Entrevista: Big Brother em letra de forma

Entrevista: Big Brother em letra de forma

Atualizado em 11/05/2006 às 18:05, por Pedro Venceslau e  do Rio de Janeiro.

Entrevista: Big Brother em letra de forma

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Tal qual o Grande Irmão de 1984 , de George Orwell, o jornalista Marcelo Beraba é uma espécie de Big Brother da Folha de S.Paulo . Se não é ele quem tudo sabe, ao menos é ele quem tudo vê. Ou pelo menos tenta, lendo cuidadosamente e todos os dias não só a Folha mas todos os jornais de relevância no país. De sua ampla sala no mesmo andar, mas afastada da redação, na sucursal do Rio de Janeiro, onde foi chefe até virar ombudsman, ele envia as críticas internas diárias que circulam como um espectro pela sede e sucursais da Folha em todo país. Aos domingos, a crítica deixa de ser interna e ganha uma coluna no jornal.

No mês passado, Beraba foi renomeado pelo diretor de redação do jornal, Otávio Frias Filho, para mais um mandato de um ano. Nesse período, e pelos seis meses seguintes, um lugar na equipe da Folha está garantido. Dessa forma, ele pode sentir-se à vontade para mexer nas feridas que bem entender sem medo de represálias. Em sua nova gestão, Marcelo Beraba terá a missão, entre os dias 7 e 10 de maio, de organizar o mais importante evento de ombudsmans do planeta, a 26 a Conferência Anual da ONO (Organização de Ombudsman de Notícias, na sigla em inglês; ver matéria na página 24), que pela primeira vez acontece fora da Europa e Estados Unidos. Desse evento, o crítico oficial da Folha deve sair como forte candidato a presidente da entidade.

Antes de assumir o cargo de ombudsman, em 2004, o carioca Marcelo Beraba já havia feito outras incursões paralelas ao trabalho na redação como dirigente de classe. Foi diretor do Comitê de Liberdade de Expressão e do Comitê Editorial da ANJ (Associação Nacional dos Jornais) e presidente da Abraji (Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo), cargo que ainda ocupa, pelo menos no papel. Como repórter propriamente dito, começou a carreira em O Globo , em 1971, nas editorias "Cidade" e "Polícia". Entre 1984 e 1988, foi repórter, chefe de reportagem e diretor da sucursal da Folha . Nos anos seguintes, passou pelo comando dos mais tensos fechamentos do jornal, os cadernos "Cotidiano" e "Política".

Nos anos 90, Marcelo Beraba foi promovido ao segundo cargo de maior prestígio, e poder, dentro do jornal: secretário de redação. Antes de assumir o posto de ombudsman, passou pelo comando da redação do Jornal do Brasil , onde foi editor-executivo, e foi editor do "Jornal da Globo", na época que era ancorado por Lillian Wite Fibe.

Marcelo Beraba é o sétimo ombudsman na linha de sucessão da Barão de Limeira, que começou em 1989 com Caio Túlio Costa. Nos tempos pioneiros, a situação era mais difícil. Caio Túlio, por exemplo, foi ameaçado por chicote, inaugurou a prática e despertou a ira. Hoje, a figura é mais bem aceita, diga-se. Nesta entrevista para IMPRENSA, Marcelo Beraba falou sobre os principais gargalos da imprensa, especialmente da Folha , e fez um balanço do seu papel no jornal: "O ombudsman mexe em feridas. Toca em questões difíceis internamente".

IMPRENSA - Como funciona o processo de eleição do ombudsman? O Conselho Editorial vota?
Marcelo Beraba - É uma escolha da direção de redação do jornal. Eu fui convidado para ser ombudsman pelo Otávio Frias Filho (diretor de redação da Folha de S.Paulo ). Ele faz uma consulta interna, dentro da redação. Mas não tem uma eleição.

