Em Cuba, ter blog é uma necessidade, diz jornalista expulso de rádio oficial
Em Cuba, ter blog é uma necessidade, diz jornalista expulso de rádio oficial
Atualizado em 25/10/2010 às 15:10, por
Luiz Gustavo Pacete/ Redação Revista IMPRENSA e de Havana (Cuba).
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O cubano Ernesto Morales Licea nem bem começou sua carreira como jornalista e já teve que criar formas alternativas para poder atuar na profissão. O jovem de 26 anos formou-se na Universidade de Oriente, em Santiago de Cuba, em 2008. Assim que finalizou o curso passou a fazer parte da equipe de redação da emissora de rádio Radial, veículo oficial do país. Morales atuou como repórter especializado em cultura até abril de 2010 quando foi expulso do veículo por não ter opiniões compatíveis à linha editorial oficial. IMPRENSA encontrou Morales em Cuba e o jornalista explicou o que aconteceu.
"Fui expulso da entidade e entendo as razões. Para mim que sou jornalista de profissão é muito complicado não ter encontrado na imprensa oficial um espaço para fazer valer meus critérios e ser condenado por minhas visões distantes da linha oficial", reclama.
No país 90% dos meios de comunicação são oficiais e ligados ao Partido Comunista de Cuba (PCC). Entre os mais conhecidos estão os jornais Granma, Juventude Rebelde, a emissora de rádio Rebelde e a Agência de Notícias de Cuba. A cada os casos de jornalistas e acadêmicos que, por discordarem com as linhas editorias dos veículos oficiais, são expulsos ou decidem sair e passam a utilizar blogs como veículo independente aumentam.
Foi o que fez Morales. Após a expulsão o jornalista criou o blog "El Pequeño Hermano" um trocadilho com o reality show "Big Brother". Morales utiliza a plataforma como forma de expressar sua opinião e também publicar trabalhos jornalísticos. Atualmente com a família vivendo em Miami, o jornalista afirma que dentro de algum tempo pode ir para o país norte-americano. "Ainda vivo em Cuba, mas entre meus planos está a possibilidade de ir viver junto de minha mãe e meu irmão". Morales destaca a atual função do blog e o motivo da criação. "Ter um blog em meu caso e na maioria dos que possuem em Cuba, mais do que uma oportunidade é uma necessidade".
Entre os inúmeros artigos publicados por Morales, destaca-se a série recente intitulada de "A orfandade jornalística" em que ele destaca os problemas enfrentados pelos jornalistas para exercerem livremente seus ofícios em Cuba. Em um dos textos ele descreve como é difícil para quem não pertence aos veículos oficiais participar dos eventos do governo. "É muito complicado cobrir qualquer acontecimento em Cuba não sendo um jornalista oficial. Alguém que não esteja vinculado a União dos Jornalistas de Cuba não pode assistir o Congresso, por exemplo", explica. Ele destaca que o que ocorre no país não é o exercício de um jornalismo como é feito fora da ilha. "Se alguém me perguntasse qual é a principal deficiência do jornalismo cubano de hoje, creio que poderia resumir sem titubear: não se identifica com os cubanos". Além do blog Ernesto faz participações constantes na rádio independente Marti transmitida de Miami.
O governo, por sua vez, afirma que há espaço para divulgação de outras ideias. Fidel Castro ressaltou em entrevista ao jornalista espanhol Ignacio Ramonet em 2006, que existe sim espaço para pensamentos contrários em Cuba, mas desde que não prejudique os ideais da revolução. "Claro que ela [a imprensa] deve ser extremamente responsável na hora de manusear os temas. Muitos falam que não existem meios livres em Cuba, mas o que são esses meios 'livres', quem fala? Do que se fala? Quem escreve? Fala-se o que querem os donos dos jornais ou das emissoras de televisão e escrevem o que decidem. Fala-se muito em liberdade de expressão, mas na realidade o que se defende fundamentalmente é o direito de propriedade privada nos meios de divulgação massiva", destaca o ex-chefe de Estado. A blogosfera na ilha Quando se fala em blogosfera em Cuba um dos primeiros nomes a ser lembrado é o da filólogaYoani Sánchez, colunista da revista IMPRENSA. A blogueira tornou-se evidência principalmente fora de Cuba após ter criado em 2007 o blog "Generación Y" que já conquistou inúmeros prêmios e chegou a atingir 14 milhões de acessos. Entretanto, Yoani não foi a única, tampouco a pioneira na popularização da blogosfera cubana. Apesar de sua popularidade ter contribuído para fortalecer o uso da plataforma os blogs continuam sendo a principal ferramenta digital em que muitos cubanos de jornalistas a donas de casa utilizam para expressar livremente suas opiniões.
