"Entender as peculiaridades de cada país é um dos maiores desafios", diz Cláudia Trevisan
A ideia de ser o sexo frágil passa, sem dúvidas, a anos luz de distância da jornalista Cláudia Trevisan, correspondente do jornal O Estado de S.
Atualizado em 29/01/2014 às 09:01, por
Danubia Paraizo.
Ela que acompanhou de perto o processo de transformação econômica e social na China, nos anos 2000, também fez coberturas em países fechados politicamente, como a Coreia do Norte e Mianmar.
Finalista ao Troféu Mulher IMPRENSA, na categoria “repórter de jornal”, Claudia contou em entrevista exclusiva os bastidores de sua prisão nos Estados Unidos, em setembro de 2013, durante a cobertura de uma palestra do ministro do STF, Joaquim Barbosa, na Universidade de Yale. Em suas palavras, foi uma das situações mais surreais que já enfrentou. “Foi irônico ter sido presa nos Estados Unidos depois de cinco anos criticando a falta de liberdade de imprensa na China”.
Crédito:Arquivo Pessoal Cláudia Trevisan é correspondente internacional do "Estadão" Apesar do susto e dos perrengues da profissão, nenhum momento, no entanto, foi tão marcante como a experiência de coletar narrativas dos sobreviventes em 2011, do tsunami no Japão, em ou em 2008, no terremoto na cidade chinesa de Sichuan. “Nunca havia testemunhado catástrofes naturais tão devastadoras. Entrevistar pessoas que perderam familiares e tudo o que possuíam não é uma tarefa simples e me sinto profundamente grata aos que compartilharam suas histórias comigo”.
Momento difícil semelhante, só mesmo quando a jornalista perdeu a mãe, em janeiro de 2013, o que influenciou a decisão de deixar a China e estar mais próxima à família. “Em maio, me despedi de Pequim e dos muitos amigos com quem criei laços extremamente fortes. Depois de cinco anos na cidade, me sentia em casa e com uma ‘família’, formada principalmente por outras brasileiras que haviam aportado na China por diferentes motivos”.
A seguir, Cláudia comenta as coberturas mais marcantes da carreira, os desafios de atuar como correspondente internacional em países com pouca abertura e o papel da mulher na imprensa nos dias de hoje.
IMPRENSA - Quais matérias foram as mais marcantes ou tiveram maior repercussão ao longo de sua carreira? Claudia Trevisan - Acho difícil falar em matérias específicas. Prefiro falar em experiências e testemunhos de momentos históricos. Sem dúvida, ter tido a chance de acompanhar de perto o processo de transformação econômica e social da China foi a experiência mais enriquecedora da minha carreira. As duas viagens que fiz à Coreia do Norte abriram uma fresta para um país que parece viver em universo paralelo, com um misto de monarquia absolutista, confucionismo e um feroz culto à personalidade. E mesmo sob o manto do total controle estatal, foi possível ver pequenas mudanças trazidas pelo aumento do contato da população com o mundo exterior.
Coletar as narrativas dos sobreviventes do tsunami no Japão em 2011 e do terremoto em Sichuan, em 2008, foi marcante, emocionante e difícil. Nunca havia testemunhado catástrofes naturais tão devastadoras. Entrevistar pessoas que perderam familiares e tudo o que possuíam não é uma tarefa simples e me sinto profundamente grata aos que compartilharam suas histórias comigo. Quais são os principais desafios de quem é correspondente internacional? Já sofreu algum preconceito na carreira por ser mulher? Abandonar ideias preconcebidas e entender as peculiaridades de cada país é um dos maiores desafios. O trabalho tem uma natureza solitária, exige disciplina e demanda que o correspondente, muitas vezes, desempenhe funções que no jornal estão distribuídas a mais de uma pessoa, como pensar em pautas e editar textos.
