Enfant Terrible
Enfant Terrible
Piza começou a palpitar na adolescência. Aos 13 anos, preenchia cadernos inteiros com resenhas críticas dos clássicos que devorava, de Mark Twain a Machado de Assis, passando por Monteiro Lobato. Manteve esse hábito até os 21 anos, quando trocou os rascunhos no caderno pelas páginas do "Caderno 2". Começou no Estadão em 1991, quando ainda era estudante de Direito do Largo São Francisco. E não teve pistolão. Incentivado pelo editor do jornal da faculdade, Piza começou a pesquisar expedientes e a enviar seus textos para alguns medalhões da imprensa. Dois deles ficaram encantados e responderam rapidamente, incentivando o garoto a mudar de profissão: Paulo Francis e Ruy Castro. "É preciso escrever muito sem publicar antes de começar a publicar de verdade", ensina Piza.
A carreira foi fulminante. Depois de um ano no Estadão , foi para a Folha de S.Paulo , onde se consagrou como o e nfant terrible da geração que despontava na cena cultural paulista da época. Seus disparos precisos, irônicos e saborosos irritavam muitos artistas, que despejavam cartas iradas no "Painel dos Leitores" reclamando daquele genial moleque petulante. O tempo passou, os artistas idem. "Cadê a Jac Lerner? Cadê a Leda Catunda? Cadê o Sérgio Sister? Onde estão esses pintores que eram tão badalados no início dos anos 90? Não são nada. A obra deles desapareceu. Às vezes vocês está do lado certo e contra todos." Da Folha , Daniel Piza foi para a Gazeta Mercantil e, de lá, voltou para o Estadão , a convite de um de seus maiores entusiastas, o jornalista Pimenta Neves. "Voltei para o Estado em maio de 2000, quando ele [Pimenta] estava em férias. Em agosto aconteceu aquela história [o assassinato de Sandra Gomide]."
Apesar da ascensão rápida no organograma das redações por onde passou - editor de Cultura aos 25 anos, colunista aos 26 e editor-executivo aos 29, cargo que ocupa hoje no Estadão -, Piza abandonou o hábito de escrever, traduzir e organizar livros. Traduziu oito, de autores como Herman Melville e Henry James, e organizou seis, nas áreas de jornalismo cultural e literatura brasileira. E publicou quatorze: quatro coletâneas, um romance juvenil, um infantil, dois perfis, cinco ensaios e a biografia de Machado de Assis. Escreveu também o roteiro do documentário "São Paulo - Retratos do Mundo". Nesta entrevista para IMPRENSA, Daniel Piza passa a limpo o jornalismo cultural e critica a crítica.
IMPRENSA - Você escreve sobre futebol, faz crítica literária, fala sobre teatro e ainda alimenta um blog. Não é arriscado falar sobre tantos assuntos ao mesmo tempo o tempo todo?
Daniel Piza - Minha praia sempre foi o jornalismo cultural, com ênfase nos livros. Minha segunda área são as artes visuais, que é muito fraca no Brasil. Por isso, raramente tenho a oportunidade de fazer uma coisa maior. Escrevo, também, um pouco sobre cinema, música. Eu me coloco no papel de um consumidor cultural que anota suas impressões. A coluna de futebol é uma coisa à parte, embora eu sempre tente uma abordagem cultural.
Os jornalistas que escrevem livros sofrem algum tipo de preconceito da crítica especializada?
O preconceito existe, mas alguns casos ajudam a derrubá-lo. Os dois grandes biógrafos brasileiros - Ruy Castro e Fernando Morais - vieram diretamente do jornalismo. Eles têm uma escrita muito fluente e charmosa, além de consistência de pesquisa. No caso da ficção brasileira, o momento é ruim. Mas algumas coisas feitas por jornalistas são muito boas. Fora os veteranos Dalton Trevisan, Rubem Fonseca, João Ubaldo e Raduan Nassar, temos o Milton Hatoum, que teve uma passagem de dois anos na editoria de Cultura da IstoÉ . Tem também o Michel Laub, que trabalhou na (revista) Bravo e está se tornando um romancista interessante.
O que acha da revista Piauí ? E das revistas culturais feitas no Brasil?
Eu gosto da Piauí porque é uma revista que preza pela qualidade do texto. Mas discordo de algumas coisas. Achava que fosse ser mais bonita. Piauí não me convida muito à leitura. Prefiro revistas mais brancas. Há um excesso de reportagens sobre personagens folclóricos e questões exóticas e um pouco de medo de falar dos grandes temas. Perdeu-se, ainda, uma grande oportunidade de abrir um espaço à crítica cultural. Na NewYorker , por exemplo, você encontra a grande reportagem, perfil, serviço, poemas, contos e, no final, uma seção de críticas e ensaios de alto nível. As revistas culturas brasileiras, em geral, estão todas muito ruins. A Entrelivros , que era uma revista interessante, está por acabar. Não pega. A Cult é complicada. Ora é muito séria, ora perde a mão. A Bravo , que já foi ambiciosa e qualificada, foi piorando com o passar do tempo. Existe sempre a pressão por vender muito. E muita gente acha que vender muito é vender 50, 60 mil exemplares. Só que no Brasil, onde os livros vendem 2, 3 mil cópias, se uma revista vender 20 mil exemplares está bom. Existe também um negativismo muito grande nessa área. Entrei em 1991 no "Caderno 2", trabalhei na "Ilustrada" e Gazeta Mercantil . E só ouvi coisas negativas, do tipo "o leitor não está interessado nisso", "revista de cultura não dá certo no Brasil", "jornalismo sofisticado não dá certo". Derramam um caminhão de negativismo na cabeça dos jovens que chegam às redações. Isso é um problema sério.
