Em formato live, Midia.JOR 2020 debate jornalismo na era do compartilhamento digital

Foi realizado nesta quinta (27), pela Revista e Portal IMPRENSA em parceria com a TV Cultura, o Mídia.JOR 2020 Live. Transmitida em formato

Atualizado em 27/08/2020 às 19:08, por Leandro Haberli.

Em formato live, Mídia.JOR 2020 debate jornalismo na era do compartilhamento digital

digital on-demand, a conversa teve como tema “O dono do conteúdo na era do jornalismo compartilhado”.
O encontro destacou o relacionamento muitas vezes crítico entre empresas de comunicação e plataformas digitais, a questão dos direitos autorais no ramo jornalístico, as responsabilidades legais de veículos de imprensa e plataformas de internet em meio à crise de desinformação, além de estratégias de negócio e incentivo a empresas jornalísticas na era digital.
Gravado nos estúdios da TV Cultura e disponível nos canais do YouTube da emissora e do Portal IMPRENSA, o debate foi mediado por dois media watchers de peso: Leão Serva, diretor de jornalismo da TV Cultura , e Lúcio Mesquita, jornalista brasileiro que mora na Inglaterra há mais de 25 anos, teve cargos de direção na BBC e hoje atua na Innovation Media, consultoria internacional especializada em empresas de comunicação.
Entre os debatedores, participaram Melissa Vogel (CEO da Kantar IBOPE Media Brasil), Paula Miraglia (cofundadora e diretora geral do NEXO), Taís Gasparian (advogada especializada em mídia e imprensa) e Marco Túlio Pires (coordenador do Google News Lab no Brasil). Erick Brêtas (diretor de produtos e serviços digitais do Grupo Globo) participou via vídeo-conferência. O evento também contou com um depoimento por vídeo de , presidente e CEO do New York Times.
Leão Serva abriu a conversa lembrando que a crise do jornalismo tem sido atribuída a plataformas digitais. Ele também destacou a existência da Google News Initiative, que visa fomentar ambientes de negócios para jornalistas independentes e empresas da mídia tradicional. Crédito:Reprodução
Em sua fala inicial direto da Inglaterra, Lúcio Mesquita, também curador do evento, lembrou que, realizada dessa forma em função da pandemia, a versão traz a vantagem de ficar disponível na internet e de encurtar distâncias. Mesquita também afirmou que a escolha do tema do evento não foi acidental. "Foi feita em conjunto com o Sinval", disse o media watcher em relação ao diretor do Portal e Revista IMPRENSA, Sinval de Itacarambi Leão.
Paula Miraglia, do NEXO, disse que a aposta do jornal no modelo de assinatura, sem publicidade, tem dado certo. "Começar do zero apostando na publicidade não ia dar certo, pois requer audiência muito grande. Não estamos interessados no breaking news, o foco é um jornalismo de explicação, de contexto. Nosso conteúdo tem vida muito longa. Não dependemos do click. A notícia que não tem valor em 5 minutos não nos interessa. Nossa ideia é organizar o noticiário. Contextualizar. Estamos indo muito bem", completou, lembrando que recentemente o Nexo lançou a revista Gama, projeto que tem publicidade.
Melissa Vogel, da Kantar IBOPE Media Brasil, falou sobre o momento de transformação digital e a preparação das empresas de comunicação para atender o consumidor de conteúdo jornalístico. Ela também abordou o ganho de relevância do jornalismo com a pandemia, fenômeno que aparece em números como o aumento de 300% das conversas sobre jornalismo nas mídias sociais. "Passou a ser o assunto mais comentado", disse Melissa, acrescentando que, antes da pandemia, 50% dos consumidores de conteúdo jornalístico checavam a fonte antes de compartilhar. Com a pandemia o número subiu para 60%. Em relação ao tema da conversa, ela disse que o dono do conteúdo é o consumidor. "Ele faz curadoria do conteúdo, tendo muito mais voz. Ele define como e pelo que ele vai ser impactado. Ele é o propulsor do conteúdo. Estamos vivendo uma era do jornalismo compartilhado", resumiu.
Advogada especializada em imprensa e internet, Taís Gasparian lembrou que o Brasil nunca discutiu seriamente o tema liberdade de expressão e que, ao mesmo tempo que o jornalismo se amplifica, em várias plataformas e linguagens, ele sofre uma onda de ataques sem precedentes. A advogada observou que a liberdade de imprensa dá lastro ao Estado de Direito e à democracia e falou a respeito do Marco Civil da Internet, que "protege a internet e os cidadãos no uso da internet". "Ele não protege a imprensa", disse a especialista, acrescentando que o Marco Civil da Internet torna as empresas e plataformas responsáveis pelo conteúdo que produzem, mas não pelo conteúdo produzido por terceiros.
À frente da plataforma GloboPlay, Erick Brêtas lembrou que alguns programas têm alcançado expressiva audiência nos canais digitais da Globo. Foi o caso da Live do Caetano Veloso, vista por mais de 700 mil pessoas. "Mas as novelas e o JN são muito vistos na TV", ressalvou.

Brêtas lembrou que a Globoplay é "prioritariamente uma plataforma de entretenimento". "Mas nas seis primeiras posições desse ano, três são documentários jornalísticos: Em nome de Deus (sobre João de Deus), Sandy e Júnior e Marielle. "Há um interessante muito grande por histórias da vida real. A série documental está passando por uma era de ouro. Hoje, em vez de fazer um documentário para o cinema, a ambição do documentarista é fazer uma série documental", comparou o diretor da Globo, que se assumiu fã do jornal Nexo.
Marco Túlio Pires, do Google News Lab no Brasil, lembrou que a Google News Initiative foi lançada em 2018 e, desde então, já distribuiu 300 milhões de dólares a projetos jornalísticos. "Só no Brasil foram investidos 20 milhões de dólares", informou. "Sabemos que as redações têm um desafio enorme em tentar entender as novas tecnologias e realizar a transição. Nossa ideia é ajudar nesse sentido", resumiu.
Jornalista com passagens por Veja e Globo, o profissional do Google citou como exemplo de plataforma jornalística beneficiada pela GNI no Brasil o Radar aos Fatos, "espécie de painel de controle para avaliar tendências de conteúdos". Pires também destacou que o conteúdo enganoso e fraudulento é uma grande preocupação e que o projeto Comprova, que reúne diferentes veículos de imprensa no combate à desinformação, é apoiado pela GNI.
Para Pires, as iniciativas mais promissoras para combater fake news e bem-sucedidas em aumentar o fluxo de informação de qualidade "inverteram a lógica" e deixaram de focar em cliques para construir relacionamentos com seu público. " As empresas precisam olhar com mais carinho para a experiência do usuário. "É preciso incorporar a filosofia de entendimento da experiência do usuário", reforçou.