Entrevista:Ciro Gomes
Entrevista:Ciro Gomes
"Em um país que não lê, a capa é a notícia"
Que ele não tem papas na língua, todo mundo sabe. Mesmo assim, o ministro da Integração Nacional, Ciro Gomes, ainda surpreende pela contundência de seus argumentos e pelos adjetivos que usa - em profusão - para exprimir sua indignação contra qualquer situação que o perturbe.
Entre os assuntos do cardápio, a crise política abordada longamente por Ciro na entrevista de quase três horas, regada a café, cigarros e água. Ao mesmo tempo em que ataca a imprensa, não poupa os políticos.
Aos 48 anos de idade recém-completos, Ciro continua se esquivando de perguntas sobre seu futuro político. Não diz se é candidato à presidência da República, em caso de uma cada vez mais remota desistência de Lula, nem se pleiteia a vaga de vice. Prefere posicionar-se com um "homem do governo" e defender o projeto político que Lula representa. "Não sou o mais feliz dos homens com o rumo que as coisas tomaram, mas tenho responsabilidade com as mudanças, com um rumo progressista para o país", diz.
Político precoce, com larga experiência administrativa, a atual saga de Ciro é a execução do projeto de integração de bacias do rio São Francisco - tarefa nada fácil, visto que a proposta coleciona adversários que vão de ambientalistas a oligarquias regionais, passando por políticos de esquerda e direita.
Sua última dor de cabeça com relação ao assunto foi administrar a greve de fome que o bispo de Barra (BA), dom Luiz Cappio, fez em protesto contra o projeto e atraiu a atenção da mídia mundial. "Foi uma situação delicada, mas faz parte", diz com rara tranqüilidade quando o tema é o foco da mídia. Atitude que muda totalmente quando o assunto passa a ser o comportamento das revistas e jornais de circulação nacional durante a última campanha presidencial. "Eles foram totalmente facciosos, pró-Serra", acusa.
Nascido em Pindamonhangaba, no interior de São Paulo, Ciro mudou-se com a família para Sobral, no sertão do Ceará, aos cinco anos de idade. Aos 24 anos, elegeu-se deputado estadual e não parou mais: foi prefeito de Fortaleza, governador do Ceará e ministro da Fazenda de Itamar Franco.
Em 1995 resolveu "dar um tempo" e foi para os Estados Unidos estudar economia política na Universidade de Harvard, de onde passou a escrever artigos para o Jornal do Brasil e para O Estado de S. Paulo.
Foi candidato à presidência da República por duas vezes, em 1998 e em 2002. Há três anos, para surpresa de muitos, assumiu o Ministério da Integração Nacional do governo Lula - cargo que, apesar das turbulências dos últimos tempos - ocupa até hoje.
IMPRENSA - Vamos começar pelo assunto que ocupa todas as manchetes: a crise política. Qual a sua avaliação da cobertura que a imprensa tem feito?
Ciro Gomes - Eu vejo esta crise em camadas concêntricas, porque uma tem a ver com a outra. A primeira camada, que eu chamo de real, é que depois de 20 anos vendendo a imagem de monopolista da ética e verdugo das contradições morais, o PT viu-se apanhado por uma contradição da vida política real. Esta imagem, construída durante anos, fez com que a esmagadora maioria da população acreditasse na possibilidade de um governo de anjos emergir ao poder. Ora, este é um fato sem precedentes na história. Nenhuma obra humana na vida pública, em nenhum lugar do mundo, em nenhuma cultura, em nenhum momento da história, aconteceu sob um governo sem falhas. E isto se deve ao fato, que temos que encarar, de que a relação entre dinheiro e política nunca foi resolvida.
IMPRENSA - E onde entra a segunda dimensão da crise?
Ciro - Na hora em que a realidade, que como já dissemos, é grave, passa a ficar totalmente vulnerável aos subjetivismos. Vou citar o exemplo do Arnaldo Jabor, que é uma pessoa que eu quero bem e respeito muito. Ele escreveu dia destes, de forma muito descuidada, que esta é a maior crise da história do Brasil. Que conversa é essa? Ele tem informação, ele sabe! Vamos cuidar com carinho da nossa história. É só pegar o século XX: 1930, 1935, 1937, 1945, 1950, 1954... Imagina, em 1954 vivemos o suicídio de um presidente da República! O que é isso, Jabor? Lembre-se de 1961, 1964! Você, um garoto brilhante, talentoso, foi vítima de uma crise monstruosa, que esmagou toda uma geração! Quem está falando na imprensa tem que ter responsabilidade com a população. O Arnaldo Jabor é uma referência, fala na televisão. Ele tem todo o direito de sentar o cacete no que está acontecendo, mas não pode mexer na história do país deste jeito. Não pode ficar à mercê das conveniências e sabores, ainda que ele tenha toda razão em sua frustração. É preciso colocar a discussão no lugar certo, senão vira mentira.
