Em silêncio, pessoas introvertidas também conquistam espaço no jornalismo
Tarefas simples como entrevistar pessoas e participar de uma coletiva podem ser um sofrimento para os jornalistas introvertidos.
Atualizado em 26/08/2014 às 16:08, por
Lucas Carvalho*.
Entrevistar uma fonte frente a frente ou por telefone, fazer perguntas em uma coletiva de imprensa, aproximar-se de um estranho na rua são atividades comuns no cotidiano de um jornalista. Para muitos, tarefas simples e corriqueiras, para outros, um sofrimento desgastante. É a realidade dos jornalistas introvertidos.
Crédito:Divulgação Marina Almeida, Carmen Guerreiro e Vanessa Bárbara falam como lidam com timidez no dia a dia jornalístico
O constrangimento ao entrar em contato com outras pessoas é uma característica de pessoas introvertidas. Esse traço da personalidade, segundo estudos psicológicos, não necessariamente tem alguma conexão com a timidez. Aquele repórter calado, que mal olha nos olhos, claramente desconfortável ao conversar a sós com alguém pode apenas ter preferência pelo silêncio.
Vanessa Barbara, colunista do jornal O Estado de S. Paulo e do New York Times , é assumidamente introvertida. Ela recorda o livro “O Poder dos Quietos” (2012), da advogada e consultora norte-americana Susan Cain, que explica a diferença entre timidez e introversão.
“[Segundo o livro] timidez é o medo do julgamento social negativo – preocupar-se excessivamente com o que as pessoas pensam de você. Introversão é simplesmente a preferência pela calma e por uma quantidade baixa de estímulos. É uma questão de alta sensibilidade, de alta reatividade diante das coisas”, diz Vanessa.
Carmen Guerreiro, editora de web da Editora Segmento e autora do blog , diz que ser um jornalista introvertido é difícil e pode até soar como um paradoxo. "O trabalho com comunicação exige em geral que o profissional se exponha, seja aparecendo em frente a uma câmera, seja abordando pessoas, ligando e, muitas vezes, sendo inconveniente", diz.
Ela contrapõe a afirmação descrevendo uma preocupação natural para os introvertidos: falar com estranhos. "Para mim, o pior é abordar os outros. Não gosto de incomodar as pessoas ou de ser invasiva. Então ‘povo fala’, para mim, é insuportável", conta.
Mas se engana quem pensa que introvertidos não gostam de se comunicar. Eles apenas o fazem de uma maneira diferente. Marina Almeida, editora da revista Escola Pública , diz que o que mais atrai pessoas assim para a área do jornalismo é, justamente, a chance de se expressar. "O mesmo que atrai os extrovertidos. [...] Gosto de falar com as pessoas, ouvir suas histórias e o jornalismo me dá uma ótima desculpa para fazer isso", revela.
Vanessa emenda, explicando que existem diferentes formas de se comunicar e que falar excessivamente não é a única delas. "No meu caso, eu faço tudo por escrito, mas podemos muito bem ter um introvertido que adora apresentar telejornal, por que não? Ele só vai fazer isso de um jeito mais tranquilo e talvez precise de mais tempo sozinho do que os demais."
Apesar de menos falantes, jornalistas introvertidos têm algumas vantagens sobre os extrovertidos: o gosto por ouvir. “Muitas vezes, os mais extrovertidos falam demais, interrompem o outro, estão constantemente tentando expor suas opiniões e esquecem de ouvir a fonte. E, frequentemente, quando deixamos as pessoas falarem mais, elas acabam se sentindo mais à vontade, dividindo informações relevantes e fazendo colocações importantes no final da entrevista", afirma Carmen.
Dificuldades
Para Marina, o principal obstáculo na vida de um jornalista tímido ou reservado está na hora de disputar espaço no mercado de trabalho. "A principal dificuldade, para mim, é o preconceito das pessoas que selecionam os candidatos a uma vaga. Muitas vezes, escolhem os candidatos pelo estereótipo do jornalista extrovertido. Sempre me saía melhor quando a seleção envolvia um teste prático, com entrevistas e redação de matéria, do que quando era apenas uma dinâmica com os candidatos", conta.
