconheiro, outros porque sou supostamente veado, ou porque sou veado e maconheiro"
IMPRENSA - Como você, que é jornalista, explica o fato do projeto de lei da FENAJ ter passado batido pelo Congresso, ser aprovado pelo Senado e chegar, sem resistência nenhuma, na mesa do presidente Lula?
FERNANDO GABEIRA - Não vi esse projeto ser discutido, nem aprovado pela Câmara. Se tivesse visto, teria denunciado. Pode ser que tenha passado de forma terminativa, em uma comissão, e ido direto para o Senado sem passar pelo plenário. Esse Pastor Amarildo, autor do projeto, está sendo acusado de ser "sanguessuga". É um pastor evangélico, um deputado inexpressivo do Tocantins, que está sendo acusado de corrupão.
IMPRENSA - Você é um dos únicos, senão o único, deputado que não tem assessor de imprensa. Por que tomou essa decisão?
GABEIRA – Os jornalistas não aceitariam falar com meu assessor de imprensa e eu também não aceitaria essa mediação. Tenho uma relação muito fácil com os repórteres. Durante muito tempo no Jornal do Brasil me dediquei ao ensino – eu treinava os estagiários que iam se integrar ao jornal e editava uma revista, que era missão fi nal de quem fazia esse curso, os Cadernos dos Jornalistas. Sempre gostei muito da relação com o repórter.
IMPRENSA – A ausência de um assessor de imprensa, então, não foi uma opção política, para economizar verba de gabinete?
GABEIRA – Meu gabinete tem menos gente do que os outros. Eu gasto menos dinheiro, devolvo R$ 8 mil de salário (do gabinete). Fui contra o aumento da verba (com pessoal). Aí os deputados falaram: “Se você fosse coerente, não aceitaria esse aumento”. Então decidi não aceitar.
IMPRENSA – Vai ser mais difícil renovar seu mandato pelo PV do que foi pelo PT, em 2002?
GABEIRA – Estou na Câmara há três mandatos. Quando fui candidato pelo PT perdi nove mil votos. Não tive nenhuma vantagem com a mudança de sigla. Atribuo isso ao encurtamento brutal do tempo de TV. Eu tinha, no PT, cinco segundos no horário gratuito. Além disso, sou ruim de voto. Sou popular, mas as pessoas não votam em mim. Uns porque eu sou supostamente maconheiro, outros porque sou supostamente veado, ou porque sou veado e maconheiro. Outros acham que não tenho seriedade o suficiente. Minha situação é delicada. Sou eleito sempre no fio da navalha. Em 2002, eles (PT) me sacaneavam muito na campanha.
IMPRENSA – Sacaneavam como?
GABEIRA – Na campanha de 2002 o tempo de TV dos candidatos a deputado era muito reduzido. Além disso, havia uma luta interna muito intensa. Nem todos os panfl etos eram aceitos nos comitês
IMPRENSA – Como você está se preparando para a vida partidária pós-cláusula de barreira?
GABEIRA – A cláusula não é um absurdo. Pelo contrário. O dinheiro público vai fi nanciar os partidos realmente representativos. O caminho, para o PV, é continuar como um partido não –legal, mas real, reconhecido por sua atuação. Ou integrar uma federação de partidos, mantendo a autonomia. A cláusula de barreira é até interessante porque afasta os oportunistas. Quanto ao meu desempenho em particular, não me importo. Quem tem reconhecimento não precisa de cargo.
IMPRENSA – Você recebeu muita pressão dos colegas quando decidiu brigar pela criação da CPI dos Sanguessugas, onde 60 parlamentares estão envolvidos?
GABEIRA – A CPI dos Sanguessugas foi feita com muita dificuldade. Quando nós queríamos fazer todo mundo dizia que seria impossível. Diziam que havia muita gente envolvida, que nós éramos fracos, que o Congresso é corporativo e que vai haver eleições. Quando nós conseguimos criar a Comissão, diziam que nós não íamos conseguir instalar, porque havia a Copa do Mundo. Quando instalamos, diziam que não ia funcionar. Nós estamos funcionando. Agora estão dizendo que nós não vamos apresentar o relatório fi nal. Mas nós vamos apresentar. Muito possivelmente a punição não acontecerá esse ano. Caberá à opinião pública dar a sentença: volta ou não volta para a Câmara? Essa CPI vai significar um fio de esperança.
"A oposição de hoje não trabalha com informação, não municia a imprensa"
IMPRENSA – Você esteve na linha de frente do movimento que derrubou o Severino. O que está achando da gestão Aldo Rebelo na presidência da Câmara?
GABEIRA – O Aldo entrou em um momento de pressão, depois que o processo estava degradado. E foi obrigado a conduzir a equipe do Severino. Só houve eleição para presidente, todos os outros cargos são da antiga gestão. Além disso, ele não estaria eleito se não tivesse recebido ajuda do governo, para quem deve muita lealdade.
IMPRENSA – Gilberto Gil, seu companheiro de PV, tem sido um bom ministro da Cultura?
GABEIRA – O Gil é um ministro da cota do presidente. Não foi escolhido por ser do PV. Ele vem investindo mais nas relações exteriores dos que nas questões internas. Se eu fosse o presidente, escolheria um ministro mais voltado para os projetos internos do que para a diplomacia.
IMPRENSA – Você defendeu muito a cobertura da imprensa na crise do mensalão. O que acha da postura do governo, de colocar a culpa de todos males do PT na mídia, que foi chamada até de “macartista”?
GABEIRA - Lula sempre vai dizer que sofreu uma campanha violentíssima. A imprensa cumpriu um bom papel durante a crise. O problema do escândalo é que boa parte dele foi desvendado pela Câmara, no contexto de audiências públicas. E essas audiências estavam muito mais para telenovela do que para a reportagem. As pessoas perguntam a mesma coisa, não estudavam o material antes...
IMPRENSA – Você publicou um artigo recentemente defendendo a cobertura durante o escândalo do mensalão. Disse que “a imprensa é o espaço mais luminoso do Brasil”. Na sua opinião, a imprensa foi mais atuante nos escândalos do governo Lula do que nos da gestão FHC?
GABEIRA - No período do Fernando Henrique os rastros eram menores. As coisas eram feitas com mais cuidado e era mais difícil apurar. Por outro lado, a gestão FHC tinha uma oposição mais combativa e bem informada. A oposição de hoje não trabalha tanto com informação. Não municia a imprensa.
IMPRENSA – A mídia cobre mal o Congresso?
GABEIRA – Em 2002, fiz um movimento para ampliar a cobertura (do Parlamento). Troquei correspondências com o ombudsman da Folha, com O Globo. A cobertura só se concentrava nas eleições presidenciais. Muitos candidatos querem um mandato para se proteger da Justiça. Em 2006, a cobertura melhorou. Existe mais espaço para mostrar quem são os deputados problemáticos.
IMPRENSA – Como avalia a cobertura da política no Brasil?
GABEIRA - A cobertura da política brasileira ainda é muito romântica. A imprensa fi ca em cima dos movimentos de aproximação e recuo dos políticos. Só que o jogo político é cada vez menos interessante para as pessoas.
Leia matéria completa na edição 215 de IMPRENSA






