Emilio Surita: "O Casseta dá de milhão no Pânico".

Emilio Surita: "O Casseta dá de milhão no Pânico".

Atualizado em 04/07/2005 às 15:07, por Pedro Venceslau e Thaís Naldoni.

Por

Advogado por formação, o Dr. Antônio Emílio Saenz Surita, nunca exerceu a profissão. Foi no rádio que Emílio Surita, de 42 anos, fez carreira e caiu nas graças dos ouvintes, como líder e mediador do programa Pânico, que vai ao ar diariamente pela rádio "Jovem Pan" há quase 12 anos.
Há pouco mais de um ano, o irreverente programa, que faz perguntas indiscretas aos convidados e não tem qualquer "delicadeza" com seus ouvintes - jovens em sua maioria - foi levado para a TV aberta, exibido através da Rede TV!. Hoje, um dos líderes de audiência aos domingos, o Pânico está cada vez mais na "boca do povo" e da mídia.
Nesta entrevista ao Portal IMPRENSA, Emílio Surita comenta a figuração do "Pânico na TV!" no ranking da baixaria do deputado Fantazini, esclarece alguns episódios polêmicos, como o recente apagão que tirou o programa do ar por mais de 20 minutos, além da repercussão da mídia do interesse de Silvio Santos em levá-los para o SBT.
Durante a entrevista, Emílio foi chamado para atender uma ligação: era Luciano Huck. Emílio pediu para que a secretária anotasse o telefone, que ele retornaria depois. Porém, quando se trata do Pânico, uma pergunta sempre paira: é verdade ou pegadinha? Afinal, qual é a credibilidade do palhaço?

IMPRENSA - O deputado Fantazini, com a criação do "ranking da baixaria", tenta fazer com que a audiência e o faturamento dos programas assim considerados, baixem até que eles sejam extintos. O que você acha disso?
Surita -
O problema de tudo isso, é se fazer algo sem qualquer metodologia. Lembro uma vez em que eu estava estudando pesquisa, e falaram que tinha um inglês que queria saber quanto se tomava de chá na Índia. Aí ele pegou um avião, saiu de Londres, chegou em Nova Dheli, desceu no aeroporto, chegou no barzinho do aeroporto, tinha uma pessoa tomando café e outra tomando chá. Ou seja, 50% da população toma chá e 50% toma café.
É uma coisa julgada por um grupo de 10, 15 pessoas que não gostam daquilo que estão assistindo. Portanto, não há números suficientes para se discutir. É complicado classificar humor, porque humor é subjetivo.

IMPRENSA - Mas tinha uma parte mais pesada do programa que vocês tiraram, que era a morte. Vocês chegaram ter algum problema com aquilo?
Surita -
Você tem problema com tudo. A gente estava fazendo uma brincadeira, por causa daquele corte de energia que nós tivemos. Dissemos que era um boicote, um ato terrorista e colocamos uma cena o World Trade Center. Uma pessoa reclamou, dizendo que era um absurdo colocarmos aquela cena, mas era uma brincadeira, de se falar de uma grande tragédia e se comparar com uma bobagem daquela nossa, mas é assim que funciona.

IMPRENSA - Há algum limite imposto para vocês?
Surita -
O limite é o bom senso. No humor, muitas vezes você anda numa linha fina, às vezes você escorrega, e depois, mais à frente, você busca fazer diferente.

IMPRENSA - Mas no humor vale tudo? Qual o seu limite?
Surita -
O limite é você pensar que você está fazendo um programa para o cara que está em casa, com a mulher dele, para que nem a mulher ou o filho dele se sintam constrangidos.

IMPRENSA - O que você acha da classificação dos programas por faixa etária?
Surita -
Classificar a faixa etária não funciona, porque meus filhos vêem a novela, que é classificada para 14 anos e eles têm 12. Aí, se ele não entende um beijo homossexual, você senta com ele e explica o que é aquilo. Então, é a família, o bom senso da família é que vai determinar o que uma criança vai ou não assistir.
É complicado, porque aí tem aquele jornal das seis horas da tarde cheio de crimes. Outro dia de manhã, 9h da manhã, estavam mostrando um cara cheirando cocaína. Você não pode julgar isso, tem é que pegar o menor e explicar essas coisas, é o mundo que está acontecendo ali na televisão.

IMPRENSA - Na sua opinião, este movimento pode evoluir para censura?
Surita -
Eu acho que não há essa intenção de censurar, eles querem só classificar. Só que quando você cria normas, você pode encarar como censura, mas eu acho que não deve ser este o objetivo desse pessoal de Brasília. Acho que, hoje em dia, ninguém quer censurar nada no Brasil.

