Em palestra no Masp, Gay Talese critica proximidade de jornalistas com o poder

Em palestra no Masp, Gay Talese critica proximidade de jornalistas com o poder

Atualizado em 08/07/2009 às 17:07, por Karina Padial/Redação Revista IMPRENSA.

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Mais de 200 pessoas lotaram o auditório do Masp na última terça-feira (7) para ouvir Gay Talese falar aquilo que vem repetindo no Brasil desde que chegou para uma série de eventos e palestras, a começar pela participação na Festa Literária Internacional de Paraty, a FLIP, no dia 4.

Divulgação
Gay Talese

Talese lembrou o começo de carreira, falou sobre o ofício do jornalista, confessou sua distância das novas tecnologias e contou os bastidores de algumas de suas grandes reportagens. O momento mais incisivo de sua palestra foi a crítica que fez aos jornalistas contemporâneos, segundo ele, muito próximos do poder e, por isso mesmo, menos críticos em relação ao governo. "Quando eu estava na redação, há 40 anos, éramos outsiders ", afirmou.

Como sempre, de terno bem cortado, gravata, lenço no bolso do paletó chapéu à tiracolo, Talese deu início à conversa, que duraria duas horas e foi mediada por Ilan Kow, editor-executivo do jornal O Estado de S. Paulo , contando sobre a primeira matéria de sua carreira, publicada em 02 de novembro de 1953.

Aos 21 anos entrou no The New York Times como copy boy , segundo ele o nível mais baixo da redação e que o obrigava a providenciar cafés e sanduíches para o editor. A curiosidade, segundo ele herdada do pai alfaiate, fez com que certo dia, no entanto, durante seu horário de almoço, Talese entrasse em um prédio de portas abertas que ostentava um letreiro com manchetes do jornal.

Ele lembra que ficou impressionado com aquelas luzes que produziam informações. Quando chegou ao terceiro andar do edifício, depois de passar pelos dois anteriores e não encontrar ninguém, Talese deu de frente com um homem em cima de uma escada que tinha na mão um aparelho, que ele descreve como "algo parecido com um acordeon". Em silêncio, observou o homem por alguns minutos até que ele percebesse sua presença.

"O que o senhor está fazendo?", perguntou. "Estou criando as palavras que vão lá fora", respondeu o trabalhador. Intrigado, logo pediu ao senhor para que o entrevistasse. "Não é interesse de ninguém", relutou o homem. "É meu", afirmou Talese determinado. E o diálogo prosseguiu: "Mas você não é repórter". "Eu sou copy boy e no futuro eu vou ser repórter". O garoto de 21 anos ainda não sabia, mas exatamente com aquela conversa iniciava sua atuação jornalística.

Ao chegar na redação, pediu a um repórter que o emprestasse sua máquina de escrever depois do expediente. Escreveu o texto e mostrou ao colega que sentenciou: "não está mal". No dia seguinte, o mesmo repórter levou a matéria ao editor que igualmente afirmou: "não está ruim. Mas é verdade essa história?". Mesmo com a afirmativa de Talese, o editor foi confirmar a informação. Chegou na manhã do outro dia pedindo autorização para o jovem para publicar seu texto na edição impressa.

À velha moda

Apesar de não responder diretamente às perguntas feitas pelo mediador e pelo público, Talese aproveitou as deixas para falar sobre sua carreira, algumas de suas reportagens e sobre suas crenças acerca do jornalismo. "O bom jornalismo é formado apenas pelos fatos", explicou ao auditório. "A não-ficção deve ser tão bem escrita quanto a literatura. A diferença é que o escritor de não-ficção não está imaginando", completou.

Baseado nesse argumento, afirmou que a melhor revista dos Estados Unidos é a New Yorker, que tem escritores, correspondentes, colunistas, ensaístas, críticos de cinema e de dança excelentes. "Em relação aos jornais, eu continuo achando que o NYT é o melhor, embora eu seja suspeito". A ele dedica duas horas diárias de leitura, da primeira à última página.

Para Gay Talese, a imprensa de hoje apresenta um texto mais sofisticado e inteligente que há 40 anos, quando começou a trabalhar em redação. Mas, por outro lado, afirma que as matérias eram mais céticas e incisivas e que hoje os jornalistas estão muito perto do poder.

"Os filhos dos jornalistas estudam na mesma escola que os filhos dos políticos", disse, se referindo à proximidade social que existe entre eles. Emendando sua crítica à imprensa que vai para a guerra junto com seus militares, criticou: "Não houve bom jornalismo durante a Guerra do Iraque. As matérias que aqueles repórteres escreveram não significaram nada".

Continuando a comparação, ele lembrou que no início da sua carreira, os jornalistas não se preocupavam com o texto porque a prioridade era o jornalismo e, por isso, o movimento, do qual foi um dos precursores, teve tanta importância. "Eu queria ser como os escritores de ficção. Mas daí eu pensei: 'se eu escrever ficção eu vou ser apenas mais um, mas se eu escrever não-ficção parecendo ficção, aí sim vai exclusivo".

Previsões

Distante das novas tecnologias, Talese não usa Internet, não tem e-mail e nem celular. Apesar disso não é avesso a essas ferramentas, mesmo achando que elas provocam uma acomodação nos jornalistas. "Acho que os jovens que já nascem com essa tecnologia vão ficar limitados se não forem além dela. O conforto da tecnologia permite que as pessoas consigam o que querem, mas só o que querem".

Para ele, portanto, são necessárias convivências e experiências humanas fora dos limites do laptop. Talese acredita que os jornais não vão morrer por causa da internet, mas que para isso é preciso que os leitores encontrem algo especial nos impressos.

Ainda sobre o futuro da profissão, o jornalista acredita que, mesmo com a crise, sempre vai existir valor no jornalismo honesto e bem-feito: "Eu valorizo os artesãos da escrita. Eu não posso prever o que vai acontecer, mas eu tenho fé".

Na sua opinião - que já estava a par da discussão sobre a obrigatoriedade do diploma no Brasil -, portanto, para exercer a profissão é mais importante a curiosidade que a formação.

A palestra foi promovida pela revista piauí em parceria com a revista Serrote , o jornal O Globo e a editora Companhia das Letras. Nesta quarta-feira (8), Gay Talese fala no Rio de Janeiro no Instituto Moreira Salles, com mediação do jornalista Arthur Dapievi. O Portal IMPRENSA acompanhou a palestra de Gay Talese no MASP por meio do Twitter. Clique e leia as atualizações.

* Colaborou Rodrigo Manzano

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