Entrevista com o Ministro da Educação de Cuba

Entrevista com o Ministro da Educação de Cuba

Atualizado em 03/03/2005 às 09:03, por por Renata Mielli e  de São Paulo - para o site www.une.org.br.

Tradução: Pablo Reimers

Ao entrar na sala de imprensa para entrevistar o Ministro da Educação de Cuba, Fernando Vecinno, um senhor de cabelos brancos com seus sessenta e pouco anos, eu estava preparada para fazer uma conversa formal. Sentei-me ao lado dele, e iniciei a aproximação, chamando-o de senhor. Fui prontamente interrompida: "Antes de tudo não me chame de senhor, me chame de companheiro. Sou ministro da educação superior de Cuba, mas fui um combatente da revolução e nada mais sou que um companheiro de vocês".

Naquele momento, me dei conta de que aquela não seria uma entrevista protocolar, e que eu estava lado a lado com um ex-guerrilheiro, que lutou junto com Che Guevara, Camilo Cienfuegos, Raul Castro, Fidel Castro e muitos outros jovens que acreditaram na possibilidade de transformar radicalmente seu país, tornando-o mas justo e independente. Acreditaram e tomaram para si a tarefa de fazer essa mudança, revolucionária, que libertou Cuba e a transformou na Ilha da Esperança.

Estudantenet: Qual a emoção que você sente ao ver os estudantes que estão aqui lutando pela mesma causa que você lutou?

Vecinno - Muito grande. Isso me faz lembrar dos companheiros que deram suas vidas pela revolução num momento de grande ceticismo, em um momento que parecia que não se podia derrotar as forças armadas imperialistas, como eram as de Batista em Cuba, apoiada por militares norte-americanos. Esse modelo que existiu em Cuba, não será o modelo que existirá para sempre na América Latina. Existem outros, por exemplo, no Brasil, onde um operário chegou à presidência deste, diga-se de passagem, charmoso país, o qual devemos apoiar e nos unir para que possa continuar fazendo o processo de justiça social. Outro exemplo é a revolução que promove Chávez, um homem que veio das forças armadas, que conduz uma revolução distinta da revolução cubana, mas que tem objetivos similares.

Estudantenet - Você acredita que esta nova correlação de forças políticas progressistas que está surgindo pode contribuir com as mudanças na América Latina?

Vecinno - Sem dúvida! Vim ao Brasil com um duplo propósito: participar deste congresso e me encontrar com Tarso Genro (ministro da educação do Brasil). Estive, também, com Cristóvão Buarque que é meu amigo e foi o primeiro ministro da educação do governo Lula, para dar andamento aos convênios com as universidades cubanas. O mesmo estamos fazendo com as universidades venezuelanas, uruguaias e com outros países, sem restrições. Sem nenhuma dúvida (o novo quadro político) vai facilitar esta integração, e cada vez vamos avançar mais. Ao contrário dos europeus, que tiveraram guerras sangrentas durante muitos anos, e que falam línguas diferentes uns dos outros, nós temos a vocação para sermos uma unidade. A língua nos une e mesmo o português é muito parecido, ao ponto de não ser um entrave para a comunicação.

Estudantenet - Gostaríamos de saber como foi desenvolvido o processo de universalização da educação básica em Cuba, e como encontra-se o mesmo processo no que diz respeito ao ensino superior?

Vecinno - Acredito que a chave do sucesso tenha sido a alfabetização. Em Cuba havia quase um milhão de analfabetos, em uma população de seis milhões de habitantes. Esse era o grande desafio da revolução quando chegou ao poder no ano de 1961. Com o auxílio de 100 mil estudantes do ensino médio combatemos o analfabetismo em todos os lugares do país. Estudantes e operários foram mobilizados para esse esforço. Avançamos para que os nove anos que compõem a educação básica de Cuba fosse para todos. A mudança também foi implantada no ensino superior, porque nossa universidade estava muito defasada, existiam apenas as pesquisas científicas, não existia a ciência constituída como trabalho. A tarefa de mudar a educação foi difícil, mas sempre lutamos para nos equipararmos aos melhores do mundo. Esta equiparação nos motiva para buscar qualidade mundial e temos tentado ter como príncipio a justiça social.

Estudantenet: E no Ensino Superior, como vocês enfrentaram o desafio de incluir o povo mais humilde na universidade?

