Eleições: A mídia que torcia e distorcia

Eleições: A mídia que torcia e distorcia

Atualizado em 05/10/2010 às 13:10, por Nelson Varón Cadena.

A mídia sempre teve influência marcante na escolha de nossos governantes, também foi pensada com esse objetivo, além do estritamente pragmático: a publicação de atos de Governo e das transações mercantis que se avolumaram logo após a abertura dos portos brasileiros para as nações amigas e outras nem tanto; negócios de conveniência ao sabor dos ventos da política. A mídia foi pensada para influir no processo de formação de um novo modelo de governo para o Brasil. Daí o surgimento de mais de trinta periódicos, no período entre 1.820 e 1.823, ou seja, entre os acontecimentos da Revolução do Porto em Lisboa e a expulsão do exercito português da Bahia, último reduto de resistência, pelo exercito mercenário financiado pela Maçonaria.
Então surge o Parlamento e esse grupo de pessoas que deveriam assessorar o Rei é escolhido por um pequeno colegiado. A imprensa tenta influir nessa escolha e muitos, a maioria, dos títulos "jornalísticos" nascem com esse objetivo. E por isso mesmo desaparecem logo que ocorrem as eleições. Viviam efemeramente, apenas para os dois momentos aqui relatados: a escolha do colegiado e depois a escolha dos deputados. Com o surgimento dos partidos a mídia, que já tinha uma clara opção política, agora também veste a camisa. Os jornais se autodenominam órgãos dos partidos Conservador, ou Liberal e mais tarde Republicanos. Aceitam anúncios dos candidatos, mas somente dos aliados. As questões partidárias estavam acima das questões financeiras.
O fim do título partidário
Com o advento da República as eleições continuam indiretas e a mídia menos engajada, já que seu caráter era também menos efêmero. O conceito de jornal-empresa já se disseminara no Brasil e com ele também a idéia da mídia como quarto poder, ou seja, capaz de influenciar este, ou aquele Governo. O Jornal do Brasil, por exemplo, nasce Monarquista (defende a volta do sistema parlamentarista com o Rei como coadjuvante), mas, torna-se logo Republicano e em seguida Democrata quando Floriano Peixoto manda para o exílio Ruy Barbosa, um de seus diretores, dentre outras personalidades que divergiam de seu Governo. A mídia com título partidário deixa de existir, mas a sua linha editorial continua a refletir essa clara, e na época, transparente opção por este, ou aquele candidato.
Não existiam regras em relação às opções partidárias, ou não da mídia. O enquadramento da mídia se dava na marra. Através de perseguição aos diretores das empresas, prisões de jornalistas, empastelamentos por sicários, por policiais, ou pelo próprio povo incitado pelos governantes ou profissionais da política. Arthur Bernardes aprimorou essas práticas com um arcabouço legal "A Lei Infame" que tornava tudo isso razoável. Getúlio Vargas aprimorou ainda mais o sistema, montando uma burocracia (DIP) para administrar essas demandas de enquadramento necessárias para a manutenção de seu regime, autoritário e caprichoso, no sentido de se perpetuar no poder a todo custo.
O caso Rede Globo/Proconsult
Com a volta da democracia e das eleições de um Presidente e do Parlamento, através do voto da população, a mídia que vivera longos anos numa camisa-de-força, com o habito do cachimbo, entortara a sua boca. Custou a entender que o seu papel de protagonista nas eleições estava além de seus compromissos com partidos, governos e interesses econômicos preponderantes. O leitor também era eleitor. E ela mídia devia prestar contas não apenas ao eleitorado, mas ao leitorado também. Não deu tempo para esse processo se consolidar, com os militares assumindo o Governo e influindo na composição do Parlamento através de manobras que ainda hoje existem na legislação eleitoral, ainda que com outro figurino.
A redemocratização do país encontrou uma mídia subserviente e ao mesmo tempo assumida em relação às mazelas do processo eleitoral. Naquele tempo a contagem dos votos era manual e demorava uma a duas semanas, período em que os políticos e seus assessores emprenhavam as urnas e a mídia não denunciava e se denunciava o fazia sem provas e sem evidências. A imprensa torcia e conseqüentemente distorcia a informação para seus leitores, ouvintes ou telespectadores. Agia para preservar interesses, ou mesmo para prejudicar desafetos. O episódio do Proconsult nas eleições para Governador do Rio de Janeiro em 1982, foi o ápice desse sistema, comprometendo a credibilidade do maior veiculo do país. A grande mídia tornara-se não apenas protagonista, mas também cúmplice, ela própria desinformando na tentativa de manipular e influenciar o processo.