Em crise, jornalismo para jovens se reinventa para continuar existindo

“Ah, na minha época não tinha nada disso, era diferente, muito melhor”. Se você não escuta mais frases como esta é porque, provavelmente, você quem diz isso para os adolescentes que o cercam.

Atualizado em 23/08/2013 às 16:08, por Camilla Demario.

O perfil do jovem no século XXI mudou. E a revolução que influencia a geração atual não aconteceu nas ruas: foi instalada em domicílios do mundo inteiro conectando via internet milhões a juventude. O acesso à informação nunca foi tão grande, assim como o número de jovens alfabetizados.

Ou seja, o “paraíso” para o jornalismo segmentado, exclusivo para faixa etária entre 12 e 20 anos, certo? Errado. Em agosto de 2013 duas grandes referências do jornalismo para adolescentes no Brasil foram interrompidas: "Folhateen", suplemento semanal da Folha de S.Paulo , e MTV, emissora do grupo Abril. O fim desses veículos retoma a discussão se é mesmo necessário pensar em canais com foco exclusivo neste público.


Crédito:Divulgação Mônica Figueiredo e André Forastieri
Mônica Figueiredo, diretora da revista Pais & Filhos , começou sua carreira jornalística como editora da extinta Pop , uma revista da Abril para jovens. “Imagina como a Abril era moderna, eu era editora com 18 anos, ainda não tinha feito faculdade!”, conta. Hoje ela segue acreditando na segmentação do jornalismo. “Apesar de milhares de blogs, tumblrs, os jovens querem autoridade, alguém que se posicione. O adolescente prefere discutir com você do que achar que você é neutro, imparcial”, diz.

Vicente Varela, diretor de mídia da agência Fisher & Friends, acredita que cadernos customizados chegaram ao fim. “Já morreu, não tem mais espaço para isso em veículos, os adolescentes nem assistem mais televisão, ainda mais com o Netflix. Estamos com um cliente na agência que vende bebida para jovens entre 18 e 24 anos e para conseguir atingir esse público a gente está tendo que anunciar em sites de torrents. Hoje é preciso ir buscar na trincheira”, diz.

“Antes o adolescente não era o shopping, ele estava no shopping. Hoje ele não é a internet, ele está na internet. É uma fase riquíssima, linda, delicada, tem que ter muito cuidado e carinho”, diz Mônica. Sobre as expectativas para o futuro, a jornalista acredita que é preciso voltar a focar em comportamento. “Claro que o mercado está difícil, mas sobrevive quem focar muito. O problema é quando quer competir com celebridade, beleza, moda. Se for generalista, ferrou”.

Para André Forastieri, blogueiro do R7, dono de uma agência de conteúdo para jovens e um dos criadores da "Folhateen", não existe “o jovem”, mas "necessidades e perfis diversos". "Sem dúvida, muito mais que antigamente, seja no YouTube, revista segmentada, TVs pagas, sites, blogs e até em jornais, o jovem acaba lendo se [o conteúdo] tiver sido compartilhado nas redes sociais. O jovem de hoje é muito melhor informado que o de vinte anos atrás”, diz.

Forastieri faz um palpite para o futuro: “Investigação vai existir, entrevista vai existir, foto e vídeo vão continuar sendo importantes, opinião terá algum apelo e, principalmente, os serviços de alto valor agregado serão chave – tudo que adiciona valor terá razão de continuar existindo. Tirando isso, será tudo completamente diferente. Não é nem que não haverá nada impresso, não haverá mais nenhum tipo de jornalismo de massa, que fale ao mesmo tempo com mais de 2 ou 3% do público... será tudo hipercustomizado. Felizmente terei 68 anos em 2033 e estarei longe do jornalismo há séculos", revela.

A palavra-chave para o futuro é conteúdo, segundo Varela. “É preciso produzir conteúdo e, com muita sorte, estar apoiado por um grande veículo. A Coca-Cola, por exemplo, está fazendo uma webserie em parceria com a produtora MC Barreto em que a marca é coadjuvante. O jovem hoje não quer ser específico a nada, mas a tudo”.