Em livro, jornalista revisita trauma da Copa de 1950 sob a visão do goleiro Barbosa
Às vésperas da segunda Copa do Mundo no Brasil, velhos fantasmas rondam o imaginário nacional. Afinal, a derrota no Maracanã em 1950 deixou cicatrizes, não só na torcida, mas naqueles personagens que foram a campo sem conseguir vencer o Uruguai frente a 200 mil pessoas.
Atualizado em 30/12/2013 às 13:12, por
Vanessa Gonçalves.
Avaliando este trauma, o repórter de esportes do Uol, Bruno Freitas, debruçou-se especialmente sobre a história de Barbosa, o goleiro brasileiro que carregou por 50 anos a cruz de ser o responsável pela derrota do Brasil, no livro-reportagem “Queimando as traves”, lançado no início de dezembro.
À IMPRENSA, ele conta como foi o processo de revisitar esta história e seus principais personagens, bem como o que seu livro tem de diferente da primeira biografia de Barbosa, produzida por Roberto Muylaert.
Crédito:Arquivo pessoal Bruno Freitas ao lado de Alcides Ghiggia, carrasco do Brasil
MPRENSA - Como surgiu a ideia de revisitar um personagem dos anos 50, o goleiro Barbosa, da seleção brasileira?
BRUNO FREITAS - Vou viver intensamente o ano de 2014 na cobertura da Copa. Há dois anos, senti a necessidade de revisitar este episódio de 1950 — derrota da seleção na final em pleno Maracanã —, primeiro Mundial de Futebol no Brasil. Tenho 35 anos e conhecia superficialmente o tema e vi na história do Barbosa — goleiro da seleção naquela época —uma oportunidade perfeita. Acho importante tocar neste tema às vésperas da Copa, até para entender o nosso futebol.
Barbosa é um personagem biografado. O que tem de diferente no seu livro? Eu tinha duas propostas básicas: uma era mostrar uma Barbosa que vai além do lugar comum do que se conhece dele, ou seja, a imagem consagrada do goleiro da Copa de 50, mas mostrar um jogador que quase foi revolucionário para a época e que foi o melhor goleiro brasileiro dos anos 40 e início dos 50.
Fora isso, queria mostrar com detalhes o que foi essa cruz que ele carregou por 50 anos até sua morte, em 2000. O livro anterior, do jornalista Roberto Muylaert, é muito bom, mas é uma conversa entre os dois. Tentei sair por outros caminhos. Fui para o Uruguai, conversei com o Ghiggia — autor do gol que garantiu o título à Celeste— e tentei entender o lado de lá do Marcanazzo. Tentei falar um pouquinho sobre como este fato impactou, pois há muitos livros, um curta-metragem sobre o Barbosa. Eu queria entender por que esses jornalistas se sentiram tão tocado por este tema. Crédito:Divulgação Obra analisa trauma do goleiro Barbosa
Após percorrer este caminho, o que a obra traz de novidade sobre o personagem?
Acho que há algumas variáveis. A primeira é uma variável racial, um tema bastante polêmico. Três jogadores ficaram bastante marcados pela derrota de 50: além do Barbosa, Bigode e Juvenal, e os três eram negros. É uma cultura brasileira de personificação ao tentar entender episódios focando em uma pessoa só. No subconsciente daquela geração, a questão racial acabou pesando bastante. Por coincidência, os três estão envolvidos no lance que decidiu a Copa do Mundo e depois daquele mundial nasceu a lenda de que goleiro negro não era tão capaz quanto um branco, uma coisa que acabou se perpetuando nas décadas seguintes. Só a partir do Dida que conseguimos desconstruir essa tese absurda.
Quanto tempo dedicou a esse trabalho?
Foi um desafio. Esse estalo de revisitar esta Copa surgiu em 2011 e é o tipo de trabalho que mereceria dez anos ou mais de dedicação, mas acho que era muito importante conseguir publicar antes da Copa de 2014, porque é um debate interesse para nós que vamos receber o mundo pela segunda vez.
Você que fez uma análise profunda disso, sabe que a mídia estará de olho na seleção. Acha que se o Brasil perder a Copa novamente em casa serão criados outros vilões?
Acho possível, mas não nas dimensões de 1950. Primeiro, porque não tínhamos sido campeões do mundo ainda. Em segundo lugar, porque o Brasil era um país totalmente ignorado no cenário internacional em todos os campos e, de repente, conseguiu construir o maior estádio do mundo, chegar na final com a vantagem do empate e perder e com 200 mil pessoas na plateia. São circunstâncias que não se igualam nunca mais. Acredito que é uma característica brasileira: se viermos a fracassar na Copa, serão criados novos bodes expiatórios.
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