Entidades discutem preparo e segurança de jornalistas que atuam em áreas de risco

Após a morte de cinegrafista, baleado em cobertura de ação policial no RJ, entidades e especialistas discutem a necessidade de preparo e con

Atualizado em 05/12/2011 às 16:12, por Guilherme Sardas e Luiz Gustavo Pacete.

Sob Tensão

dições de segurança para profissionais que atuam em áreas de risco

Nas cenas do filme "Repórteres de Guerra", que conta a história de quatro fotógrafos que atuaram na África do Sul em meados de 1990, os profissionais se expõem sem qualquer equipamento de proteção ao acompanharem soldados da missão de paz, que tenta conter a tensão entre membros do Congresso Nacional Africano (CNA) e guerreiros zulus. Apesar da bravura e do ar de romantismo da cena, o desfecho foi trágico quando um fogo amigo atingiu e matou um deles, o sul-africano Ken Oosterbroek.

AULA DE SOBREVIVÊNCIA


Dentro e fora do Brasil, empresas e instituições ligadas à segurança realizam treinamentos direcionados a jornalistas que atuam em zonas hostis. Técnicas de primeiros socorros e dicas de como reagir a sequestros, tumultos e tiroteios são alguns dos inúmeros procedimentos ensinados. Veja alguns dos principais:


Polícia Militar de São Paulo

Local: São Paulo-SP

Curso: Durante um fim de semana, o curso "Método Giraldi" oferece

noções de como jornalistas se comportam diante de situações

de tensão.

www.polmil.sp.gov.br/


Centro Conjunto de Operações de Paz do Brasil (CCOPAB)

Local: Rio de Janeiro-RJ

Curso: O estágio, que dura uma semana, prepara jornalistas para que

adotem procedimentos de segurança em situações de risco.

www.ccopab.eb.mil.br/


Caecopaz

Local: Buenos Aires - Argentina

Cursos: O treinamento é ministrado por integrantes das três forças

armadas e é focado em procedimentos das missões de paz da ONU.

www.caecopaz.mil.ar/


Grupo AKE

Local: Reino Unido

Cursos: Empresa privada que oferece cursos em vários formatos,

entre eles, o mais tradicional: "Sobrevivendo em Regiões Hostis",

com duração de cinco dias.

www.akegroup.com/


TOR International

Local: Reino Unido e Estados Unidos

Cursos: Também privada, oferece treinamentos em ambiente hostil

(5 dias) e técnicas para lidar com situações de desordem pública e

motins (1 dia).

www.torinternational.com/


Centurion

Local: Reino Unido e Estados Unidos

Cursos: Entre outros cursos, o treinamento "Ambientes Hostis"

inclui orientações sobre sequestros, armas e balística (5 dias).

www.centurionsafety.net/



Ainda que as cenas de jornalistas em situações de risco ofereçam um atraente roteiro para o cinema, a realidade mostra que o assunto vai além da coragem ou vocação para o trabalho. Em 2002, o repórter da TV Globo, Tim Lopes, foi assassinado e serviu como "inspiração" para que os veículos adotassem medidas que protegessem seus profissionais. Na época, o lema era de que "a vida valia mais do que a notícia".


Já em 2008, o fotógrafo do jornal O Dia, Nilton Claudino, foi capturado e brutalmente torturado junto com uma repórter e um motorista do jornal. Atualmente, vive exilado com sua família. Em 6 de novembro último, a imprensa sofreu um novo golpe, desta vez, em rede nacional. O cinegrafista da Band Rio, Gelson Domingos, de 46 anos, foi atingido por um tiro de fuzil, enquanto filmava um conflito entre polícia e traficantes. Filmou até a bala atingir seu peito.


A repercussão reacendeu o debate sobre as condições de segurança dos profissionais que cobrem áreas de risco. Para o Sindicato dos Jornalistas do Rio de Janeiro, "as empresas é que deveriam estabelecer os limites". Já o comandante da PM, coronel Erir Ribeiro Costa Filho, entende que os jornalistas devem seguir rigorosamente as orientações policiais. Conforme informou a Band, Domingos se enquadrava em todas as condições necessárias de segurança que, além do colete, implicava treinamentos.


O episódio rendeu propostas para preparar melhor os profissionais de imprensa. A Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo (Abraji) juntamente com o International News Safety Institute (Insi) anunciaram - um dia depois da morte de Domingos - um treinamento para capacitar jornalistas que trabalham em áreas de conflito com previsão para o primeiro semestre de 2012.


Preservação da vida

Para preparar jornalistas a lidar com situações de crise, a Polícia Militar do Estado de São Paulo realiza há três anos o curso "Método Giraldi: Tiro Defensivo na Preservação da Vida". O treinamento é o mesmo dado aos soldados da corporação, mas reduzido a um período de dois dias. IMPRENSA participou do treinamento realizado no fim de setembro. Durante um final de semana, 30 jornalistas foram expostos a situações de tensão por meio de simulações da realidade policial. O objetivo, segundo o major Marcel Lacerda Soffner, responsável pela comunicação da PM, é "oferecer aos jornalistas que cobrem a editoria policial uma visão do nível de tensão a que os soldados são submetidos".


Na primeira etapa, os jornalistas assistem a palestras de psicólogos e sociólogos da corporação. Após a parte teórica, os profissionais aprendem a manusear o armamento e a atirar. Nessa etapa, cada participante chega a disparar 300 vezes em alvos predeterminados e depois vivencia simulações de operações policiais, abordagem, troca de tiros e negociação com reféns. "Esse tipo de experiência contribui para que eu consiga me proteger melhor, sabendo uma melhor maneira de captar minhas imagens, sem me expor nem atrapalhar o trabalho da polícia", diz a fotógrafa Mônica Alves.


Matéria publicada na edição de dezembro (274) da Revista IMPRENSA


Leia mais