Outra dificuldade é selecionar e investir em matérias interessantes, diante de uma oferta de temas que parece infindável. Não creio que tenha sido alvo de preconceito por ser mulher e não enfrentei problemas na China por esse motivo. Entre os países asiáticos, a China é um dos que mais avançaram na questão feminina, ainda que persistam inúmeros problemas. As chinesas são muito menos submissas do que normalmente se supõe. Em setembro de 2013 você foi presa, durante visita do ministro Joaquim Barbosa à Universidade de Yale. O que aconteceu de fato? No dia 26 de setembro, fui à Universidade de Yale, em busca do presidente do STF, Joaquim Barbosa. Em uma das situações mais surreais que já enfrentei, fui presa quando tentava descobrir o local de realização de um seminário do qual ele participava. Acusação: invasão de propriedade privada. Foi irônico ter sido presa nos Estados Unidos depois de cinco anos criticando a falta de liberdade de imprensa na China. A polícia agiu de maneira arbitrária e com uma truculência totalmente desnecessária. Já havia tido problemas com policiais na China e mesmo no Brasil, mas nunca havia me acontecido nada semelhante. Como avalia o papel da mulher hoje no jornalismo? Como todas as empresas, os veículos de comunicação precisam mudar para acomodar melhor questões familiares e pessoais. Não é possível encarar as demandas da maternidade, por exemplo, como um uma questão exclusivamente privada que deve ser tratada fora do horário de trabalho. Muitas vezes, problemas familiares demandam que empregadores tenham flexibilidade e estejam dispostos a negociar horários e escalas diferenciadas tanto para mulheres quanto para homens. Ainda estamos longe disso. É inegável que as mulheres têm presença expressiva nas redações brasileiras, mas ainda somos poucas no topo das organizações.
Acredita que há qualidades que, por ser mulher, beneficiam seu trabalho? Acredito que mulheres têm um olhar diferente do masculino, o que traz diversidade para as organizações nas quais trabalham e, em consequência, para seus leitores ou telespectadores. E isso não ocorre apenas em relação a temas tradicionalmente femininos. Em economia, política ou cobertura de políticas públicas, as mulheres vão valorizar aspectos que seriam ignorados pelos homens – e vice-versa. O resultado é uma cobertura mais rica e mais complexa do que a que seria feita por apenas um dos sexos.
O "Troféu Mulher IMPRENSA" é realizado e idealizado por IMPRENSA Editorial. Em 2014, a premiação celebra sua 10ª edição consecutiva, e vai homenagear as jornalistas que mais se destacaram em suas áreas de atuação em 2013. As votações vão de 14 de janeiro de 2014 até às 23h59 de 13 de fevereiro. Para mais informações e conhecer a lista de finalistas,
Finalista ao Troféu Mulher IMPRENSA, na categoria “repórter de jornal”, Claudia contou em entrevista exclusiva os bastidores de sua prisão nos Estados Unidos, em setembro de 2013, durante a cobertura de uma palestra do ministro do STF, Joaquim Barbosa, na Universidade de Yale. Em suas palavras, foi uma das situações mais surreais que já enfrentou. “Foi irônico ter sido presa nos Estados Unidos depois de cinco anos criticando a falta de liberdade de imprensa na China”.
Crédito:Arquivo Pessoal Cláudia Trevisan é correspondente internacional do "Estadão" Apesar do susto e dos perrengues da profissão, nenhum momento, no entanto, foi tão marcante como a experiência de coletar narrativas dos sobreviventes em 2011, do tsunami no Japão, em ou em 2008, no terremoto na cidade chinesa de Sichuan. “Nunca havia testemunhado catástrofes naturais tão devastadoras. Entrevistar pessoas que perderam familiares e tudo o que possuíam não é uma tarefa simples e me sinto profundamente grata aos que compartilharam suas histórias comigo”.
Momento difícil semelhante, só mesmo quando a jornalista perdeu a mãe, em janeiro de 2013, o que influenciou a decisão de deixar a China e estar mais próxima à família. “Em maio, me despedi de Pequim e dos muitos amigos com quem criei laços extremamente fortes. Depois de cinco anos na cidade, me sentia em casa e com uma ‘família’, formada principalmente por outras brasileiras que haviam aportado na China por diferentes motivos”.
A seguir, Cláudia comenta as coberturas mais marcantes da carreira, os desafios de atuar como correspondente internacional em países com pouca abertura e o papel da mulher na imprensa nos dias de hoje.
