Eisner fala sobre jornalismo literário

Eisner fala sobre jornalismo literário

Atualizado em 08/07/2005 às 17:07, por Rodrigo Manzano.

Recém-lançado no Brasil, livro de Peter Eisner, do Washington Post, conta a saga de aviadores e de heróis desconhecidos da Segunda Guerra. Em entrevista à IMPRENSA, autor fala sobre jornalismo literário como tendência e sobre fidelidade histórica

Autor do recém-lançado "Caminhos da Liberdade" [Ed. Jorge Zahar, 332 pág. R$ 39,90], Peter Eisner enfrentou, na apuração e escrita de seus livros, o dilema que pode acometer a todo jornalista que procura, no jornalismo literário, a saída para as amarras dos textos burocráticos que tomaram conta dos jornais na segunda metade do último século.
Depois de implementarem seus projetos editoriais em torno da objetividade do texto, da concisão e da implementação do lead, os grandes jornais norte-americanos - em especial o Washington Post e o The New York Times - passaram a rever o seu papel e, por conseqüência, a função e forma da reportagem diária. Uma das saídas econômicas dos jornalões foi, desse modo, voltar a apostar em grandes textos, em forma de narrativa e sob a influência dos mestres do jornalismo literário, como Tom Wolfe, Truman Capote e Gay Talese.
Em entrevista ao Portal Imprensa, Eisner revelou seu processo criativo, o rigor da apuração e a onda de jornalismo literário nos EUA. "Caminhos da Liberdade" foi o primeiro livro - e o laboratório de Eisner - em que, a partir de relatos dispersos sobre a trajetória de aviadores aliados na Segunda Guerra, salvos por anônimos, estimulou o jornalista na procura de detalhes muito precisos que ambientavam as cenas descritas. Confira trechos da entrevista, abaixo:
"Debater o new journalism é tanto interessante quanto importante. Nos Estados Unidos, o trabalho de Tom Wolfe, com seus livros "The Right Stuff" e "Bonfire of the Vanities", entre outros, são modelos para este gênero. Wolfe, além de causar uma grande impressão com suas reportagens, encorajou uma geração a apurar e produzir grandes reportagens em forma de livros, em forma de narrativas"

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"Quando comecei a pensar em 'Caminhos da Liberdade', procurava pela melhor maneira de contar uma história que não era muito conhecida. Eu havia lido alguns relatos históricos em forma narrativa, mas, diferentemente daqueles livros, eu comecei a minha pesquisa. Percebi que muitos dos personagens da história de 'Caminhos (...)', estavam vivos e eu poderia iniciar meus trabalhos entrevistando-os. Eles tinham memórias vívidas e poderiam relatar suas experiências com profundidade. Era evidente que eu poderia escrever sobre eles de uma modo que atraísse leitores, dando vozes aos participantes, seus pensamentos e perspectivas"

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"No jornalismo, de maneira geral, há uma tendência, nos Estados Unidos, em optar pelas narrativas. Se procurarmos por longas histórias, é possível encontra-las tanto no Washington Post quando no The New York Times todos os dias. Sempre os jornais procuram personagens para expressar suas histórias. O objetivo, especialmente em um mundo de queda nas vendas de jornais, é atrair leitores utilizando, para isso, o ato de contar histórias. É possível até que a técnica esteja desgastada, mas está viva e freqüentemente é utilizada aqui"

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"Ao escolher escrever meu livro de forma narrativa não-ficcional, estava consciente de que deveria procurar o máximo de detalhes possível. E fiquei impressionado com o tanto de detalhes que consegui encontrar. Quando comecei a pesquisa, desenvolvi diversas maneiras de apuração, gastei semanas no National Archive, em Washington, conversei com sobreviventes, tanto nos EUA quanto na Europa, e, com a ajuda da internet, foi possível localizar detalhes e contornos precisos do contexto. As citações são reais, foram dadas por mim pelos entrevistados ou retiradas de livros e documentos, citados na minha grande reportagem. Quando eu falei, por exemplo, das fases da lua, no livro, eu procurei a informação no calendário de 1943, na internet. Isso permitiu que construísse frases como "banhado pelo luar, um deles lançou o arpel por sobre o muro".

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"A história da Segunda Guerra Mundial ainda está sendo escrita, e muita informação ainda permanece desconhecida. Estamos convivendo com os últimos anos de alguns dos sobreviventes da guerra. Hitler e os nazistas são modelos arquetípicos da batalha entre bem e mal, e faz emergir questões sobre a natureza da humanidade"

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LEIA A CRÍTICA de IMPRENSA

A tentação de Einser

Nos Estados Unidos, grande parte dos críticos de literatura, ao procurar uma expressão que qualifique positivamente uma narrativa, afirmam que o livro renderia um filme. Como os americanos dominam bem as técnicas cinematográficas, não há demérito algum no elogio (no Brasil, talvez até houvesse).
Foi essa constatação - a de que "Caminhos da Liberdade" renderia um bom filme - que Peter Eisner ouviu de um resenhista do Washington Post, o jornal onde trabalha. De fato, "Caminhos da Liberdade" renderia um filme. Mas não só.
Há quem diga que estamos vivenciando uma espécie de modismo do jornalismo de narrativas, literaturizado, detalhista. Um revival do new journalism. É preciso, contudo, avaliar que nem sempre a qualidade dos textos corresponde à herança estética deixada por Truman Capote e Tom Wolf. Alguns, muito talentosos, se aproximam do belo mas afastam-se da verdade. Este não é o caso de Peter Eisner, um relato belo e fiel.
"Caminhos da Liberdade", ao resgatar a história de anônimos que ajudaram aviadores aliados a fugir do temido exército alemão, o faz com a consistência de historiador, o método de jornalista e, de fato, a riqueza de detalhes de um roteirista de cinema.
Em entrevista a IMPRENSA, Peter Eisner afirmou que a tendência ao jornalismo literário - que se manifesta aqui no Brasil mais nos livros-reportagem que no jornalismo diário - tem sido a fórmula utilizada pelos jornais norte-americanos (The New York Times e Washington Post, especialmente) para arrebanhar os leitores que deixaram de comprar os diários nas últimas décadas. Essa tendência nos apresenta questões importantes sobre a prática do jornalismo e uma delas é se a receita lead/sublead do jornalismo factual, que também nasceu na América do Norte, estaria com os dias contados. E se comunicação e arte se convergem em uma modalidade de expressão que vem marcar a passagem do século XX para este em que estamos.
Se, de um lado, a fórmula vai resgatar o legado do new journalism, é preciso estar atento aos limites éticos da informação que ganha essa formatação. Diante das possibilidades da linguagem - dos detalhes, das descrições de cenários, da captura do invisível - os exageros e as invenções, um detalhe não-acontecido, um personagem inexistente surgem como uma tentação. Transformar ficção em jornalismo seria como fazer as pedras em pães, na tentação de Cristo. Eisner - como um jornalista da redação, repórter - não se viu tentado. Segundo informa, até os detalhes mais minuciosos da narrativa são resultado de apuração. Isso o levou, por exemplo, a buscar a fase da lua de uma noite de janeiro de 1943, de modo que pudesse escrever "banhado pelo luar, um deles lançou o arpel por sobre o muro". Tanto detalhe merece, de fato, um filme. Os agentes literários de Eisner têm trabalhando para isso.
Pedras, afinal, são pedras. Mas podem ser belas para quem as vê. ( )

Caminhos da liberdade
Peter Eisner
Ed. Jorge Zahar
332 pág.
R$ 39,50
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