Vecinno - Fizemos com que os jovens, com menos oportunidades, traçassem o caminho rumo à universidade, o que tem resultado, nestes 43 anos de revolução, mais de 700 mil universitários graduados. Quando a revolução chegou ao poder, a maioria dos estudantes universitários não eram provenientes das camadas humildes da população, faziam parte da burguesia e da pequena burguesia. Alguns, incluindo os professores, não tinham humildade bastante para abraçar a causa da revolução. Por isso, quando chegamos ao poder, iniciou-se um processo de êxodo de professores e estudantes. Começamos, então, a capacitar os estudantes que não tiveram a oportunidade de ingressar na universidade, com cursos de nivelação. Fizemos um grande esforço para reforçar academicamente as pessoas humildes. A Federação Estudantil Universitária – FEU, da qual fazia parte, teve um papel importantíssimo para que a universidade não fosse fechada. Os estudantes buscaram dentro da própria organização, os mais esclarecidos, mais entusiasmados e que foram preparados. E uma coisa muito revolucionária aconteceu: Os estudantes do segundo e terceiro ano davam aulas para os do primeiro e os estudantes do quarto e quinto período davam aula para o terceiro ano. Não havia outra solução, porque com a revolução metade dos professores foram embora.

Estudantenet: Essa esperiência ressalta a importância da participação estudantil?

Vecinno - A América Latina se caracteriza pelo papel dos estudantes, o que não existe na Europa. Na revolução de Outubro (Russa), os estudantes tiveram pouquissima participação, lá a revolução foi dos operários, camponeses e soldados. Já, aqui no nosso continente, vemos claramente a força dos estudantes. Penso que para fazer mudanças na América Latina, deva-se contar com o movimento estudantil.

Estudantenet – Como Cuba contorna a falta de estrutura material para a formação dos estudantes e para a estruturação da universidade em função do bloqueio econômico?

Vecinno - Damos grande prioridade para buscar o essencial, o básico. Nos faltam coisas, não temos todo o equipamento que precisamos, mas, por exemplo, o equipamento de computação, temos desde a escola primária até a universidade. Todas as escolas de Cuba têm computadores. No que se refere à informatização que o mundo impõe, lhe direi que não ficamos para trás e, ao mesmo tempo, soubemos inverter as coisas. Não nos ocorreria desenvolver projetos de pesquisa automotiva ou de estudos aeroespaciais, por outro lado, nas áreas de biotecnologia vegetal e industrial, na fabricação de medicamentos de alta tecnologia para salvar a vida de nossas crianças, nisso somos competitivos em nivel mundial. Todos os nossos recursos são destinados a estas prioridades, tudo que seja para a saúde do povo, não é gasto, é investimento no ser humano. Nos esforçamos em técnicas avançadas que permitam garantir a sobrevivência da humanidade no futuro, a engenharia genética e o estudo de sementes nos permitem reproduzir em laboratório as plantas que nos alimentarão caso ocorram tragédias naturais como furacões e outros desastres. Podemos falar também dos medicamentos que só as grandes empresas fabricam. Nós fabricamos quantos remédios sejam necessários para frear o crescimento da Aids, muito mais baratos. Somos um país com pouquissímos casos de Aids. Nos preocupa saber que existem na Àfrica países que podem desaparecer por completo por falta de tratamento, e os Estados Unidos e os países da União Européia não buscam soluções. Com pouco dinheiro se resolveriam muitos desses problemas. Depois vêm nos dar lições de moral acerca dos direitos humanos que eles não praticam, os primeiros terroristas são eles, que disseram haver armas nucleares no Iraque, uma grande mentira que serviu de pretexto para assassinar milhares de pessoas desarmadas.

Estudantenet: Quais são as iniciativas tomadas pelos governos dos países da América Latina para aumentar a integração na área educacional com Cuba?

Vecinno - No caso do Brasil estamos vendo que tipo de colaboração científica teremos que fazer e estamos dando passos importantes. Em Cuba, para nosso orgulho, em mais de quarenta anos formamos mais de 20 mil estudantes estrangeiros em ensino superior, não só da América Latina, mas também, muitos estudantes da Àfrica, muitos da Ásia. Agora selamos um acordo onde todo ano chegarão mais de 2 mil estudantes venezuelanos em Cuba, o que aliviará a Venezuela que, por outro lado, nos vende petróleo a preço justo. Temos dezenas de milhares de médicos trabalhando diretamente na solidariedade entre os povos. Nos preocupa a saúde dos povos irmãos. Acreditamos que cada um tem que ajudar com o que tem de melhor. Formamos muitos médicos, e temos bastante médicos em outros países, é a nossa forma de ajudar.