IMPRENSA - Quais matérias foram as mais marcantes ou tiveram maior repercussão ao longo de sua carreira? Claudia Trevisan - Acho difícil falar em matérias específicas. Prefiro falar em experiências e testemunhos de momentos históricos. Sem dúvida, ter tido a chance de acompanhar de perto o processo de transformação econômica e social da China foi a experiência mais enriquecedora da minha carreira. As duas viagens que fiz à Coreia do Norte abriram uma fresta para um país que parece viver em universo paralelo, com um misto de monarquia absolutista, confucionismo e um feroz culto à personalidade. E mesmo sob o manto do total controle estatal, foi possível ver pequenas mudanças trazidas pelo aumento do contato da população com o mundo exterior.
Coletar as narrativas dos sobreviventes do tsunami no Japão em 2011 e do terremoto em Sichuan, em 2008, foi marcante, emocionante e difícil. Nunca havia testemunhado catástrofes naturais tão devastadoras. Entrevistar pessoas que perderam familiares e tudo o que possuíam não é uma tarefa simples e me sinto profundamente grata aos que compartilharam suas histórias comigo. Quais são os principais desafios de quem é correspondente internacional? Já sofreu algum preconceito na carreira por ser mulher? Abandonar ideias preconcebidas e entender as peculiaridades de cada país é um dos maiores desafios. O trabalho tem uma natureza solitária, exige disciplina e demanda que o correspondente, muitas vezes, desempenhe funções que no jornal estão distribuídas a mais de uma pessoa, como pensar em pautas e editar textos.
Outra dificuldade é selecionar e investir em matérias interessantes, diante de uma oferta de temas que parece infindável. Não creio que tenha sido alvo de preconceito por ser mulher e não enfrentei problemas na China por esse motivo. Entre os países asiáticos, a China é um dos que mais avançaram na questão feminina, ainda que persistam inúmeros problemas. As chinesas são muito menos submissas do que normalmente se supõe. Em setembro de 2013 você foi presa, durante visita do ministro Joaquim Barbosa à Universidade de Yale. O que aconteceu de fato? No dia 26 de setembro, fui à Universidade de Yale, em busca do presidente do STF, Joaquim Barbosa. Em uma das situações mais surreais que já enfrentei, fui presa quando tentava descobrir o local de realização de um seminário do qual ele participava. Acusação: invasão de propriedade privada. Foi irônico ter sido presa nos Estados Unidos depois de cinco anos criticando a falta de liberdade de imprensa na China. A polícia agiu de maneira arbitrária e com uma truculência totalmente desnecessária. Já havia tido problemas com policiais na China e mesmo no Brasil, mas nunca havia me acontecido nada semelhante. Como avalia o papel da mulher hoje no jornalismo? Como todas as empresas, os veículos de comunicação precisam mudar para acomodar melhor questões familiares e pessoais. Não é possível encarar as demandas da maternidade, por exemplo, como um uma questão exclusivamente privada que deve ser tratada fora do horário de trabalho. Muitas vezes, problemas familiares demandam que empregadores tenham flexibilidade e estejam dispostos a negociar horários e escalas diferenciadas tanto para mulheres quanto para homens. Ainda estamos longe disso. É inegável que as mulheres têm presença expressiva nas redações brasileiras, mas ainda somos poucas no topo das organizações.
Acredita que há qualidades que, por ser mulher, beneficiam seu trabalho? Acredito que mulheres têm um olhar diferente do masculino, o que traz diversidade para as organizações nas quais trabalham e, em consequência, para seus leitores ou telespectadores. E isso não ocorre apenas em relação a temas tradicionalmente femininos. Em economia, política ou cobertura de políticas públicas, as mulheres vão valorizar aspectos que seriam ignorados pelos homens – e vice-versa. O resultado é uma cobertura mais rica e mais complexa do que a que seria feita por apenas um dos sexos.
O "Troféu Mulher IMPRENSA" é realizado e idealizado por IMPRENSA Editorial. Em 2014, a premiação celebra sua 10ª edição consecutiva, e vai homenagear as jornalistas que mais se destacaram em suas áreas de atuação em 2013. As votações vão de 14 de janeiro de 2014 até às 23h59 de 13 de fevereiro. Para mais informações e conhecer a lista de finalistas,





