Em qual Obama você acredita?

Em qual Obama você acredita?

Atualizado em 06/02/2009 às 18:02, por Rodrigo Manzano.

Durante a campanha à Presidência dos EUA, o então candidato Barack Obama concedeu uma entrevista, assistida em horário nobre por milhões de eleitores norte-americanos. Na ocasião, Obama conversou com o pastor Rick Warren sobre vários temas, entre eles religião e fé, aborto, casamento homossexual e relações internacionais. As aspas a seguir foram reproduzidas da edição brasileira deste mês da Seleções Reader's Digest, a verdadeira embaixada dos Estados Unidos no país.

Sobre qual seria sua maior falha moral, Obama afirmou: "Quando me vejo dando um mau passo, acho que na maioria das vezes é porque estou tentando me proteger, em vez de tentar seguir a obra de Deus". Sobre sua fé: "(...) acredito que Jesus Cristo morreu pelos meus pecados e que sou redimido por Ele. Essa é uma fonte de força e sustentação no dia-a-dia. Sei que não caminho sozinho e acredito que, se me desviar do caminho, talvez possa levar comigo algum ensinamento do que Ele pretende que seja minha vida". A respeito do casamento: "Acredito que o casamento é a união entre um homem e uma mulher. Agora, para mim, como cristão, é também uma união sagrada" e "Não promovo o casamento entre pessoas do mesmo sexo, mas acredito em uniões civis". Acerca do mal: "Algo em que acredito com toda a minha força é que, como indivíduos, não somos capazes de apagar o mal do mundo. Essa tarefa é de Deus. Mas podemos ser soldados nesse processo, e enfrentá-lo quando o vemos".

Ao terminar de ler a entrevista, olhei novamente a capa da publicação, verificando se de fato o personagem de quem saiam essas declarações era Obama ou George W. Bush, cuja fé e ignorância foram os motores da política dos EUA nos últimos anos, como todos sabemos. Passadas algumas horas, não me importava mais com o conteúdo da matéria, mas com a própria fragilidade da entrevista enquanto um gênero jornalístico de primeira grandeza.

Desde muito cedo acreditei que a entrevista jornalística era um gênero puro, calcado na melhor das intenções de diálogo entre entrevistado e entrevistador. Cheguei a arriscar textos em que descrevia uma boa entrevista como um lugar de contato intimamente próximo e, aos 20 e poucos anos, cheguei a fazer comparações entre o ato jornalístico e a situação clínica psicanalítica, quando médico e paciente, depois de alguma resistência, encontram-se em algum lugar do inconsciente. Tudo, evidentemente, não passou de uma grande bobagem. Afinal, quais são os limites da entrevista? Onde se realiza o diálogo real?

Se com a maioria das fontes a entrevista é um jogo de mostra-esconde, com políticos essa conversa torna-se ainda mais obtusa, mais difícil. Pensemos em Obama: no meio de sua campanha política para a presidência dos EUA, com visível apoio dos setores mais abertos entre os norte-americanos e rejeição clara entre os brancos protestantes conversadores, o que restava a ele senão se curvar a um discurso dúbio, como este que apresentou no diálogo com o reverendo Rick Warren? Confesso, mais uma vez, o quão assustado fiquei ao ler as palavras de Obama afirmando o casamento ser uma união sagrada entre um homem e uma mulher. Esse conceito está mais próximo a Carlos Apolinário, vereador paulista que lutou para instituir o Dia do Orgulho Heterossexual, que de Barack Obama, doutor em Direito por Harvard.