Em livro de memórias, jornalista reflete sobre a atuação da guerrilha urbana no Brasil
Filho da geração de 68 e um dos mais ativos militantes da luta armada contra a ditadura no Brasil, o jornalista Cid Benjamin carimbou suas lembranças e reflexões sobre a atuação dos movimentos de esquerda no país e a resistência ao regime militar nas paginas de “Gracias a la vida – memórias de um militante”, lançado no ultimo dia 22 de outubro, no Rio de Janeiro (RJ).
Um dos idealizadores do sequestro do embaixador americano, Charles Burke Elbrick, em 1969, e dirigente do Movimento Revolucionário Oito de Outubro (MR-8), o ex-guerrilheiro revela os detalhes sobre o que passou na prisão, os momentos de tortura e clandestinidade.
Após longo exílio em Cuba, retornou ao Brasil em setembro de 1979 para ser um dos fundadores e dirigentes do PT, partido do qual se afastou para se filiar ao PSOL. Na obra, o jornalista relembra as marcas deixadas pelos anos de chumbo, que até hoje são objeto de interesse da sociedade brasileira.
IMPRENSA: Quando decidiu contar sua participação na luta armada em um livro?
CID BENJAMIN: Resolvi sentar e começar a escrever há mais ou menos um ano. A razão principal de ter começado naquele momento e não antes foi porque queria refletir sobre algumas questões, decantar certas experiências e, então, só me senti pronto para começar a redigir nesse momento.
Quais os principais momentos que resolveu abordar no livro? Como selecionou essas memórias?
Na verdade, não é apenas um livro político, mas um relato da minha experiência política com reflexões sobre a época e reflexões sobre o plano pessoal, sobre a vida em geral. É uma mescla disso tudo. Inicio o livro no momento em que passei a viver na clandestinidade.
Como foi seu exílio?
Foram quase dez anos de exílio. Saí em junho de 1970 e voltei em setembro de 1979. Estava preso fui trocado juntamente com 39 presos pelo embaixador alemão. Fui para Argélia. Depois, viajei para Cuba com a intenção de voltar clandestinamente ao Brasil.
Estava num processo de retorno, já no Chile, quando uma série de mortes e prisões no interior do país inviabilizaram minha volta. Após o episódio, houve um golpe no Chile e tive que fugir, porque minha casa foi invadida por militares daquele país. Aí começa o segundo período do exílio, a partir do fim de 1973 e início de 1974, momento em que não estava mais voltado para o retorno clandestino, como na primeira parte. Estive em Cuba, passei pelo México e, o período final, foi na Suécia, local de onde eu voltei em setembro de 1979, com a anistia.
A escolha do embaixador americano foi mesmo uma casualidade? Por que a opção pelo sequestro?
Causalidade nem tanto. Na verdade, estávamos eu e Franklin Martins numa rua de Botafogo, no Rio de Janeiro, quando passou o embaixador americano e percebemos que ele estava vulnerável. Já havia uma preocupação nossa em libertar presos, pois alguns ainda eram torturados e estavam num processo de julgamento na Justiça Militar, que era absolutamente subordinada aos órgãos de repressão.
Nós tínhamos a preocupação de não abandonar esse pessoal. Surgiu então a ideia de prender o embaixador e trocar pelos nossos presos. Deu certo. Libertamos 15 presos e ainda conseguimos que militares lessem ou ordenassem que fosse lido nos jornais um manifesto que denunciava a ditadura e fazia propaganda da luta armada.
Que contribuição podemos esperar da Comissão Nacional da Verdade?
A Comissão tem um papel muito grande porque é preciso que o país conheça o que aconteceu no período da ditadura. Para isso, as Comissões da Verdade, tanto a nacional, como as estaduais são importantes. Deve-se investigar e trazer à tona acontecimentos que estavam debaixo do tapete.
Há muita coisa ainda para desvendar e uma coisa essencial, que não se conseguiu ainda, é a abertura dos arquivos das Forças Armadas, porque foi a linha de frente do combate. Nesses arquivos estão as informações mais importantes, mas eles se recusam [a abrir], pois alegam que teriam sido destruídos. No entanto, para destruir arquivos públicos leva um tempo. Então, a Comissão tem um papel importante não para remexer o que estava lá atrás e ficar revivendo o passado, mas para conhecer o passado e iluminar o futuro para consolidar a democracia no país, criando condições para que não se repita aquela barbárie do período da ditadura.
Como avalia a imprensa daquela época e a imprensa atual?
A imprensa é majoritariamente conservadora. Tanto naquela época, como agora. Mas, naquela época, havia um estado militar em que muitos momentos a imprensa estava censurada. Agora isso não existe, há muito mais liberdade de imprensa hoje.
Para você, como foi a cobertura nas manifestações de junho de 2013?
Acho que a atuação da imprensa nas manifestações não foi boa. Os jornais acabaram dando um destaque aos atos de violência e quebra-quebra, fazendo deles o centro da questão num momento em que se falava pouco da manifestação, das reivindicações. Então, uma imprensa que só fica procurando aspectos negativos, acaba contribuindo para isso. Não é por acaso que a ação de alguns mascarados se confunde com a ação de alguns policiais infiltrados. A atuação não foi equilibrada, mas acho também que outros setores também acabaram dando munição para que a imprensa se comportasse assim, como a violência após os protestos.
* Com supervisão de Vanessa Gonçalves
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