Ensaio: João Wainer e a poesia da periferia

Ensaio: João Wainer e a poesia da periferia

Atualizado em 07/11/2007 às 18:11, por Karina Padial.

Ensaio: João Wainer e a poesia da periferia

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"Então quando o dia escurece
Só quem é de lá sabe o que acontece
Ao que me parece prevalece a ignorância
E nós estamos sós
Ninguém quer ouvir a nossa voz
Cheia de razões calibres em punho
Dificilmente um testemunho vai aparecer
E pode crer a verdade se omite
Pois quem garante o meu dia seguinte"



João Wainer era um garoto de 16 anos quando ouviu pela primeira vez os versos e os ritmos contagiantes dos "Racionais", a banda de rap que canta à imagem e semelhança da periferia. Neto de dois gigantes da cena jornalística brasileira - Samuel Wainer, fundador do jornal Última Hora , e Danuza Leão, modelo, jornalista, cronista e escritora - João jura que não virou fotógrafo por influência familiar. "Pirei quando ouvi Racionais pela primeira vez. Eu queria colocar em imagens aquilo que eles cantavam naquelas letras incríveis". E assim o fez.

Desde então seu trabalho é dedicado a mostrar um mundo que não freqüenta as páginas dos jornais. "Trabalho na rua e passo o dia rodando pelas quebradas dessa cidade-monstra. O banco da frente do carro de reportagem é meu escritório, o barulho do motor e das buzinas é meu iPod, e o cheiro da fumaça dos congestionamentos é meu perfume".

Em março desse ano, João inaugurou um blog para tirar da gaveta e jogar na rede um "punhado de textos" que estavam guardados. "Eu gosto muito de escrever, sempre gostei. Quando ia fazer uma matéria gostava de chegar e escrever o meu ponto de vista sobre aquilo que eu tinha visto". Na sua página, histórias e fotos da realidade da periferia. Do virtual para o concreto, a experiência eletrônica vai se transformar em livro e numa exposição programada para maio do ano que vem, em Belém, no Pará.

Poderes paralelos: (de cima para baixo) a vida improvisada na favela do parque bristol, em diadema, são paulo. momento de "distração": preso treina boxe na sua cela no carandiru. controle no morro: traficante aponta fuzil em favela da zona norte do rio de janeiro

Mensageiro de dois mundos


Tranca-rua. O título do blog está ligado à umbanda e ao candomblé. Surgiu por causa de um documentário, já em fase final, que o fotógrafo está desenvolvendo numa ONG da Zona Sul, a Casa do Zezinho, presidida por Tia Dag, que além de ter o trabalho social, é mãe de santo. "Eu gostei muito da figura do Exu. Ele é um observador. É o orixá da comunicação, é um mensageiro e faz a ponte de um mundo com o outro. E eu identifico um pouco isso no meu trabalho".

A ponte que Wainer faz questão de atravessar está registrada em fotografias do seu projeto Marginália. Inspirado em três rappers que cantam cotidianos diferentes - Mano Brown e a violência na periferia de São Paulo, MV Bill e a guerra do tráfico no Rio, e Dexter e o sistema penitenciário -, o fotógrafo realizou um ensaio sobre essas três vertentes. As fotos foram premiadas com a Bolsa Fnac/FotoSite e rodaram as livrarias Fnacs de São Paulo, Curitiba, Brasília, Porto Alegre, Belo Horizonte, além de Paris e Bordeaux, na França.

Funcionário da Folha por dez anos, de 1996 a 2006, "um terço da minha vida, dos 20 aos 30 anos", Wainer saiu no ano passado para poder se dedicar mais aos projetos paralelos que estava desenvolvendo. "O fotojornalismo diário é pauleira, toma seu tempo todo e você não tem horário pra nada, eu estava cansado".

Antes do longo período na Folha , já tinha passado pela redação do Jornal da Tarde como estagiário, mesmo sem fazer faculdade. "Fugi da escola. Eu terminei o colegial e comecei a trabalhar. Não tinha faculdade de fotografia e não queria fazer jornalismo".






Flagrantes: (de cima para baixo) o flagra da morte: homicídio no jardim colina, na zona sul de são paulo. o flagra do ódio: tatuagem de preso no carandiru. o flagra da segregação: vista periférica do rio de janeiro

"Us Guerreiro"

João Wainer acredita que os trabalhos alternativos na imprensa estão cada vez mais escassos: "não tem nem espaço direito para o jornalismo." Mas acha também que ninguém pode ficar reclamando sem batalhar. "Quando você tem uma boa história para contar, ninguém segura!"

E isso ele tem de sobra. Desembarcou recentemente de Kingston, Jamaica, onde produziu um vídeo para a MTV Internacional. Financiado pelo Unicef, o documentário compara o que pensam os jovens jamaicanos, mexicanos e brasileiros sobre questões como sexualidade, drogas e violência.

Fotógrafo da realidade marginal, sua identificação com o rap foi parar, também, em clipes musicais. Co-dirigiu "Soldado do Morro", do MV Bill - seu primeiro trabalho em vídeo - e "Us Guerreiro", do Rappin Hood - filmado num quilombo que resiste desde 1680.

Em cima da escrivaninha, porém, nada de rap . O som que acompanhou os últimos dias de trabalho de João Wainer era o de Gal Costa.