Editores de primeira página revelam quais são os critérios para as manchetes dos jornais

Diariamente, os jornais oferecem manchetes aos leitores em suas versões impressas e digitais. Mas a seleção não é simples. “Todos os dias enfrentamos dilemas para hierarquizar as chamadas”, conta Luciana Constantino, editora-executiva do Estadão .

Atualizado em 26/12/2013 às 15:12, por Maurício Kanno.



Leonardo Cruz, editor de Primeira Página, da Folha de S.Paulo , revela os critérios que considera na hora de hierarquizar o noticiário. Segundo ele, as notícias mais fortes e importantes de todas seriam as que têm “capacidade de mudar o curso da história mundial”, como o 11 de Setembro ou a Guerra do Iraque.
Crédito:Reprodução Jornais Jornais "Folha de S.Paulo", "Estadão" e "Zero Hora" explicam a geração de manchetes

Em seguida, vêm as notícias com importância história no Brasil, como eleições presidenciais, grandes escândalos de corrupção na esfera pública, planos econômicos ou mobilizações populares.


Crédito:Divulgação Leonardo Cruz, editor de Primeira Página da Leonardo Cruz, editor de Primeira Página da "Folha"

As tragédias de grandes proporções são casos específicos que também ficarão marcados na história, como o tsunami de 2004 ou os deslizamentos na Serra Fluminense de 2011. O mesmo ocorre com mortes de personalidades. “Quanto mais atuante estiver a personalidade e mais surpreendente sua morte, mais importante é”, especifica Cruz. Como exemplo, ele cita Hugo Chávez, que morreu ainda no comando da Venezuela.


No entanto, informações de serviço, que ajudam o leitor a organizar sua vida, como melhores horários para viajar em feriados ou rankings de investimentos no mercado financeiro também merecem destaque pela Folha.


Ainda assim, a seleção não é simples. “Todos os dias enfrentamos dilemas para hierarquizar as chamadas”, conta Luciana Constantino, editora-executiva do Estadão .


Exclusivo e regional A exclusividade da informação e a localidade do fato são outros critérios também destacados por outros três jornais – Zero Hora , além de Folha e Estadão . “Não perdemos nossas singularidades, como o foco em temas do Rio Grande do Sul”, lembra Nilson Vargas, editor-chefe do jornal gaúcho. E a editora do Estadão ressalta que há “prioridade para investimentos do jornal, reportagens especiais e entrevistas exclusivas”.
Crédito:Marcos Santos/USP Imagens Luciano Constantino, editora-executiva do "Estadão" O secretário de redação da Folha Digital, Roberto Dias, resume: é avaliado o “impacto que uma notícia tem na vida do leitor da Folha ”, além de quanta gente ela afeta e o quanto ela é surpreendente.

Mas a profundidade do conteúdo apurado também é critério de desempate. O editor da Zero Hora exemplifica: “Ficamos sabendo um pouco tarde que uma empresa israelense sediada no RS pode ser um grande fornecedor da empresa sueca fabricante dos caças que o Brasil vai comprar. Se tivéssemos tido tempo de aprofundar esta matéria, saber que impacto este fornecimento pode gerar na economia gaúcha, esta matéria poderia ter crescido nas capas online e offline.”


Impresso x digital Quando se comparam as manchetes do impresso e online, Luciana, do Estadão , explica que, no primeiro, destacam-se as “implicações que o assunto trará e qual impacto o tema pode gerar no futuro”. Já na homepage, “a preocupação é mais factual, com o que está acontecendo no momento”.

Vargas, da Zero Hora , chama a atenção para o fato de que “rompemos a lógica segundo a qual o papel era sempre privilegiado”. Como redação multiplataforma, publica-se o conteúdo primeiro onde se entende que haverá o melhor aproveitamento.

De fato, tornou-se frequente para os três jornais publicar uma manchete primeiro na versão online. Dias, da Folha , exemplifica que, considerando-se os últimos sete dias antes da entrevista, três manchetes do impresso foram publicadas antes no site do jornal.


Crédito:Divulgação Nilson Vargas, editor-chefe da "Zero Hora"

“Se o conteúdo ficou pronto à noite, fica a dúvida sobre veicular no site ou segurar para o jornal”, aponta o editor-chefe do jornal gaúcho. “Se for algo exclusivo, não é incomum soltarmos imediatamente no site pela capacidade de reverberação e pelo risco sempre presente de que concorrentes também acessem a informação em seguida.”


Ele também explica que, quando a matéria não é factual, quando é uma apuração "de dentro para fora", pode chegar ao público primeiro no papel. Depende da audiência online e da oferta de conteúdo factual no site no horário em que o conteúdo fica pronto. Ele ressalta algo curioso: “se temos duas informações de peso no mesmo momento, veicular as duas ao mesmo tempo no site pode gerar "canibalização" entre elas.”

Outro fator é a existência de alguma cobertura ao vivo no momento, como um jogo, reunião importante, algo que se preste a cobertura multimídia ao vivo, que pode ofuscar uma matéria importante, explica o editor do jornal gaúcho. Se não for urgente veicular a matéria, ela pode ficar para mais tarde ou mesmo entrar no papel antes do site.

Além disso, há o potencial multimídia do conteúdo apurado. Se o jornal possui o vídeo de um acidente, a notícia sobre ele pode ser melhor trabalhada no online. “A capacidade que a informação tem de gerar insumos online, como vídeo, infografia online, slider, banco de dados, calculador, também ajuda a decidir sobre um investimento maior na plataforma digital do que no papel.”

Concorrentes e leitores O editor de Primeira Página da Folha admite que é sempre incômodo quando o jornal concorrente publica a mesma foto ou manchete. “O ideal seria termos sempre imagens e notícias exclusivas. Mas, em dias em que o noticiário "commodity" se impõe, é grande a chance de os veículos ficarem parecidos demais.” Nesse caso, um caminho seria buscar enfoque e análises diferenciados sobre a informação que todo mundo tem, reflete ele.
Por outro lado, o editor da Zero Hora conta que não é incomum os leitores, principalmente online, questionarem por que o jornal está dando determinada manchete. “Tudo está exposto ao julgamento”, ressalta. Para Vargas, esta interação permanente deve ser aproveitada para o jornal avaliar sempre seus critérios.

“Valorizamos muito numa capa dominical a história de uma transexual que acompanhamos durante o tratamento/cirurgia para troca de sexo”, exemplifica o editor-chefe. "Ficou claro pra nós que causamos um impacto, geramos uma reflexão sobre o tema, e isso nos agradou, mesmo que muitas opiniões tenham sido contrárias ao que decidimos."

O Globo também foi procurado, mas não pôde responder até o fechamento da reportagem.


Leia também

-

-

-