Entrevista com Júlio Blank
Entrevista com Júlio Blank
O jornalista Júlio Blank tem 52 anos de idade e 27 de profissão, sendo 25 deles dedicados ao jornal Clarín, o maior da Argentina. Na redação começou como estagiário do caderno de esportes, depois foi promovido a repórter, editor de política , até chegar um dos cargos mais altos na hierarquia da redação - editor chefe.
Em entrevista exclusiva para IMPRENSA, Blank faz um balanço da situação do jornalismo argentino e comenta a quantas anda a imagem do governo Lula do lado de lá da fronteira
PORTAL IMPRENSA: Como é visto o governo Lula entre os jornalistas argentinos?
Blank: Se o jornalista argentino for de esquerda, enxerga Lula como um traidor. Se for de direita, como um perigo comunista. Esse debate está tomado pela questão ideológica. Sendo assim, não há como dizer de forma definitiva como Lula é visto nas redações. Depende do ponto de vista.
PORTAL IMPRENSA: E você, como avalia o atual governo brasileiro?
Blank: Lula maneja um país em crise. E a crise nos obriga a colocar na balança de um lado os princípios, de outro o possível. Dentro deste equilibrio me parece que Lula governa razoavelmente bem, com um forte respeito aos interesses nacionais.
PORTAL IMPRENSA: No Brasil, existe um projeto em curso, elaborado pela FENAJ e apresentado pelo executivo, que prevê a criação do Conselho Federal de Jornalismo. Se aprovado, esse orgão será uma autarquia com poderes para fiscalizar e punir jornalistas, como acontece com o Colégio de Abogados da Argentina. O que pensa sobre isso?
Blank: Estou acompanhando esse debate. Esse projeto me parece uma tentativa de controlar a imprensa. E tentativas como essa não são boas, nem más. São inúteis. Não existe maneira de se controlar a imprensa em um estado democrático. Só governos totalitários conseguem isso. Nem mesmo Chávez, que tem um conceito de democracia difícil de assimilar para os argentinos, consegue controlar a mídia do seu país. O único resultado prático desse debate sobre o CFJ é a criação de ódios e rusgas.
PORTAL IMPRENSA: O presidente Kirchner mantém uma relação aberta com a imprensa argentina? Tenta intervir de alguma forma na pauta?
Blank: Ele tenta intervir, indiretamente, através de seus assessores imprensa, nas redações. E em muitos casos consegue. Alguns funcionários do presidente são especialistas em fazer política em cima dos veículos: sabem qual jornalista procurar, a que horas e que noticia dár-lhes. Outra forma de intervenção oficial, que aliás é uma tradição na Argentina, é através da propaganda oficial. Isso é acontece tanto nos meios que aparecem para o público como muito amigos do governo, quanto nos que são muito críticos. Existem acordo comerciais, onde apenas alguns ministros podem ser criticados.
PORTAL IMPRENSA: Existe algum código de ética ou manual de redação no Clarín?
Blank: Existe...Mas quase ninguém leu. (risadas). É um livro na estante, que sequer está aqui. O código de ética se faz no dia a dia, em cada ocasião.
PORTAL IMPRENSA: Você é sindicalizado?
Blank: Já fui durante muitos anos, mas atualmente não sou mais..
PORTAL IMPRENSA: Qual sua avaliação sobre o movimento sindical dos jornalistas na Argentina?
Blank: Aqui nós temos a UPTBA (União de Trabalhadores de Imprensa de Buenos Aires) e a FATREN (Federação Argentina dos Trabalhadores de Imprensa), que tradicionalmente são rivais. A FATPREN tem uma orientação peronista e tradicional e UPTBA é mais de esquerda. Acontece que os sindicatos tem perdido força e capacidade de representação. As condições de trabalho tem mudado muito, na imprensa e em todos os setores. E os dirigentes sindicais não tem sido capazes de acompanhar este processo. O peso social dos sindicatos na vida social argentina diminuiu muito.
PORTAL IMPRENSA: Qual foi a última grande crise do Clarín?
Blank: Agora (risadas). Este jornal tem uma dívida externa enorme. O Clarín faz parte de um grupo de comunicação muito grande, do qual fazem partes canais de TV, rádio, empresas impressoras, revistas. Como é público e notório, esse crescimento foi financiado com crédito externo. Quando o dólar passou a valer três vezes mais, nossa produção no mercado interno passou a valer três vezes menos e o valor da publicidade se dividiu em três, enquanto a dívida se multiplicou por três. A grande luta das empresas argentinas, em todas as áreas, é preservar o controle das empresas frente ao ataque dos fundos que vem de fora aqui comprar barato. O Clarín tem lutado com muito êxito para renegociar suas dívidas e manter suas empresas em mãos nacionais. 





