Eles só pensam naquilo...

“A caneta cai no chão. Rapidamente ele, um jornalista acostumado a virar noites na redação, abaixa-se para pegar seu instrumento de trabalho

Atualizado em 06/09/2013 às 18:09, por Camilla Demario e Guilherme Sardas.

IMPRENSA foi atrás dos jornalistas que cobrem (e descobrem) a indústria erótica no Brasil e mostra histórias curiosas de uma editoria repleta de “fantasias”

quando vê longas pernas vindo em sua direção. Disfarçando o interesse, desviando os olhos do decote, recebe sua entrevistada com a naturalidade que consegue reunir, mas tarde demais: ela, capa da última edição da Playboy, já está sentada no seu colo, e aparentemente sem calcinha...”.
Apesar de ser um trecho de um conto erótico inventado, é assim que milhares de leitores imaginam a rotina de redatores, assessores e repórteres de web e TV que trabalham com sexo: como um roteiro barato de filme pornô. Ok, a realidade pode não ser tão fogosa como na imaginação dos contistas eróticos, mas pelo menos é bem mais divertida.
Crédito:Reprodução No dia do sexo, IMPRENSA relembra matéria sobre jornalista que cobrem a editoria
GOZO PROFISSIONAL
Mariana Blac não revela seu verdadeiro sobrenome e não quer ser famosa, mas confessa que adorou ser entrevistada por Xico Sá durante 1ª Mostra Internacional de Bonecas Infláveis. Aos 27 anos, a jornalista – formada na Universidade Federal de Juiz de Fora – venceu sete mil concorrentes para a vaga de “testadora de produtos eróticos” e desde outubro escreve resenhas para o site Sexônico. “Mandei meu currículo de brincadeira, mas escolheram porque queriam um texto bem jornalístico”, conta.

No conforto da sua casa, Mariana transformou a apuração em experimentos. “A calcinha comestível, por exemplo, eu testei quatro vezes. A primeira foi horrível, mas depois foi ficando gostoso. E testo várias vezes, porque, para falar mal, preciso ter certeza. Mas tenho liberdade total para críticas, mesmo que seja um sucesso de vendas do site”, conta. A mesma liberdade também tinha Sérgio Martorelli, repórter de sexo desde os 16 anos, quando criava enredos para matérias eróticas importadas da Suécia. “Ninguém falava sueco, então eu inventava uma tradução livre daquilo”, conta.

Com mais três repórteres, chegava a colocar 16 revistas por mês nas bancas. “Cada um dos quatro repórteres tinha uns quatro codinomes para dar a impressão que tinha muita gente trabalhando lá. Cheguei a dirigir dois filmes do gênero usando o nome de uma atriz pornô amiga minha, para dar uma força a ela. Mas nem coloco no meu currículo que cobria sexo, porque existe preconceito”, diz.

Já na redação da G Magazine, o clima é de descontração e profissionalismo. “Sempre existe uma piadinha do tipo ‘deixa eu passar óleo nos modelos’. Quando entrei na G, de umas 20 pessoas, apenas 5 eram gays. A ilha de edição era toda hétero e era engraçado ver eles ‘se zuando’ enquanto mexiam nos vídeos”, conta Marcell Filgueiras, editor-chefe da revista.

TELA QUENTE Julieta Jacob formou-se em Jornalismo em Brasília (DF) e começou sua carreira como repórter da TV Brasília. Passou pela TV Cultura em Recife e pouco tempo depois chegou à Globo Nordeste. Sonho de milhares de jornalistas, ela deixou para trás sua fama global para estudar o que realmente queria: sexo. “A minha avó dizia: ‘A minha neta saiu da Globo e hoje escreve putaria!’ (risos).” Seu blog, “Eros Dita”, é fruto de pesquisas que envolveram cursos sobre sexualidade até no Canadá. “O curso faz uma faxina nos seus conceitos – e o jornalista tem de se despir de muitos preconceitos”, diz.

Coordenadora de programação do canal adulto Sex Hot, Marcela Leone conta que o preconceito, no seu caso, vem dos outros. Mais especificamente dos pretendentes. “Quando conheço alguém, às vezes não falo o que eu faço (risos). Já rolou de o cara estar conversando comigo e, quando descobre que eu trabalho com isso, começa a mudar o tom”, diverte-se. À frente do cargo desde 2007, Marcela jura que seu trabalho é como outro qualquer. “A gente não vê pornô o dia inteiro. Nosso trabalho é com planilhas, fazendo textos. Quem vê de fora acha que é pegar um filme qualquer e colocar no ar: pelo contrário, temos critérios bem rígidos de qualidade”, diz.

Colega de emissora, a ex-BBB Bianca Jahara atualmente é repórter do programa “Penetra”, também do Sex Hot. “Participo ativamente da elaboração de pautas. Achei muito curioso presenciar um casamento realizado em uma casa de swing e adorei também fazer matéria sobre o Shibari, fetiche baseado em uma técnica japonesa de amarração. Quando soube que ia cobrir essa matéria, me ofereci para atuar como modelo também”, conta.

Quem também não se intimida com sexo explícito é Anderson Azevedo, criador do Papo Mix, uma web TV voltada para o público gay masculino. Certa vez, ele foi cobrir um show em que o grand finale envolvia a ejaculação do ator ativo. Antes de ligar a câmera, o ator explica que não pode parar de se masturbar até subir no palco. “O tempo todo ele ficou ali se mexendo (risos), mas sou profissional, sempre penso que minha mãe vai assistir ao programa”, diz.
ASSESSORIA ATIVA
Se a vida de um assessor de imprensa, digamos, de áreas mais convencionais, já não é fácil, no mercado erótico a demanda é por profissionais com “P” maiúsculo – aqui, sem trocadilhos. Jornalista graduada na Metodista de São Paulo, Miriam Matos fundou em 2006 a Notícia Expressa, agência especializada no segmento erótico. Possui cinco clientes do setor e diz dominar alguns caminhos das pedras, algo indispensável para um segmento tão acostumado às negativas da imprensa. “O que a gente escutava dos veículos era assim: ‘Não me manda um vibrador em forma de pênis, que eu não vou publicar. Vai chocar o leitor’.”