Essa pressão por vender mais deixou as revistas culturais brasileiras mais populistas?
É preciso saber o que o leitor quer, mas não dar a ele só isso. Tem coisas que ele nem sabe que quer. Tem que dar o blockbuster , mas também nomes novos. É preciso ser noticioso também no jornalismo de cultura e de opinião. Banalizar a revista e deixá-la demagógica ou didática pode ser um tiro no pé. O grande erro do pensamento relativo ao jornalismo cultural no Brasil é achar que é preciso simplificar ao máximo para atrair leitores. A revista Bravo , por exemplo, foi ficando cada vez mais pedestre, simplificada, didática. No fim das contas, vende menos do que já vendeu. Banalizar e apelar não garante vendagem.
Qual sua opinião sobre a crítica literária brasileira?
Os jornais desestimularam a idéia de crítica. Eu vivi um tempo na Folha de S.Paulo em que eles simplesmente extinguiram os críticos. Todo mundo virou repórter. Foi uma grande bobagem. Acham que as pessoas não estão interessadas nisso. Mas elas gostam de ler bons críticos.
Não acha que muitos críticos "jogam para a galera" e só escrevem o que o leitor quer ler?
Muita gente joga para a galera e não é só na área cultural. Muitos jornalistas de opinião procuram falar o que acham que vai agradar. Opinião não é isso. Tem que ter coragem de dizer o que pensa. Isso ainda é muito raro no Brasil. No caso da crítica literária, acontece que os livros perderam o papel de medula que tinham no mundo cultural. Hoje não gira tudo em torno dos livros. Eles não têm mais a mesma importância. Não temos mais um Otto Carpeaux, um Álvaro Lins. Isso depende do estímulo que os jornais dão. Hoje, os críticos de cinema têm um estímulo enorme, mas os de livros e teatro, não. Qualquer caderno cultural tem dois críticos de cinema fixos. E não têm um de teatro ou arquitetura... No Brasil, não fazem crítica de arquitetura, a não ser em revistas especializadas. Em Paris, quando alguém faz uma obra, aquilo vira discussão nos jornais a semana inteira. Aqui, não existe isso. No Brasil a arquitetura ainda está muito presa a Niemeyer, Paulo Mendes da Rocha e Ruy Ohtake.
Por que os críticos de teatro e livros são preteridos?
A crítica reflete um pouco o momento da arte. O teatro brasileiro não passa por um bom momento. A crítica é uma reação ao estado da arte.
E a poesia brasileira, é boa?
Já foi melhor. Existe um grande poeta vivo hoje, que é o Ferreira Goulart. E alguns outros. Teve uma geração dos anos 70 que caiu na coisa mais alternativa, tipo o Chacal, que é interessante mas, para mim, não é um grande poeta. E outra geração que ficou muito embaixo do chapéu dos concretistas e nunca conseguiu atingir seu potencial: Nelson Ascher, Régis Bonvicino, Heitor Ferraz. Eles poderiam ter sido melhores do que são. Aí você dá um salto e aparece um cara jovem, com seus trinta e poucos anos, que é o Fabrício Carpinejar, do Rio Grande do Sul. Ele faz uma coisa interessante, uma poesia que namora a prosa, o aforismo e, no entanto, é extremamente poético. Tem uma carga emocional e de imagens muito grande. Ele vai longe.
O Brasil tem, hoje, um polemista à altura de Paulo Francis, cuja biografia você escreveu? Seria o Diogo Mainardi?
Ele é o herdeiro do Francis na polêmica antiesquerda. Nesse aspecto, ele é o cara que mais chama a atenção nos ataques ao Lula, ao PT e à antiga esquerda. O Diogo ocupou esse espaço, mas o papel do Francis era múltiplo. Ele era comentarista cultural, polemista político. Tinha uma erudição muito grande. Era um personagem mais abrangente, uma figura histórica.
Como era a sua relação com o Paulo Francis?
Eu o conheci nos início dos anos 90. Convivi muito com ele nos seus últimos seis anos de vida. O Francis era um dos meus jornalistas preferidos na adolescência, quando eu nem sabia que ia ser jornalista.
Qual foi a grande polêmica em que você entrou?
Quando eu fazia crítica de arte na Folha e criticava alguns caras estabelecidos, sempre chegavam cartas ao "Painel do Leitor", algumas até ofensivas, que nem deveriam ter sido publicadas. Tinham muitos adjetivos, em geral preconceituosos, em função de eu ser um crítico jovem.
Quem mais reclamava?
Cadê a Jac Lerner? Cadê a Leda Catunda? Cadê o Sérgio Sister? Onde estão esses pintores que eram tão badalados no início dos anos 90? Não são nada. A obra deles desapareceu. Às vezes vocês está do lado certo e contra todos. Hoje em dia, aqui no Estadão , volta e meia eu recebo e-mails do Fernando Meirelles, Cacá Diegues... Mas hoje em dia as pessoas não têm mais vontade de trocar idéias em praça pública. Cada um fica com a sua turminha.
Já te chamaram de arrogante?
Já, mas também já me disseram que a minha vantagem sobre o Paulo Francis é que eu não sou arrogante. Já me disseram também que eu tenho fleuma.
Vamos falar sobre literatura. O livro do Machado de Assis foi a grande obra da sua vida?
Sem dúvida. Dediquei a ele dez anos de pesquisa, um ano e meio de redação, milhões de releituras, noites pensando na complexidade da obra do Machado. Foi uma obsessão, mesmo.
A obra dele foi, em grande parte, publicada em jornais antes de virar livro...
Naquela época existia a tradição do folhetim. O Machado usou o jornalismo para pagar suas contas e desenvolver seu estilo.
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