Em ato contra a mídia "golpista", contestar militância é ser "alto-falante de factoides"

Em ato contra a mídia "golpista", contestar militância é ser "alto-falante de factoides"

Atualizado em 24/09/2010 às 15:09, por Eduardo Neco/Redação Portal IMPRENSA.

Por Se na divulgação oficial faltou dar nomes aos bois, o estandarte erguido acima das cabeças no auditório indicava o alvo do ranço dos presentes: " Folha Mente", dizia a faixa que dava o tom ao "Ato contra o golpismo midiático", organizado por representações sindicais e apoiado por PT, PC do B, PDT e PSB, na noite da última quinta-feira (23), em São Paulo (SP).
Cerca de quatrocentas pessoas - número expressivamente maior que o esperado pela organização - atravancaram todos os corredores e lotaram o auditório do Sindicato dos Jornalistas Profissionais do Estado de São Paulo (SJSP).
A concentração sufocante de militantes excitados pela reunião contra o "golpismo" fez sua primeira vítima após meia hora. Um esbaforido senhor galgou, à cotoveladas, xingamentos e olhares de reprovação, um caminho para fora do tumulto da sala. Depois de vinte minutos de calvário e tensão, o homem chega ao corredor, enxuga o rosto com a camisa, deixando à mostra porção generosa de sua barriga, e resmunga: "Isso aqui tá uma baderna".
O aglomerado parecia intransponível; ninguém entrava e ninguém saía. Fato solenemente ignorado pelos assessores da deputada Luiza Erundina (PSB), que, atrasada, buscava um lugar ao palco. "Deixem a deputada passar; abram caminho para a deputada; a deputada Luiza vai passar", repetia o staff da política. Quando a ladainha perdeu eficiência - já que Erundina foi encurralada por um mar de suados militantes - o messianismo foi combustível de retórica. "Deixa a deputada passar, rapaz, porque, quando ela passa, os caminhos se abrem e a gente vai poder ir junto", profetizou uma de suas assessoras.
Ao chegar ao palanque, Erundina não perdeu tempo. Exaltou-se ao acusar - sem citar nomes - a mídia "golpista" que, segundo ela, milita contra os preceitos democráticos, e vociferou que os ataques fazem parte da estratégia tucana de levar o "convalescido" José Serra ao segundo turno.
Reprodução
Panfleto distribuído no evento

O presidente do sindicato, Guto Camargo, que na véspera afirmou, por meio do site da entidade, que a representação sindical apenas concedera espaço físico - não apoio ideológico - ao debate, permaneceu no palanque todo o ato e, ao final do encontro, foi congratulado pelos palestrantes por sua coragem em se opor ao monopólio "tacanho" e "conservadorista" da mídia "golpista".
"Josiane Tucanhêde"
Quem passou incólume no início do debate e não foi presenteado com panfletos e informativos, não escapou à barricada de militantes que distribuíam papéis sem deixar que uma viva alma sequer ficasse sem.
Entre o material, chamou atenção um que anunciava um blog criado com intenção de parodiar a Folha de S.Paulo . Por alquimia dos programas de edição de imagem, sobrou para a jornalista Eliane Cantanhêde, da Folha , que foi ilustrada com um chicote nas mãos, bustiê provocativo e rebatizada de "Josiane Tucanhêde".
O anúncio convidava à acessar a página " ", cujo objetivo é conceder aos internautas a oportunidade de reeditar as informações publicadas pela Folha . "Crie suas próprias manchetes; comentários diários sobre o jornal; eleição do jornalista da Folha mais tucano;" explicava o panfleto, que promovia, ainda, o sorteio de uma assinatura da revista CartaCapital aos que seguissem o perfil da "Falha" no .
"Alto-falante de factoides"
À boca pequena, os militantes espalhados pelo hall do prédio que abriga a sede do SJSP, no geral, não responderam à reportagem do Portal IMPRENSA se as denúncias expostas pela revista Veja , e suitadas pela Folha e por outros veículos, contra Erenice Guerra e seu filho, Israel, eram legítimas.
Rememoravam a denúncia da revista CartaCapital , em 2001, sobre a suposta quebra de sigilo bancário promovida por uma empresa que tinha participação da filha do presidenciável José Serra e acusaram a reportagem de IMPRENSA de "alienação" elitista e "cegueira política" ao expor tais indagações. "Você é um alto-falante de factoides, rapaz", condenou um garoto, de passagem, enquanto IMPRENSA pedia a opinião de um grupo de militantes.
Ao ser abordado pela reportagem, o garoto não quis explicar a afirmação e berrou insultos contra a "tucanagem".

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