Eleições e política

Eleições e política

Atualizado em 15/10/2010 às 18:10, por Redação revista IMPRENSA.

Qual sua opinião sobre a declaração de voto por veículos de imprensa?
Eu acho absolutamente salutar. Porque é o exemplo claro. Em vários lugares do mundo, na Europa, nos Estados Unidos, os órgãos de imprensa se posicionam. Por que eu acho salutar? Eu não acho obrigatório, mas acho legal. E eu acho salutar porque, quando um órgão de comunicação declara que apóia o projeto tal, isso não significa que ele deveria ou deverá usar a notícia, o material editorial para poder apoiar. Acho que, ao contrário, essa declaração de apoio a "A" ou a "B" impõe uma obrigação e, mais do que isso, um compromisso. Porque o leitor que sabe que o jornal apóia o projeto de fulano, ele vai ler com muito mais atenção o jornal "A", a revista "B" ou a emissora de TV "A" ou "B". Porque o leitor fala: "bem, eu tenho que dar o desconto". E acho até que isso obrigaria as redações, as chefias, a terem muito mais com o que produzem, noticiam, porque sabem o leitor conhece o apoio que ele tem. Acho que é muito mais saudável assumir no editorial - se eu não me engano, o Estadão também o fez em 2006 [o texto de 1º de outubro pedia à população que não votasse em Lula nas eleições daquele ano. Nessas eleições, o jornal apoiou abertamente o voto em Serra em editorial do dia 26 de outubro]. O leitor ter essa informação é até um contrabalanço, é ler com outros olhos. Porque o que acontece, no meu entender, é uma extraordinária hipocrisia de manter esse faz de conta de que não se dá apoio a ninguém, de que não se tem candidato, quando, na verdade, a mídia tem um candidato que todo mundo sabe que tem e quem é, do ponto de vista majoritário. É mentira porque todo mundo sabe que quase toda a mídia tem suas preferências, seus candidatos. Então fica difícil esse jogo de faz de conta. E, quando eu digo a mídia, eu me refiro à grande mídia, porque o Brasil é muito mais amplo do que isso, tem 5,6 mil municípios, 27 estados. Da mesma forma que aqui quase sempre está alinhado ao interesse "A" ou interesse "B", corporação "A" ou corporação "B". Então, acho que já passou da hora de acabar com essa hipocrisia e cada um anunciar no seu editorial. Obviamente, editorial é uma coisa do dono, e não fazê-lo nas páginas, que é o que a gente vê muitas vezes, de forma escancarada mas que parece ser velada...

O fato de empresas terem um candidato ou apoiarem um candidato, não significa que os fatos que essa empresa está noticiando não sejam verdadeiros no todo ou em parte. E o fato dos fatos noticiados serem verdadeiros no todo ou em parte também não significa que as empresas não tenham um candidato. É isso. Essa é a equação. O fato de eu noticiar algo que seja verdadeiro ou não, não significa que eu não tenha candidato. E o fato de eu ter candidato não significa que o fato noticiado não seja verdadeiro. Isso tem que ser muito mais claro, senão isso gera um desequilíbrio como o que a gente está vendo agora, na reta final. É como se uma candidatura apenas tivesse defeitos, mazelas, escândalos, em torno de si e as demais não têm nada. É ter uma candidata que é a Dilma, que tem todos os defeitos do mundo, todos os problemas do mundo. Alguns são verdadeiros, está provado, não necessariamente dela, embora se colem nela, porque isso é parte de uma cobertura que se partidariza, enquanto não há defeito algum, não há nada no passado dos demais... Esse é um problema claro, advindo disso que estamos falando.

A popularização do Twitter tem permitido a constante distribuição de conteúdo por não jornalistas. O que acha disso?
Acho excelente, evidentemente isso rompe determinadas barreiras de monopólio claras e evidentes que estão aí e sempre estiveram. Mas também não podemos perceber isso sem olhar criticamente. É preciso dizer também que tanto na blogosfera quanto na "twittaria" existem vários lados, tanto coisas extraordinárias, lindas, belas, quanto a "facistaria", a patrulha, a chatice... Tem tudo até porque é anônimo, o que favorece aquela valentia de ocasião escondida atrás de um avatar. Mas tenho sempre a convicção de que as pessoas sabem separar o joio do trigo e sabem separar dentro desse melê todo o que é saudável. Acho que isso é "auto-gestionável", ninguém precisa dar palpite, deixa que isso vai sozinho, vai fluindo e as pessoas vão encontrando o caminho e ninguém precisa se meter nisso não. Se alguém comete crime, seja no papel, seja na internet, ele pode ser responsabilizado por aquilo.