"A introversão ainda é vista como um traço de personalidade errado e problemático e, se ela foi um obstáculo na minha carreira, é mais por ignorância dos outros. Conforme fui ganhando mais confiança, isso melhorou", acrescenta Vanessa.
Carmen compartilha uma história de quando era ainda uma “foca” e a introversão a deixou desconfortável. "No meu primeiro dia do primeiro emprego, me deram uma lista de telefones para ligar. Foi uma tortura para mim. Com o tempo, você coloca isso no automático, então não acho mais tão difícil hoje, apesar de continuar não gostando.”
"Em determinadas situações, também fui cobrada para falar mais em reuniões e interagir mais com outros jornalistas na redação, mas não adianta, isso não é natural para mim. Não me sentiria bem falando algo só por falar ou me expondo aos outros sem necessidade. Afinal, prefiro ser invisível e manter os sentidos de observação aguçados para prestar mais atenção, coletar mais informações e percepções e, com isso, enriquecer minhas reportagens", continua a jornalista.
Defeito ou qualidade?
Segundo Marina, a introversão não é nem uma qualidade e nem um defeito, mas uma característica como qualquer outra, com vantagens e desvantagens. A jornalista diz que não há motivo para colocar introvertidos “contra” extrovertidos, já que ambos os perfis são capazes de executar as mesmas funções no jornalismo e ser complementares. “As redações só têm a se beneficiar com essa diversidade”, diz.
Já Vanessa cita o livro “Bem que eu queria ir” (2009), de Allen Shawn, como exemplo da condição de um introvertido. A obra fala das constantes fobias do ex-editor da revista norte-americana New Yorker , o jornalista William Shawn, pai do autor. A conclusão é de que, mesmo as dificuldades que algumas pessoas têm para viver numa sociedade agitada e barulhenta, podem não ser, necessariamente, empecilhos para seu sucesso profissional.
"A introversão pode ser às vezes um defeito, mas é também uma das melhores qualidades que alguém pode ter. No meu caso, acho que é um dos meus pontos fortes... O segredo é aprender a lidar com isso. [...] Em outras palavras: as suas forças são as suas fraquezas", conclui Vanessa Bárbara.
* Com supervisão de Vanessa Gonçalves
Crédito:Divulgação Marina Almeida, Carmen Guerreiro e Vanessa Bárbara falam como lidam com timidez no dia a dia jornalístico
O constrangimento ao entrar em contato com outras pessoas é uma característica de pessoas introvertidas. Esse traço da personalidade, segundo estudos psicológicos, não necessariamente tem alguma conexão com a timidez. Aquele repórter calado, que mal olha nos olhos, claramente desconfortável ao conversar a sós com alguém pode apenas ter preferência pelo silêncio.
Vanessa Barbara, colunista do jornal O Estado de S. Paulo e do New York Times , é assumidamente introvertida. Ela recorda o livro “O Poder dos Quietos” (2012), da advogada e consultora norte-americana Susan Cain, que explica a diferença entre timidez e introversão.
“[Segundo o livro] timidez é o medo do julgamento social negativo – preocupar-se excessivamente com o que as pessoas pensam de você. Introversão é simplesmente a preferência pela calma e por uma quantidade baixa de estímulos. É uma questão de alta sensibilidade, de alta reatividade diante das coisas”, diz Vanessa.
Carmen Guerreiro, editora de web da Editora Segmento e autora do blog , diz que ser um jornalista introvertido é difícil e pode até soar como um paradoxo. "O trabalho com comunicação exige em geral que o profissional se exponha, seja aparecendo em frente a uma câmera, seja abordando pessoas, ligando e, muitas vezes, sendo inconveniente", diz.
Ela contrapõe a afirmação descrevendo uma preocupação natural para os introvertidos: falar com estranhos. "Para mim, o pior é abordar os outros. Não gosto de incomodar as pessoas ou de ser invasiva. Então ‘povo fala’, para mim, é insuportável", conta.
