Entre o preconceito e a admiração / Por Abel Dias de Oliveira - FTC (BA)

Entre o preconceito e a admiração / Por Abel Dias de Oliveira - FTC (BA)

Atualizado em 08/07/2005 às 11:07, por Abel de Oliveira e  estudante de jornalismo da FTC (BA).

Por A desigualdade social no Brasil se apresenta de diversas formas. Uma delas tem reflexos no sistema educacional que dificulta - e às vezes impede - o acesso da população pobre à sala de aula. Este fato é agravado se a ele forem agregados outros que comprovam a existência do racismo na sociedade brasileira, reduzindo a discussão racial e social ao mesmo patamar, o que termina por escamotear ambas as discussões.

De acordo com os dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE, 2002), entre os brasileiros analfabetos com idade acima de 15 anos, 7,5% são brancos e 20% negros (pretos e pardos).

Considerando aqueles que têm menos de quatro anos de estudo, 36% da população negra e 20,2% da população branca permanecem nessa condição. Levando-se ainda em conta a renda per-capta, nota-se que 98% do total destes vivem com menos de um salário mínimo em vigor no país. Este dado indica que a dificuldade de acesso à educação está diretamente ligada à dificuldade de sobrevivência e, mais, que a população negra é penalizada em maior grau pelas contradições sociais, fato amplamente estudado e explicado pela antropologia social que vê sua origem na colonização brasileira, fundamentalmente escravocrata.

Por outro lado, o Sistema Nacional de Avaliação da Educação Básica (SAEB, 2004), mostra que, apesar do aumento no número de matrículas no ensino fundamental, a evasão escolar é maior entre alunos cujas famílias apresentam baixa renda e/ou vivem em condições insalubres (encostas, manguezais, áreas rurais distantes, entre outros).

Isso reforça a idéia de que evasão escolar esta relacionada às condições de vida e que o sistema escolar atual, público ou privado, contribui para manter e legitimar as situações de desigualdade social e cultural entre os indivíduos e classes sociais quando as ignora e tenta nivelar todos os alunos da mesma forma.

Quando a escola ignora as diferenças culturais entre as crianças e trata todos os alunos - por mais desiguais que sejam - como iguais em direitos e deveres, dá sua sanção para que elas continuem ainda mais desiguais diante da sociedade.

Esta tendência é mantida no ensino superior. As mesmas políticas públicas do setor de educação básico e secundário são aplicadas às universidades, contribuindo para a reprodução da situação que condena a maior parcela dos jovens pobres à exclusão, à marginalização ou à realização das mesmas atividades profissionais menos qualificadas e remuneradas dos seus pais e avós.

É neste sentido que a discussão e implantação da política de quotas para alunos economicamente carentes nas universidades podem compor um conjunto de medidas práticas, efetivas e imediatas que apontem para o fim das desigualdades na sociedade brasileira.

Isto adquire importância ainda maior se colocado na realidade da maioria das cidades nordestinas, onde entrar na universidade é um feito raro e, na maioria das vezes, improvável. Pelo menos, para mais de 90% da população (IBGE, 2002).

RESULTADOS
Para entender e analisar esta realidade, há um estudo em curso na Faculdade de Tecnologia e Ciências (FTC) de Itabuna - onde a política de quotas já está implantada e com sucesso - que procura identificar como, através do Programa Universidade para Todos (ProUni), do Governo Federal, a Instituição - cuja maioria dos alunos são de classe média alta - convive com os alunos oriundos do ensino público, cujas famílias não possuam renda mensal suficiente para mantê-los na universidade.

Realidade nova para a faculdade, é mais nova ainda para o conjunto dos alunos e professores, que passam a conviver e lidar diretamente com o resultado da política de inserção social governamental.

De que forma se dá a adaptação dos estudantes bolsistas pelo PROUNI à realidade acadêmica e quais as opiniões dos demais alunos e professores sobre a presença destes nas universidades são alguns dos questionamentos que estão sendo investigados sobre estes novos fatos. Os primeiros resultados são reveladores.