Mas a coisa mudou. Sua primeira “frente” é divulgar os produtos; a segunda, atacar em pautas de negócios. “Revistas como Sexy, Vip, Nova, Playboy, Men’s Health e Boa Forma são as principais. Mas também já fizemos ótimas pautas em Cláudia, Estadão, Folha. O pessoal resolveu acompanhar a mudança de comportamento do brasileiro, que foi ficando mais tranquilo com o tema”, diz.

Para chegar lá, aposta em releases criativos, que passem a emoção da redatora. Outra saída: vender vibradores e afins não como artigos eróticos, mas como item de saúde sexual. “É preciso tirar um pouco esse peso e mostrar o valor emocional que isso agrega.” Para ter sucesso na primeira estratégia, não abre mão de dominar o assunto. “Eu mesma testo os vibradores. Só dessa forma consigo passar mais veracidade no release.”

Há três anos, a jornalista Patrícia Gnipper comanda a assessoria da Erótika Fair, quarta maior feira erótica do mundo. Quem visita o evento vê muito mais casais do que mulheres solteiras ou profissionais do mercado sensual. Sinal de que o trabalho vai bem. “Quando peguei o cliente, o foco eram os públicos feminino e masculino. Além disso, pegar a editoria de comportamento, mas também de negócio, já que a maioria dos expositores vende para atacado, não para varejo”, explica.

Patrícia substituiu Julianna Santos, assessora da feira entre 2005 e 2010, hoje editora da revista Sex Shop e Negócios. “O projeto serve para direcionar o mercado, porque o mercado erótico não tem atenção das outras mídias para anunciar.” Além da publicação, ela assessora uma importadora que traz, segundo ela, produtos inovadores. “O revestimento é de silicone puro, o que é raro no Brasil. Além disso, trabalha não só com penetração, mas com todo o corpo. Foi idealizado para autoconhecimento.”

Engana-se quem acha que a assessoria na área limita-se ao mercado de produtos eróticos. Há dois anos, o jornalista Marcelo Roger Piccine fundou uma produtora que lançou o “Concurso Stripper Brasil”. Também faz a assessoria do concurso e de todo o casting, cerca de 50 strippers. Para tal, o ex-repórter usa a experiência anterior como assessor da casa Nefertitti – casa de suingue que virou a primeira casa de espetáculo erótico em São Paulo. E já prepara o próximo passo. “A segunda edição tem tudo para acontecer em formato de reality show para um programa do Multishow”, garante.
UM JORNALISTA, 1 000 MULHERES
É bem provável que você já tenha visto Focca Barreto, 62, em algum lugar. Primeiro: ele é criador e ex-dançarino do famoso “Clube das Mulheres”, fundado em 1990. Segundo motivo: há anos, ele é figurinha carimbada em festas da alta sociedade, ostentando uma tacinha de champagne atrás de gravações de programas como “Amaury Jr.”, “Pânico”, entre outros. “Foi um personagem que criei para promover a mim e minha marca.” Ok. Mas, e o jornalismo? Focca é jornalista há 40 anos, com direito a carteirinha da Federação Nacional dos Jornalistas (Fenaj). “Aos 11 anos, escrevi um ‘Jornal Mirim’, que meu pai, Valdo Barreto [diretor industrial da Folha da Manhã], imprimiu na oficina da Folha.” Depois, foi revisor do grupo, repórter policial do Notícias Populares, antes de enveredar para o colunismo social em veículos como Go Where, A Cidade e Ivy Magazine – nesta, assina até hoje como jornalista-responsável. Destaca-se o valor do sexo na vida deste jornalista. “É uns 92% da minha vida”, brinca o playboy assumido, que diz ter transado com quase mil mulheres. “Já fui de pegar cinco por semana. Hoje, a média é uma por semana.” Detalhe: tudo sem precisar do “azulzinho”. “Aos 50 anos, comecei a broxar e resolvi botar uma prótese. Foi a melhor coisa que fiz na vida.”
TEM GRINGO NA CAMA
O argentino Emilio Cicco chama o jornalismo que pratica de “border”. Algo como sua versão hermana do “jornalismo gonzo”, em que o repórter vive a experiência que relata. Um de seus trabalhos mais polêmicos foi a de ator pornô junto a um casal e um ator novato, para a revista argentina Notícias. A pedido de IMPRENSA, ele resumiu a experiência. “Descobri que é um ofício como qualquer outro. Requer um conhecimento. Um talento. O pornô é uma coreografia, e quem melhor interpreta é o melhor ator. Muitos atores, sobretudo homens, não têm um ideal de beleza. Na Argentina, a maioria dos atores pornôs trabalha em outras coisas. Conheci engenheiros, assistentes sociais, vendedoras – gente que você pode encontrar em qualquer lado. Cicco, que já investigou jornalisticamente o mundo dos swingers, dos crossdressers e dos travestis, diz-se instigado por revelar o lado animal por trás do homem moderno. “Muitas vezes, nossa relação com o sexo demonstra que é mais selvagem do que pensam.”

Matéria publicada na edição 289, de maio de 2013, da Revista IMPRENSA.