Entrevista com Andrew Keen

Entrevista com Andrew Keen

Atualizado em 08/10/2009 às 18:10, por .


Visto por muitos como o cavaleiro do apocalipse da internet, Andrew Keen afirma categoricamente que não é contra a tecnologia, mas que seu usuário deve se munir de precauções. É basicamente esse o tom de seu "O Culto do amador", best-seller que verifica como instituições que lidavam criteriosamente com informação e conhecimento estão sucumbindo diante da avalanche de mídias sociais e outras ferramentas digitais da web 2.0. O autor britânico fala, a seguir, sobre alguns dos aspectos preocupantes acerca da sobrevivência da mídia tradicional.

CRISE FINANCEIRA E "O CULTO DO AMADOR"

"Não estou convencido de que teve uma crise de verdade. Assim como o pânico sobre a crise suína, no meu ver, foi exagerado no início, com muitas pessoas morrendo e alta dose de infecção para, depois, se descobrir que era uma versão um pouco piorada da gripe normal.

Nesse universo de novas tecnologias as coisas acontecem e explodem de forma dramática, é essa lógica do mundo da mídia em real time. Tudo que está quente, está fervendo, é massivo. É como no Twitter, tudo é tendência, está no trending topics e, alguns minutos depois, as pessoas esquecem sobre o que falavam tanto e começam a falar de algo novo.
Essa crise global representa um evento de um tempo novo no qual o mundo e a mídia em real time estão fundidos num tipo de experiência surreal, em que viver é como estar numa montanha-russa. Tudo está ficando real time: a economia, a crise, a globalização, a mídia, as pessoas. Tudo está ficando mais e mais a curto prazo. Qual a próxima moda, a próxima gripe, o próximo carro, o próximo aplicativo...? Ninguém mais tenta ter uma visão a longo prazo."

DECLÍNIO DO IMPRESSO

"Todos nós estamos mergulhando na crise dos jornais com eles. Até eu, que sou um grande defensor deles, quando pego um jornal para ler fico impaciente. Não porque não seja bom, mas porque é velho. A ideia disso agora é: se passou de duas horas, é velho! Essa economia em real time vai mudar tudo, vai mudar o jeito que pensamos em nós mesmos, que nós consumimos e produzimos informação. Acho que vai haver profundas ramificações de informação.

Sim, [a transformação que ameaça as mídia tradicionais] é sem volta. Da mesma forma que com a revolução industrial, você não podia voltar à manufatura. Das cidades, você não vai voltar ao campo. Da globalização, você não vai voltar ao Estado de nações. O desafio agora é ir em frente de modo que seja produtivo e se evite cair nas velhas armadilhas do passado. Sem simplificar a situação e usar isso para se dar bem e desprezar as outras pessoas."

PARA ENTENDER O MOMENTO

"Acho que tem três jornais que devem ser lidos para compreender esse momento: The Wall Street Journal, The Finantial Times e The New York Times. Se ler esses três constantemente, você vai ter uma ideia razoável, vai reunir conhecimento o suficiente para digerir essas informações e tentar imaginar o que acontecerá com o mundo, apesar da linha de cada um e do jeito de cada um.

Eu não gostaria de culpar a tecnologia, mas se as pessoas estão achando que podem se informar consistentemente apenas lendo o que se passa na internet, sem procurar informações de qualidade, elas estão se enganando. Tudo bem, há páginas de jornais como os que eu citei, há vídeos da BBC, da CNN e de outras redes, mas tem trabalho por trás disso. E a tecnologia quer nos poupar o trabalho. Por mais que isso tenha suas qualidades, as pessoas devem se esforçar por buscar além disso, sair desse círculo individualista de ignorância, narcisista. Se as pessoas não fizerem isso, estaremos vivendo num mundo cada vez mais tenebroso."

PROVÁVEIS SOLUÇÕES

"A internet tem que criar mecanismos nos quais as pessoas poderão se encontrar e dividir conhecimentos apesar de suas crenças e teorias serem diferentes. Porque até agora a tendência é de as pessoas procurarem a rede para confirmar aquilo que já pensam. As pessoas não falam umas com as outras num sentido construtivo. Provavelmente esse não é um mal da internet, mas um reflexo de outros problemas da sociedade. Mas a rede amplifica isso, acelera isso e coloca em real time.

É verdade que as pessoas tendem a hostilizar as grandes instituições de mídia. O que acontece muitas vezes é usarem como exemplo um grande erro cometido por um ou outro jornalista, e tomarem isso como base. Mas em todas as carreiras há aqueles profissionais que cometem erros, correto? Os médicos, os advogados, etc. Então não devem se agarrar a isso para criticar a grande mídia, porque ela ainda é fonte para um universo mais confiável. É verdade que foram levadas, até agora, de um jeito familiar e tradicional que pode ter dado abertura para certas doses de corrupção e desonestidade, por isso devem mudar, devem atravessar essa fase e se modernizar. A grande mídia pode funcionar. Ela produziu muito lixo, mas também muita coisa boa do século 20: produziu o New York Times, produziu "Um Corpo que cai", produziu Rolling Stones e Bob Dylan."

MÍDIA TRADICIONAL INCENTIVA A WEB 2.0

"O próprio jornalismo tradicional colabora com isso de vez em quando. A Time publicou recentemente duas matérias numa mesma edição. Uma era sobre uma pesquisa trabalhosa cujos dados revelavam que talvez no futuro uma média de desemprego de 15% da população seja uma média real e constante. É muito interessante e influente sobre nosso cotidiano, sobre nosso planejamento de vida. Uma matéria muito importante. Ao mesmo tempo tinha uma matéria sobre Facebook, que mostrava como as pessoas usavam essa rede social para bater papo com ex-namoradas. Tipo de coisa estúpida e irrelevante. Mas essa matéria do Facebook era o destaque naquela semana.

Acho que Chris Anderson [autor de "A Cauda longa" e "Free", rival intelectual de Keen], até tem razão num certo sentido que, mais do que dar gratuitamente ou cobrar por um preço mínimo por conteúdo, as novas economias vão ter de criar bens que permaneçam por cima e sejam desejáveis, apesar de seu preço. Mas ainda assim fica uma questão fundamental sobre como eles vão criar uma subsistência para prover esses bens ou conteúdos, que podem ser muito mais dependentes dessa parcela que decidiu pagar por ela do que se pensa."