IMPRENSA - O quadro que a Sabrina Sato tinha no Pânico, que ela comia bichos, era exposta a tiros, por exemplo, foi classificado de "ultrage humano" pelo deputado Fantazini. O que você acha disso?
Surita -
Aquilo é um negócio que se come na Indonésia. No caso do boi, que foi feito o movimento de uma inseminação artificial, a matéria foi gravada na USP, com um especialista. Quanto aos tiros, foi tudo totalmente feito dentro de um laboratório de blindagem, tudo controlado. O que muda, é o jeito que você coloca a coisa. Se o quadro do boi tivesse passado no Globo Rural, estaria tudo bem, às 10h da manhã.

IMPRENSA - É verdade que a Rede TV! teria pago um seguro de vida para ela?
Surita -
Mentira.

IMPRENSA - Estamos em época da indústria do dano moral. Há pouco, a Rede TV! acabou condenada pela primeira vez, por causa do Pânico. Vocês não temem esta indústria?
Surita -
Eu não sei. Isso fica por conta do departamento jurídico da emissora. Ninguém nem me falou isso, eu nem sei.

IMPRENSA - É verdade que um dos motivos que abortou a ida do "Pânico na TV" para o SBT tenha sido o medo de processos?
Surita -
Não, foi outra coisa. Não vou abrir o motivo, porque já passou.

IMPRENSA - Mas não há uma preocupação? A emissora não pede para que não haja exageros? Por exemplo, o processo que a Rede TV! perdeu foi por ter levantado a saia de uma senhora durante o SPFW.
Surita -
O Pânico tem uma linguagem muito jovem que chegou na televisão, porque a televisão é muito careta, tudo o que é feito nela é velado. A TV não é feita por moleques, que nem o Pânico. Tem programas que o cara leva alguém lá e diz: "vamos mostrar agora como faz o um exame de mama", só para mostrar o peito da mulher. Todo mundo sabe disso. Então, era tudo feito de uma maneira muito hipócrita.
Eles falam: "esse é o programa da família brasileira. É muito importante fazer o exame". Aí vão lá, colocam três modelos peitudonas... minha mãe nunca convidaram para fazer mamografia, nem a sua.
Olha isso aqui (Surita mostra uma carta em que um advogado se oferecia para processar a Rede TV! por perdas e danos, em nome da equipe do Pânico e dos anunciantes, por causa da pane que tirou o programa do ar). Isso é indústria. Vocês estão vendo como funcionam as coisas?

IMPRENSA - Você acha que os anunciantes se sensibilizam com esta campanha contra a baixaria?
Surita -
Não vou ficar julgando quem tira os anúncios, a intenção do deputado... o Pânico hoje é um programa que tem audiência, que teve e tem dificuldades, porque ele luta com dois caras que monopolizam o horário. A gente faz na maior das boas intenções. Hoje, temos anunciantes de peso, como Semp Toshiba, Mastercard, temos laboratórios, Suzuki, Nissin... eu não acho que o Pânico seja um programa de baixaria, ele tem linguagem jovem.

IMPRENSA - E porque processar o Kibeloko?
Surita -
Mas, você acreditou naquilo? O anãozinho advogado? Aquilo é uma brincadeira entre o Kibeloko e o Pânico. Aquilo lá foi o seguinte: a gente sempre usou material do Kibeloko e colocou algumas coisas. Então, a gente tinha um quadro, que até era o Carioca que fazia, que é meio de pegar coisas da internet. Aí, saiu um material do Kibeloko que acabou não sendo creditado, por isso, o dono do site me ligou bravo. Por isso, eu disse para ele: eu vou fazer um negócio que vai muita visitação para você, mas vou te sacanear e daí saiu a brincadeira do anão como advogado.

IMPRENSA - Tem muita bobagem que falam sobre o Pânico na imprensa?
Surita -
O que acontece é o seguinte: hoje em dia, com a internet, tem muita informação, tem muito site de fofoca. Tem o Terra, brigando com o UOL, que briga com IG... existem não sei quantas revistas voltadas para televisão e o entretenimento, então todo mundo quer dar o furo.
No negócio do Silvio Santos foi a coisa mais absurda que eu já vi. As pessoas queriam, de qualquer maneira, dar o furo desse negócio e foi algo que protelou muito. O Silvio Santos chamou o Tutinha na casa dele, aqui no Morumbi, o Tutinha foi lá, conversou com ele durante meia-hora e falaram do contrato, como funcionava o nosso, multa contratual... e o Silvio Santos disse que estudaria qual seria o potencial de faturamento do Pânico, para ver se seria viável para o SBT.
Depois disso, o Tutinha viajou para a Turquia, durante 20 dias. Nesses 20 dias, a imprensa falou que o Pânico já tinha sala no SBT, que tinha troca de minuta de contrato, falaram tudo o que se possa imaginar. Eu, estando perto do Tutinha, fui informado do que estava acontecendo.
Mas, me ligam Daniel Castro, Feltrin, e eu falando para os caras: "olha, não tem nada". E eles diziam assim: "não, vocês já estão no SBT. Parabéns, agora vocês vão ganhar dinheiro". E, por mais que eu dissesse que não tinha nada, não adiantava e eles diziam que eu estava escondendo o jogo. E eu vendo aquilo tudo, pensava: "Meu Deus! Que loucura!".
No fim, é muito pãozinho para fazer e pouco bromato para encher o pãozinho.