IMPRENSA - O senhor acha que alguns destes excessos acontecem porque as CPIs estão sob os holofotes da mídia?
Ciro - Claro! Eu participo da vida pública brasileira há 30 anos e é a primeira crise pautada por garotos alucinados por aparecer na televisão. E eles estão tocando a República! Eu acompanho a CPI, vejo parlamentares que olham para a câmera e dizem: "senhor presidente, senhores deputados, senhores depoentes e senhores telespectadores"! O que é isso? Os excessos são mais prováveis, pois há uma sensação de que as informações são descartáveis. Só que não é bem assim, há valores imateriais fundamentais em jogo e eu gostaria de ressaltar aqui a importância da linguagem.
IMPRENSA - Como assim?
Ciro - Se você diz que todo político é pilantra - e são os próprios políticos que dizem, não é a imprensa - isto faz parte da psicologia popular. No senso comum, nosso conceito é o pior possível e de fato o estamento político merece a desconfiança da população, o que não é necessariamente mal. Bom, mas a partir do momento em que, em nome de uma guerra de extermínio, monta-se um teatro em que os políticos fazem questão de acusar-se uns aos outros de pilantras, a coisa muda de figura. Você rompe algumas premissas e desmoraliza todo um sistema representativo, inclusive a idéia de que devemos respeitar o calendário eleitoral. Se você não toma cuidado e rompe com esta crença no sistema representativo, o que acontece? É bom para quem?
IMPRENSA - O senhor se refere à discussão em torno do pedido de impeachment do presidente Lula?
Ciro - Também. O PT defendia o "Fora FHC" e eu fui contra. Não é assim que se resolve a parada. Na democracia, o que deve presidir é a tolerância, a alternância, o pluralismo, a confrontação a partir de premissas. Se você rompe isso e parte para uma luta de extermínio, a coisa complica.
IMPRENSA - E o senhor acredita que a imprensa ressoa este tipo de comportamento dos políticos?
Ciro - Vamos refletir sobre a imprensa no Brasil: ela tem todos os vícios das instituições políticas. A democracia no país é muito verde, muito jovem, pouco traquejada. E ainda temos o agravante de vivermos na sociedade com a mais aguda concentração de renda do mundo. Então, com todas as suas virtudes e qualidades, alguns setores da imprensa cultivam uma certa crueldade, um espírito vingativo, de dizer: "ah, falou de mim, então eu vou ferrar você!". Vou citar um exemplo: dia desses, eu falei que uma certa camada de políticos de São Paulo é provinciana. No outro dia o Estadão meteu uma furibunda e violenta crítica pessoal contra mim. Ei, eu não falei do Estadão ! Falei dos políticos de São Paulo, opinei no campo onde atuo, pois sou político. E não tenho esta opinião à toa. Eu acho que os políticos paulistas vivem em um universo isolado e que eles têm a obrigação de conhecer o Brasil. Não podem chegar na Baixada Fluminense e chamar de Baixada Santista, como fez o Geraldo Alckmin um tempo atrás. Eu falei isso e recebi uma crítica furibunda do Estadão , que simplesmente tomou as dores de um certo grupo de políticos. Que tipo de imprensa é essa?
IMPRENSA - Esta opinião que o senhor tem da postura dos políticos se estende à imprensa paulista?
Ciro - O Estadão é o mais provinciano dos jornais brasileiros. É lamentável, porque é um grande jornal, prestou e presta grandes serviços ao país, é um jornal importante. Mas devia ser mais nacional, olhar mais para o Brasil. A Folha é diferente. Para mim, é o mais nacional dos jornais brasileiros. É inclusive o mais plural, apesar desta mania de criar escândalos. É a minha opinião, posso estar errado, mas é o jornal com a maior concentração de bons colunistas: Fernando Rodrigues, Jânio de Freitas, Clovis Rossi e outros. É claro que tem muitos jornalistas competentes pelo Brasil afora, mas há uma grande concentração na Folha , que me parece um jornal mais aberto, menos orgânico no patrocínio de um vetor de poder.
Leia matéria completa na edição 208 (dezembro/2005) da revista Imprensa