IMPRENSA - Você é considerado por muita gente na Folha uma espécie de "Big Brother". Já entrou em atrito com a redação?
Beraba - Eu não tive nenhum conflito direto na Folha nesse período todo. Já há uma tradição no jornal de crítica e autocrítica. O Projeto Editorial da Folha , que é implantado a partir de 84, prevê a crítica interna, a autocrítica e a discussão. A introdução da função de ombudsman, em 1989, é um passo adiante nessa cultura. As pessoas já se acostumaram com esse elemento de discussão. Além disso, como trabalhei muito tempo na redação da Folha , eu conheço uma boa parte da redação. Tenho uma boa relação com eles. Um terceiro ponto: tanto eu quanto os outros ombudsmans temos como princípio não personalizar.

IMPRENSA - O salário do ombudsman é mais alto que a média dos salários de chefia de redação?
Beraba - Eu recebo o mesmo que eu recebia antes (como chefe da sucursal do Rio).

IMPRENSA - Por que existem tão poucos ombudsmans no Brasil e no mundo?
Beraba - Vários jornais tiveram essa experiência interrompida. O Dia , por exemplo...Um fator é o custo. Manter um ombudsman é manter uma pessoa internamente, com salário, estrutura etc. Além disso, nem todos os jornais têm condições - principalmente no Brasil - de manter um profissional com completa independência e autonomia para fazer esse tipo de trabalho. O ombudsman acaba mexendo em feridas, tocando em questões difíceis internamente. Há, também, uma resistência, em alguns grandes jornais brasileiros, pelo fato de a Folha ter sido a primeira a instituir esse cargo, justamente no período em que havia uma concorrência muito acirrada, sobretudo em São Paulo, com o Estadão .

IMPRENSA - Ou seja: se eles fizessem o mesmo, estariam copiando...
Beraba - Era uma questão muito polêmica. Vários jornais tentaram carimbar a idéia de que o ombudsman da Folha era um funcionário do marketing do jornal. Diziam que aquilo era pura propaganda. Essa questão toda acabou prejudicando a introdução do ombudsman no país.

IMPRENSA - A Folha costuma tomar providências em função dos seus comentários?
Beraba - Em alguns momentos sim. Vou te dar um exemplo recente. O jornal foi fazer a cobertura, nos Estados Unidos, do [furacão] Katrina e publicou reportagens assinadas por um enviado especial, que claramente não tinha chegado ainda ao local em condições de mandar a matéria. Eu fiz uma crítica e o jornal reagiu.

IMPRENSA - Reagiu de que maneira?
Beraba - Primeiro reagiu com silêncio. Depois, ao responder uma carta de leitor, informou que tudo que o jornal tinha publicado havia sido realmente enviado pelo jornalista, o que eu não achava possível. Algum tempo depois, saiu uma resolução interna reafirmando que era necessário, para qualquer matéria de jornalista enviado especial, que ele tivesse realmente chegado ao local e que a matéria fosse dele. Os jornais têm esse costume. O cara mal chegou e, como tem muito material de agência, fazem uma cozinha na própria redação e põem o nome do jornalista.

IMPRENSA - Como anda a sua luta para que a Folha dê mais espaço para as cartas de leitores comuns, em vez de celebridades, políticos e outros dirigentes?
Beraba - Essa é uma batalha que eu não considero perdida. Vou levá-la até o final. É uma questão que melhora e piora. Sinto que há uma boa vontade. O jornal deveria aproveitar essa reforma gráfica, que vai fazer em maio ou junho, para criar mais espaço para o leitor comum. Deveria diferenciar claramente o que é contribuição do leitor comum, do assinante, do cara que compra em banca e o que é direito de resposta e esclarecimento de assessor de imprensa. Por duas razões: primeiro, porque esse material de assessor de imprensa - esclarecimento e direito de resposta - de alguma maneira deveria estar no corpo do jornal. Muitas vezes, é notícia. O jornal, ao tirar do corpo e colocar no "Painel do Leitor", não só está prejudicando o leitor, no sentido de estar tirando espaço dele, mas está prejudicando a informação daquele que se sentiu prejudicado.

Leia entrevista completa na edição 212 (Maio/2006) da revista IMPRENSA