JORNALISMO: 35% do total de alunos
Em um universo estimado em 2 mil, foram observadas as realidades específicas e as experiências de 40 alunos matriculados no segundo semestre do curso de Jornalismo da Instituição, onde 14 são bolsistas pelo Programa Universidade para Todos (ProUni), do Governo Federal, o que corresponde a 35% do total.

Entre os bolsistas, todos tiverem notas superiores à média das disciplinas cursadas, 30% estão no ranking dos melhores alunos da faculdade e 90% são considerados os melhores alunos do curso. Entre estes, 40% tiveram experiências extra-classe já no primeiro semestre de curso, colocando-se como voluntários em projetos de extensão e pesquisa da Instituição, sendo que três deles participam permanentemente de projeto interinstitucional, ao lado de pesquisadores e estudantes de universidade de maior porte como a UFRJ, UFPE e UESC.

Um deles teve, no primeiro semestre do curso, dois artigos científicos publicados em revistas da área de comunicação e duas matérias jornalísticas publicada em sites da área.

Foi constatado ainda que, entre os 14 bolsistas, 40% deles enviaram trabalhos científicos para algum dos eventos do XXVIII Congresso Brasileiro de Ciências da Comunicação, a ser realizado na UERJ, em setembro deste ano, parte deles elaborados com a participação de professores e outros feitos em grupo de alunos (todos quotistas).
Vale ressaltar que todos os bolsistas são oriundos de camadas populares e escolas públicas, possuem entre 17 e 23 anos, são de famílias com renda média inferior a dois salários mínimos, requisitos básicos para obtenção do benefício do ProUni.
A maioria reside em Itabuna, cidade sede da Instituição e parte deles (30%) mora em municípios vizinhos, tendo que se deslocar, em média, 70 quilômetros por dia para assistir aulas, o que é facilitado em alguns casos onde as prefeituras colocam à disposição transporte escolar gratuito. Em outros casos, o aluno precisa pagar passagens para assistir aula. Ainda assim, têm poucas falta nas disciplinas cursadas.

Entre os 35% bolsistas entrevistados, oito admitiram ser contra a política de quotas na universidade porque temiam que o conjunto deles não fizesse jus ao benefício, contribuindo para aumentar o preconceito contra aqueles que entram na universidade através das quotas e temendo que fossem discriminados pelos demais colegas e professores. Segundo os depoimentos, mudaram de opinião quando perceberam que o preconceito estava em cada um deles e que não havia distinção por parte dos professores ou entre os alunos.

50% admitem que escondiam sua condição de quotista/bolsista por medo do preconceito e da descriminação; 30% dizem que a integração com o restante da turma ocorreu a partir do momento em que se perceberam iguais e 20% reconhecem que só houve integração quando se sentiram qualitativamente superiores frente aos demais alunos. Ou seja, precisaram passar pelo processo de auto-afirmação para, a partir daí, se relacionar com o grupo.

Quanto aos demais alunos, se constatou que o preconceito era mais forte entre os próprios bolsistas que entre os alunos egressos através do vestibular convencional. Apenas um entre todos os entrevistados disse ser contra a política de quotas e considera que esta pode representar a proteção de uns em detrimento de outros. Neste caso, considera ainda que as oportunidades sejam as mesmas para todos e que as aproveita quem quer independente das dificuldades que cada um enfrenta para sobreviver.

Os demais entrevistados (90% do total), referem-se aos quotistas/bolsistas como sendo os melhores da turma e os colocam como referência acadêmica. 20% deles chegam a afirmar que "gostaria de ser como eles", o que denota o grau de respeito conquistado pelos colegas. Os professores do curso (70% do total foram entrevistados) concordam com os demais alunos e reconhecem que os quotistas têm apresentado rendimento acima da média geral.

Somando todos os fatos, se vê que o preconceito inicialmente identificado vem sendo gradativamente substituído pela admiração.