Se eu não me engano essa é a quinta eleição presidenciável que você cobre...
Não, acho que é mais. Deixa eu ver: 1984, 1989, 1994, 1998, 2002, 2006, 2010, isso no Brasil. Ainda tem Venezuela, Angola, do Bill Clinton e Bush-pai nos Estados Unidos. Além de eleições estaduais e municipais.

O formato dos debates eleitorais no Brasil, para você que já cobriu várias eleições, contribui para uma discussão efetiva na sociedade?
Na verdade, assessorias e marqueteiros têm uma força muito grande na definição, de outro modo seus candidatos não participarão. E eu não diria que não contribui em nada, mas, sim que poderiam contribuir muito mais. São estruturas amarradas. "O que você vai fazer na saúde?". A pessoa tem 30 segundos, um minuto para responder. Isso é uma piada, é muito mais para perceber o cacoete, o jeito de cada um. Claro sempre tem uma coisa que é legal, sempre tem, você perceberá quem é mesmo olhando pouco tempo, mas que são debates excessivamente amarrados não há dúvidas porque, infelizmente, tem essa blindagem, que é um problema da imprensa brasileira. As assessorias de comunicação têm mais gente do que as redações e isso cria uma deformidade, essa chusma de assessorias; quando você vai falar com o maior borra-botas, uma "Zé Manoa" qualquer, ele tem sempre um assessor de imprensa que está lá. Isso é um saco. Eu trabalhei nos EUA, sempre existirá um assessor, só que o cara de lá te devolve e o daqui, às vezes, nem isso. As campanhas presidenciais têm uma blindagem absurda, excessiva em torno dos principais candidatos, só se expõe quando quer, tanto a Dilma quanto o Serra. Tudo escondido. A gente tem carrapato ali, mas é sempre uma coisa excessiva, se expõe pouco porque essa é uma recomendação, evidentemente, das suas assessorias. "Não se exponham, não se exponham, não se exponham." É muito chato. As campanhas, às vezes, ficam muito chatas por causa disso. Fica pouco verdadeiro, tudo muito escondido. Isso é a parte de qualquer um que esteja na frente. A Dilma, por exemplo, está enclausurada, ela vai ali, mas não fala, não dá entrevista, escolhe só aspas dos amigos, essa bobajada é muito chata. E o Serra idem, até por característica pessoal dele, que é mais acentuada ainda. Porque todo mundo é inimigo, todo mundo quer sacaneá-lo, ninguém gosta dele, essas coisas. No fundo, notícia é notícia, às vezes a notícia vai contra você, eventualmente o fato não lhe agrada. Vai fazer o quê? Isso é um mal muito presente e essa força das empresas de assessoria - nada contra as assessorias -, mas seu poder extraordinário mostra uma deformidade aí de algum lado. A responsabilidade é deles? Não é das empresas de comunicação, de jornalistas que estão compactuando com esse excesso de intermediários entre o personagem do fato e o repórter. Isso é um saco total. Dificulta e cabe ao repórter não aceitar: "Eu não quero falar com o assessor, quero falar com o cara, velho!". Não fica recebendo esses PFs que saem das assessorias o tempo todo. A assessoria está certa, do ponto de vista deles, estão vendendo o peixe deles. Está errado quem fica comendo esse PF o tempo todo.

Você é baiano naturalizado...
Nasci em São Paulo, Barretos, mas minha família toda é da Bahia, há séculos. Você não escolhe onde nasce. Eu moro em São Paulo, gosto daqui mas me sinto, até pela orgiem, vivi anos lá [na Bahia], fiz UFBA...

O que acha do jornalismo baiano?
Sofre dos mesmos problemas que o jornalismo regional. Conheci grandes profissionais da Bahia. O Claudio Leal, que trabalha comigo, é baiano, veio de lá. O Eliano Jorge, mesma coisa; a Rosane Santana, que até pouco tempo trabalhava comigo, veio de lá...

A imprensa nacional ainda está muito focada no eixo Rio-São Paulo?
É uma questão econômica. Você pode ter ótimos jornalistas na Bahia, como sempre teve, Chico Viana, baiano... E outras dezenas. Você pode ter ótimos jornalistas, como ótimos marqueteiros: o João Santana, o Duda Mendonça, o Geraldão, que não está mais aqui. Eu adoraria e adorarei um dia ter espaço, inclusive salarial, pessoal, para trabalhar na Bahia, morar na Bahia. Agora isso é o drama de todo mundo que está em Brasília que vem do Ceará, da Bahia, de São Paulo, do Rio Grande do Sul... Pela mesma questão econômica, a fragilidade econômica das empresas regionais ou municipais.