Editores de primeira página revelam quais são os critérios para as manchetes dos jornais
Diariamente, os jornais oferecem manchetes aos leitores em suas versões impressas e digitais. Mas a seleção não é simples. “Todos os dias enfrentamos dilemas para hierarquizar as chamadas”, conta Luciana Constantino, editora-executiva do Estadão .
Leonardo Cruz, editor de Primeira Página, da Folha de S.Paulo , revela os critérios que considera na hora de hierarquizar o noticiário. Segundo ele, as notícias mais fortes e importantes de todas seriam as que têm “capacidade de mudar o curso da história mundial”, como o 11 de Setembro ou a Guerra do Iraque.
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Jornais "Folha de S.Paulo", "Estadão" e "Zero Hora" explicam a geração de manchetes Em seguida, vêm as notícias com importância história no Brasil, como eleições presidenciais, grandes escândalos de corrupção na esfera pública, planos econômicos ou mobilizações populares.
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Leonardo Cruz, editor de Primeira Página da "Folha" As tragédias de grandes proporções são casos específicos que também ficarão marcados na história, como o tsunami de 2004 ou os deslizamentos na Serra Fluminense de 2011. O mesmo ocorre com mortes de personalidades. “Quanto mais atuante estiver a personalidade e mais surpreendente sua morte, mais importante é”, especifica Cruz. Como exemplo, ele cita Hugo Chávez, que morreu ainda no comando da Venezuela.
No entanto, informações de serviço, que ajudam o leitor a organizar sua vida, como melhores horários para viajar em feriados ou rankings de investimentos no mercado financeiro também merecem destaque pela Folha.
Ainda assim, a seleção não é simples. “Todos os dias enfrentamos dilemas para hierarquizar as chamadas”, conta Luciana Constantino, editora-executiva do Estadão .
Crédito:Marcos Santos/USP Imagens Luciano Constantino, editora-executiva do "Estadão" O secretário de redação da Folha Digital, Roberto Dias, resume: é avaliado o “impacto que uma notícia tem na vida do leitor da Folha ”, além de quanta gente ela afeta e o quanto ela é surpreendente.
Mas a profundidade do conteúdo apurado também é critério de desempate. O editor da Zero Hora exemplifica: “Ficamos sabendo um pouco tarde que uma empresa israelense sediada no RS pode ser um grande fornecedor da empresa sueca fabricante dos caças que o Brasil vai comprar. Se tivéssemos tido tempo de aprofundar esta matéria, saber que impacto este fornecimento pode gerar na economia gaúcha, esta matéria poderia ter crescido nas capas online e offline.”
Impresso x digital Quando se comparam as manchetes do impresso e online, Luciana, do Estadão , explica que, no primeiro, destacam-se as “implicações que o assunto trará e qual impacto o tema pode gerar no futuro”. Já na homepage, “a preocupação é mais factual, com o que está acontecendo no momento”.
Vargas, da Zero Hora , chama a atenção para o fato de que “rompemos a lógica segundo a qual o papel era sempre privilegiado”. Como redação multiplataforma, publica-se o conteúdo primeiro onde se entende que haverá o melhor aproveitamento.
De fato, tornou-se frequente para os três jornais publicar uma manchete primeiro na versão online. Dias, da Folha , exemplifica que, considerando-se os últimos sete dias antes da entrevista, três manchetes do impresso foram publicadas antes no site do jornal.
Crédito:Divulgação Nilson Vargas, editor-chefe da "Zero Hora"
“Se o conteúdo ficou pronto à noite, fica a dúvida sobre veicular no site ou segurar para o jornal”, aponta o editor-chefe do jornal gaúcho. “Se for algo exclusivo, não é incomum soltarmos imediatamente no site pela capacidade de reverberação e pelo risco sempre presente de que concorrentes também acessem a informação em seguida.”
Outro fator é a existência de alguma cobertura ao vivo no momento, como um jogo, reunião importante, algo que se preste a cobertura multimídia ao vivo, que pode ofuscar uma matéria importante, explica o editor do jornal gaúcho. Se não for urgente veicular a matéria, ela pode ficar para mais tarde ou mesmo entrar no papel antes do site.
Além disso, há o potencial multimídia do conteúdo apurado. Se o jornal possui o vídeo de um acidente, a notícia sobre ele pode ser melhor trabalhada no online. “A capacidade que a informação tem de gerar insumos online, como vídeo, infografia online, slider, banco de dados, calculador, também ajuda a decidir sobre um investimento maior na plataforma digital do que no papel.”
Concorrentes e leitores O editor de Primeira Página da Folha admite que é sempre incômodo quando o jornal concorrente publica a mesma foto ou manchete. “O ideal seria termos sempre imagens e notícias exclusivas. Mas, em dias em que o noticiário "commodity" se impõe, é grande a chance de os veículos ficarem parecidos demais.” Nesse caso, um caminho seria buscar enfoque e análises diferenciados sobre a informação que todo mundo tem, reflete ele.
Por outro lado, o editor da Zero Hora conta que não é incomum os leitores, principalmente online, questionarem por que o jornal está dando determinada manchete. “Tudo está exposto ao julgamento”, ressalta. Para Vargas, esta interação permanente deve ser aproveitada para o jornal avaliar sempre seus critérios.
“Valorizamos muito numa capa dominical a história de uma transexual que acompanhamos durante o tratamento/cirurgia para troca de sexo”, exemplifica o editor-chefe. "Ficou claro pra nós que causamos um impacto, geramos uma reflexão sobre o tema, e isso nos agradou, mesmo que muitas opiniões tenham sido contrárias ao que decidimos."
O Globo também foi procurado, mas não pôde responder até o fechamento da reportagem.
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