Ensaio sobre a cegueira (do futebol), por Rodrigo Viana
Tenho um livro sobre crônicas. É natural, portanto, caro leitor, que as escreva. Gosto do sabor delas, ainda que muitos a desdenhem. Ou a te
Atualizado em 03/07/2014 às 14:07, por
Rodrigo Viana.
Crédito:Leo Garbin nham como literatura menor. Ou ainda, um passatempo do jornalismo. Pois eu miro Machado: “(...) gosto de catar o mínimo e o escondido. Onde ninguém mete o nariz, aí entra o meu com a curiosidade estreita e aguda que descobre o encoberto (...)”.
Dias últimos, com Copa do Mundo, o trabalho na TV Globo, a entrevista exclusiva com o Pelé e outras ‘coisas grandes’, fui meter o nariz onde ninguém tinha feito. Fiquei prestando atenção no jeitão do Pelé. Em como ele lida com aquela multidão de repórteres, fãs, seguranças e toda sorte de gente que o rodeia. O rei mantém uma mansuetude natural (seria a velhice?) ou uma serenidade real...
Ainda não sei. O que sei é que ele não se altera. Pelé é um homem de memórias afetivas. Contou-me também, e isto eu ainda não tinha visto publicado, que um amigo seu, numa excursão do Santos a Paris, teria tirado Roberta Close para dançar e ele, Pelé, o teria alertado que se tratava de um travesti. Ao que o amigo respondeu: “Não há problema, eu disse à Roberta Close que sou o Pelé”. Bela saída pela direita do Dorval. Ih, entreguei o amigo... Agora já foi, faz parte da crônica.
Tudo isso para dizer que este Pelé humano, brincalhão, eventualmente pornográfico, era desconhecido pra mim. Assim como para a maior parte do público. Dizem – e isso eu não posso comprovar – que, ao longo da carreira, ele teria provocado fratura em quatro pernas de jogadores adversários. O que passou absolutamente batido por todos. Se isso for verdade, a tese de que Pelé, o Rei, sempre sobrepôs sua imagem a do Édson, é verdadeira. Mas é também verdade que Pelé é um humano demasiado, ao contrário do que sempre diz Pepe, eterno ponta esquerda do Santos e da Seleção e amigo pessoal de Pelé até hoje: “Ele é um extraterrestre. Veio de Saturno”.
Pepe, aliás, agora é meu treinador. Isto mesmo. O canhão da Vila é o técnico do Pindorama, a Seleção de Escritores do Brasil. Pouca gente sabe, mas Pepe é também escritor. Em 2006, lançou “Bombas de Alegria – Meio Século de Histórias do Canhão da Vila”, pela Realejo Livros. No Pindorama só tem escritor boleiro. Agora em agosto, em um domingo, dia 10, o time vai se apresentar na Flip – a charmosa Feira Internacional Literária de Paraty. O jogo será no Estádio Municipal contra um combinado de também escritores e faz parte da programação. Também estamos em busca do Chico pra marcar um amistoso contra seu Politheama.
E ainda buscamos recursos para a Suécia, jogar a ginga para os nórdicos verem. Conto tudo isso para dizer que o futebol, nossa vida, é muito maior que o aparente, o midiático. Não sei quem vai ganhar a Copa do Mundo, mas sei que Machado de Assis ganhou meu olhar e virei um míope: “(...) apertei os meus (olhos) para ver coisas miúdas, coisas que escapam ao maior número, coisas de míopes. A vantagem dos míopes é enxergar onde as grandes vistas não pegam”.

Dias últimos, com Copa do Mundo, o trabalho na TV Globo, a entrevista exclusiva com o Pelé e outras ‘coisas grandes’, fui meter o nariz onde ninguém tinha feito. Fiquei prestando atenção no jeitão do Pelé. Em como ele lida com aquela multidão de repórteres, fãs, seguranças e toda sorte de gente que o rodeia. O rei mantém uma mansuetude natural (seria a velhice?) ou uma serenidade real...
Ainda não sei. O que sei é que ele não se altera. Pelé é um homem de memórias afetivas. Contou-me também, e isto eu ainda não tinha visto publicado, que um amigo seu, numa excursão do Santos a Paris, teria tirado Roberta Close para dançar e ele, Pelé, o teria alertado que se tratava de um travesti. Ao que o amigo respondeu: “Não há problema, eu disse à Roberta Close que sou o Pelé”. Bela saída pela direita do Dorval. Ih, entreguei o amigo... Agora já foi, faz parte da crônica.
Tudo isso para dizer que este Pelé humano, brincalhão, eventualmente pornográfico, era desconhecido pra mim. Assim como para a maior parte do público. Dizem – e isso eu não posso comprovar – que, ao longo da carreira, ele teria provocado fratura em quatro pernas de jogadores adversários. O que passou absolutamente batido por todos. Se isso for verdade, a tese de que Pelé, o Rei, sempre sobrepôs sua imagem a do Édson, é verdadeira. Mas é também verdade que Pelé é um humano demasiado, ao contrário do que sempre diz Pepe, eterno ponta esquerda do Santos e da Seleção e amigo pessoal de Pelé até hoje: “Ele é um extraterrestre. Veio de Saturno”.
Pepe, aliás, agora é meu treinador. Isto mesmo. O canhão da Vila é o técnico do Pindorama, a Seleção de Escritores do Brasil. Pouca gente sabe, mas Pepe é também escritor. Em 2006, lançou “Bombas de Alegria – Meio Século de Histórias do Canhão da Vila”, pela Realejo Livros. No Pindorama só tem escritor boleiro. Agora em agosto, em um domingo, dia 10, o time vai se apresentar na Flip – a charmosa Feira Internacional Literária de Paraty. O jogo será no Estádio Municipal contra um combinado de também escritores e faz parte da programação. Também estamos em busca do Chico pra marcar um amistoso contra seu Politheama.
E ainda buscamos recursos para a Suécia, jogar a ginga para os nórdicos verem. Conto tudo isso para dizer que o futebol, nossa vida, é muito maior que o aparente, o midiático. Não sei quem vai ganhar a Copa do Mundo, mas sei que Machado de Assis ganhou meu olhar e virei um míope: “(...) apertei os meus (olhos) para ver coisas miúdas, coisas que escapam ao maior número, coisas de míopes. A vantagem dos míopes é enxergar onde as grandes vistas não pegam”.