IMPRENSA - Há diversas coisas que acontecem com vocês, que é impossível saber se é verdade ou não. Por exemplo, o caso do Carioca. Não seria necessária uma certa honestidade nas brincadeiras?
Surita -
Na verdade é o seguinte: quando você faz humor, as pessoas exigem a credibilidade do palhaço. E o palhaço, é o palhaço do circo. O caso do Carioca foi uma discussão real, houve aquela discussão.

IMPRENSA - Não houve um momento em que a fama contaminou a relação de vocês? No caso do Japonês, que inclusive saiu na coluna da Mônica Bérgamo, que ele ganharia um salário menor do que os demais e, por isso, resolveu deixar o programa...
Surita -
Não é essa a história. É que o Japonês não estava fazendo personagem nenhum e aí eu falei com ele, o Tutinha falou para que ele desse um tempo, criasse um personagem novo para que pudesse se readequar. Mas, aí ele já estava com o saco meio cheio e resolveu sair.

IMPRENSA - A dupla Vesgo e Silvio é um inegável sucesso. Não há o receio de que eles se tornem maiores do que o Pânico?
Surita -
Não, acho que não. Eu não tenho a menor preocupação. Quando você trabalha numa equipe, você tem que ser generoso. Todos devem ser generosos com os outros. Eles sabem que todo mundo cria para eles também, porque não são os dois que estão lá que são sensacionais. Há, atrás daquilo, um monte coisas. Eles estão aparecendo mais porque está todo mundo também trabalhando para eles e eles sabem disso, por isso é que não tenho receio.

IMPRENSA - Você acredita que o Pânico continuaria com o mesmo sucesso sem os dois?
Surita -
Não sei. Não sei fazer previsão. Pode ser que faça sucesso sem os dois, pode ser que com os dois não faça mais sucesso, isso aí é previsão. Só Nostradamus responderia para você.

IMPRENSA - Há alguma pressão sobre o Bola, que não tem nenhum personagem?
Surita -
Não, o Bola ajuda em outras coisas.

IMPRENSA - Como é o processo criativo de vocês?
Surita -
É coletivo. É uma reunião coletiva quase que diária para que possamos criar os quadros.

IMPRENSA - Vocês lêem muito? Os quadros acompanham sempre os últimos acontecimentos...
Surita -
Tem que estar muito ligado em tudo, né? O principal acontecimento nos leva a produzir a grande matéria da semana.

IMPRENSA - Existe alguma assessoria de imprensa que divulgue o que vocês fazem? Toda a semana vocês estão no noticiário...
Surita -
Isso é natural. A repercussão é sempre boa, mas não existe assessoria. Sempre onde fazemos matéria tem jornalistas e aí aparecem aqueles malucos...

IMPRENSA - O excesso de merchandising te preocupa? Um patrocinador apenas não seria melhor para vocês?
Surita -
Claro que seria melhor. O que acontece é que você tem que trabalhar com as ferramentas que você tem. Eu preferiria que o programa fosse muito mais equilibrado, só que se você equilibrar o programa você não dá audiência. Então, você descarrega ele antes, que é para você fazer número de audiência.
Não adianta, televisão aberta é o teu programa e teu número do lado. Nossa audiência é baixa no início e, quando ela vai crescendo, a gente faz um bloco de merchandising. É um equilíbrio que se faz.

IMPRENSA - A Luciana Gimenez estava usando o Pânico do começo ao fim. Incomoda o fato de os outros programas da casa usarem e abusarem do material de vocês? Há pouco tempo, a Luciana reclamou que vocês não haviam liberado parte do programa.
Surita -
A gente não tinha liberado porque a gente reprisa o programa na sexta. Quando a gente não reprisava, a gente liberava. Mas não incomoda o fato de os outros programas usarem nosso material. Acho arrogante falar não. É uma postura arrogante. Sem contar que é da casa.

IMPRENSA - Você não se chateia pelo investimento ser bem maior no programa dela?
Surita -
Não sei. Esse negócio de cenário, eles estão falando desde janeiro que vão trocar, porque estava velho, estragado. Aí, eu falei para destruir, porque pensava que eles não deixariam o programa sem cenário, e deixaram. Aí, surgiu o negócio do SBT e eles não fizeram o cenário e está até hoje assim.