Morales engrossa as estatísticas do fenômeno dos blogs que há algum tempo desafia os censores governamentais. "Mesmo sem ter líderes ou organização estabelecida, é um novo desafio para os mecanismos de censura governamental". Os blogueiros cubanos inclusive já organizaram o concurso "Una isla virtual" feito pela revista Convivência e o portal Desde Cuba com o objetivo de promover a blogosfera no país. Por mais que internacionalmente os blogueiros acabem conquistando maior evidência, a internet em Cuba ainda é difícil e cara e muitos ativistas cubanos afirmam que a oposição cubana não está representada somente na internet, mas existem inúmeras outras pessoas que não possuem blog, mas estão pelo país sendo perseguidos e animando os cidadãos.
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| Luiz Gustavo Pacet e |
| Ernesto Morales Licea |
"Fui expulso da entidade e entendo as razões. Para mim que sou jornalista de profissão é muito complicado não ter encontrado na imprensa oficial um espaço para fazer valer meus critérios e ser condenado por minhas visões distantes da linha oficial", reclama.
No país 90% dos meios de comunicação são oficiais e ligados ao Partido Comunista de Cuba (PCC). Entre os mais conhecidos estão os jornais Granma, Juventude Rebelde, a emissora de rádio Rebelde e a Agência de Notícias de Cuba. A cada os casos de jornalistas e acadêmicos que, por discordarem com as linhas editorias dos veículos oficiais, são expulsos ou decidem sair e passam a utilizar blogs como veículo independente aumentam.
Foi o que fez Morales. Após a expulsão o jornalista criou o blog "El Pequeño Hermano" um trocadilho com o reality show "Big Brother". Morales utiliza a plataforma como forma de expressar sua opinião e também publicar trabalhos jornalísticos. Atualmente com a família vivendo em Miami, o jornalista afirma que dentro de algum tempo pode ir para o país norte-americano. "Ainda vivo em Cuba, mas entre meus planos está a possibilidade de ir viver junto de minha mãe e meu irmão". Morales destaca a atual função do blog e o motivo da criação. "Ter um blog em meu caso e na maioria dos que possuem em Cuba, mais do que uma oportunidade é uma necessidade".
Entre os inúmeros artigos publicados por Morales, destaca-se a série recente intitulada de "A orfandade jornalística" em que ele destaca os problemas enfrentados pelos jornalistas para exercerem livremente seus ofícios em Cuba. Em um dos textos ele descreve como é difícil para quem não pertence aos veículos oficiais participar dos eventos do governo. "É muito complicado cobrir qualquer acontecimento em Cuba não sendo um jornalista oficial. Alguém que não esteja vinculado a União dos Jornalistas de Cuba não pode assistir o Congresso, por exemplo", explica. Ele destaca que o que ocorre no país não é o exercício de um jornalismo como é feito fora da ilha. "Se alguém me perguntasse qual é a principal deficiência do jornalismo cubano de hoje, creio que poderia resumir sem titubear: não se identifica com os cubanos". Além do blog Ernesto faz participações constantes na rádio independente Marti transmitida de Miami.
O governo, por sua vez, afirma que há espaço para divulgação de outras ideias. Fidel Castro ressaltou em entrevista ao jornalista espanhol Ignacio Ramonet em 2006, que existe sim espaço para pensamentos contrários em Cuba, mas desde que não prejudique os ideais da revolução. "Claro que ela [a imprensa] deve ser extremamente responsável na hora de manusear os temas. Muitos falam que não existem meios livres em Cuba, mas o que são esses meios 'livres', quem fala? Do que se fala? Quem escreve? Fala-se o que querem os donos dos jornais ou das emissoras de televisão e escrevem o que decidem. Fala-se muito em liberdade de expressão, mas na realidade o que se defende fundamentalmente é o direito de propriedade privada nos meios de divulgação massiva", destaca o ex-chefe de Estado. A blogosfera na ilha Quando se fala em blogosfera em Cuba um dos primeiros nomes a ser lembrado é o da filólogaYoani Sánchez, colunista da revista IMPRENSA. A blogueira tornou-se evidência principalmente fora de Cuba após ter criado em 2007 o blog "Generación Y" que já conquistou inúmeros prêmios e chegou a atingir 14 milhões de acessos. Entretanto, Yoani não foi a única, tampouco a pioneira na popularização da blogosfera cubana. Apesar de sua popularidade ter contribuído para fortalecer o uso da plataforma os blogs continuam sendo a principal ferramenta digital em que muitos cubanos de jornalistas a donas de casa utilizam para expressar livremente suas opiniões.
Morales engrossa as estatísticas do fenômeno dos blogs que há algum tempo desafia os censores governamentais. "Mesmo sem ter líderes ou organização estabelecida, é um novo desafio para os mecanismos de censura governamental". Os blogueiros cubanos inclusive já organizaram o concurso "Una isla virtual" feito pela revista Convivência e o portal Desde Cuba com o objetivo de promover a blogosfera no país. Por mais que internacionalmente os blogueiros acabem conquistando maior evidência, a internet em Cuba ainda é difícil e cara e muitos ativistas cubanos afirmam que a oposição cubana não está representada somente na internet, mas existem inúmeras outras pessoas que não possuem blog, mas estão pelo país sendo perseguidos e animando os cidadãos.
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