Mas se engana quem pensa que introvertidos não gostam de se comunicar. Eles apenas o fazem de uma maneira diferente. Marina Almeida, editora da revista Escola Pública , diz que o que mais atrai pessoas assim para a área do jornalismo é, justamente, a chance de se expressar. "O mesmo que atrai os extrovertidos. [...] Gosto de falar com as pessoas, ouvir suas histórias e o jornalismo me dá uma ótima desculpa para fazer isso", revela.
Vanessa emenda, explicando que existem diferentes formas de se comunicar e que falar excessivamente não é a única delas. "No meu caso, eu faço tudo por escrito, mas podemos muito bem ter um introvertido que adora apresentar telejornal, por que não? Ele só vai fazer isso de um jeito mais tranquilo e talvez precise de mais tempo sozinho do que os demais."
Apesar de menos falantes, jornalistas introvertidos têm algumas vantagens sobre os extrovertidos: o gosto por ouvir. “Muitas vezes, os mais extrovertidos falam demais, interrompem o outro, estão constantemente tentando expor suas opiniões e esquecem de ouvir a fonte. E, frequentemente, quando deixamos as pessoas falarem mais, elas acabam se sentindo mais à vontade, dividindo informações relevantes e fazendo colocações importantes no final da entrevista", afirma Carmen.
Dificuldades
Para Marina, o principal obstáculo na vida de um jornalista tímido ou reservado está na hora de disputar espaço no mercado de trabalho. "A principal dificuldade, para mim, é o preconceito das pessoas que selecionam os candidatos a uma vaga. Muitas vezes, escolhem os candidatos pelo estereótipo do jornalista extrovertido. Sempre me saía melhor quando a seleção envolvia um teste prático, com entrevistas e redação de matéria, do que quando era apenas uma dinâmica com os candidatos", conta.
"A introversão ainda é vista como um traço de personalidade errado e problemático e, se ela foi um obstáculo na minha carreira, é mais por ignorância dos outros. Conforme fui ganhando mais confiança, isso melhorou", acrescenta Vanessa.
Carmen compartilha uma história de quando era ainda uma “foca” e a introversão a deixou desconfortável. "No meu primeiro dia do primeiro emprego, me deram uma lista de telefones para ligar. Foi uma tortura para mim. Com o tempo, você coloca isso no automático, então não acho mais tão difícil hoje, apesar de continuar não gostando.”
"Em determinadas situações, também fui cobrada para falar mais em reuniões e interagir mais com outros jornalistas na redação, mas não adianta, isso não é natural para mim. Não me sentiria bem falando algo só por falar ou me expondo aos outros sem necessidade. Afinal, prefiro ser invisível e manter os sentidos de observação aguçados para prestar mais atenção, coletar mais informações e percepções e, com isso, enriquecer minhas reportagens", continua a jornalista.
Defeito ou qualidade?
Segundo Marina, a introversão não é nem uma qualidade e nem um defeito, mas uma característica como qualquer outra, com vantagens e desvantagens. A jornalista diz que não há motivo para colocar introvertidos “contra” extrovertidos, já que ambos os perfis são capazes de executar as mesmas funções no jornalismo e ser complementares. “As redações só têm a se beneficiar com essa diversidade”, diz.
Já Vanessa cita o livro “Bem que eu queria ir” (2009), de Allen Shawn, como exemplo da condição de um introvertido. A obra fala das constantes fobias do ex-editor da revista norte-americana New Yorker , o jornalista William Shawn, pai do autor. A conclusão é de que, mesmo as dificuldades que algumas pessoas têm para viver numa sociedade agitada e barulhenta, podem não ser, necessariamente, empecilhos para seu sucesso profissional.
"A introversão pode ser às vezes um defeito, mas é também uma das melhores qualidades que alguém pode ter. No meu caso, acho que é um dos meus pontos fortes... O segredo é aprender a lidar com isso. [...] Em outras palavras: as suas forças são as suas fraquezas", conclui Vanessa Bárbara.
* Com supervisão de Vanessa Gonçalves