IMPRENSA - Vocês descobriram o que aconteceu naquela pane?
Surita -
Ninguém sabe o que aconteceu naquela pane. De ser na hora em que a gente iria mostrar o camarim, foi coincidência. Então, se nós tivéssemos falado que tinha sido um problema técnico e pronto, tudo bem. Mas nós ficamos levantando esse negócio que saiu, ficou parecendo que a gente é que estava armando. Quem tiraria uma emissora com 12 pontos do ar?

IMPRENSA - Vocês realmente perderam verba publicitária?
Surita -
Perdemos merchan, brack comercial...mas depois a gente fez uma brincadeira com isso.

IMPRENSA - Vocês acham que prestaram um serviço para o Clodovil? Para que ele conseguisse outro programa?
Surita -
Não é dos sonhos dele, mas eu acho que ele está feliz. Sabe o que acontece? O Pânico mistura realidade com ficção e o que acontece é que a ficção necessita de uma lógica. Você quando vai escrever qualquer esquete, ela deve ter uma lógica, mas a realidade não necessita de lógica, porque existe o acaso. No caso de um acidente, por exemplo, tem quem fale: "o cara estava no ponto-de-ônibus conversando comigo, veio o ônibus, bateu o retrovisor na cabeça dele e ele caiu morto", você não entende. O Pânico brinca com essas coisas, brinca com a realidade, brinca com a ficção. O programa começa a misturar o Clodovil (gente de verdade), com ficção.

IMPRENSA - Vocês chegaram em um ponto em que as pessoas querem dar entrevista, querem participar. Isso não faz com que o programa perca um pouco da naturalidade?
Surita -
Sim, mas aí a gente vai criar outras coisas para sair da mesmice. Olha, eu acho que a melhor contribuição que uma comissão pode dar para o cara que está em casa, não é falando qual programa é melhor para cada horário, é explicar como é feito aquilo. Se o cara tiver cultura suficiente para saber o que é uma edição, o que fizeram com o Lula e o Collor, naquela famosa edição do debate de 1989, o cara seria muito mais inteligente assistindo. Porque a pessoa que assiste televisão, não sabe como a televisão a manipula.
Hoje, a pessoa não sabe diferenciar o que é ficção, realidade, entretenimento e jornalismo. Então, parece que é tudo farinha do mesmo saco, que é o caso da credibilidade do palhaço. O cara exige da gente, a mesma credibilidade do Joelmir Beting. O João Kléber tem que ter uma postura de Willian Bonner.

IMPRENSA - Há o receio de muitas pessoas, que se vocês forem para uma emissora maior, percam a naturalidade. O Faustão, por exemplo, era muito mais engraçado no "Perdidos da Noite".
Surita -
O Faustão escolheu esse caminho. Ele ganha trilhões, se adequou ao padrão da Globo e a fazer um programa daquele jeito. Hoje ele é da grande mídia.
No caso do SBT, com certeza não faríamos o programa que fazemos hoje. Hoje, o Pânico não é um programa restrito à Rede TV!. Ele é uma vitrine de humor, que pega este universo de televisão, de celebridade. Ele pega o cara da Globo, brinca com o SBT. Esta semana, eles foram fazer uma festa com o logo do SBT. Então, isso é impossível de se fazer na Globo.

IMPRENSA - Mas vocês iriam para a Globo?
Surita -
O que seduz as pessoas é o dinheiro. Pelo dinheiro você acaba fazendo.

IMPRENSA - Mas um dos grandes ingredientes do sucesso de vocês é o marketing da pobreza...
Surita -
Mas é pobreza. Na verdade, não é pobreza. A Rede TV! é uma emissora com quatro anos, que está começando, pegou um pepino da Manchete. Não adianta você exigir de uma emissora pequena, todas as vantagens de uma emissora grande. Porém, em uma emissora grande, você não fala nada, porque tem um milhão de compromissos. A Rede Globo não fala nada, não fala de ninguém, não olha para o outro lado.
Para você ver o Casseta. O Casseta como grupo de humor, como pensante, como inteligência, dá de milhão do Pânico, o Casseta é o melhor grupo. Só que na Globo, o que eles podem fazer? Nada. Ou brincam com a novela ou não podem fazer nada. Mesmo assim, estão há muitos anos no ar.

IMPRENSA - Você acha mesmo que o Casseta dá de milhão no Pânico?
Surita -
Eu acho porque os caras são inteligentes, eles estão um degrau acima do Pânico, porque o Pânico, com exceção minha, que tenho 42 anos, é todo feito por caras de 20. O Casseta é formado por oito caras que têm experiência, bagagem, a manha para fazer o que fazem, para fazer humor. E um humor inteligente. E para quem diz que não são o que eram, é porque já se acostumaram.