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“É uma atitude que não demonstrou egoísmo”, diz Sônia Bridi sobre revelações de Snowden

“Se me dissessem em março do ano passado que os Estados Unidos estavam monitorando as conversas e e-mails do mundo todo, eu diria que era pura paranoia”, confessou a jornalista Sônia Bridi, da TV Globo, durante o 9º Congresso Internacional de Jornalismo Investigativo, na última sexta-feira (25/7), em São Paulo.


Ao lado do repórter Ewen MacAskill, do jornal britânico The Guardian , Sônia falou sobre os bastidores da entrevista que fez em junho deste ano com Edward Snowden, ex-integrante da Agência de Segurança Nacional norte-americana, para o “Fantástico”. MacAskill também contou de seus encontros com Snowden, o último deles, há duas semanas, na Rússia.
Na ocasião, o ex-agente recomendou que jornalistas redobrassem o cuidado com seus “rastros” digitais. Uma simples conta paga com cartão de débito ou crédito já é uma pista importante para as autoridades descobrirem a identidade de uma fonte secreta, por exemplo. Snowden disse ainda que estava envolvido na produção de ferramentas de criptografia específicas para o trabalho jornalístico.
Crédito: “É uma atitude que não demonstrou egoísmo”, diz Sônia Bridi sobre revelações de Snowden O jornalistas falaram sobre apuração das denúncias feitas por Edward Snowden Durante o painel, MacAskill falou ainda das pressões que o jornal sofreu do governo britânico por publicar informações dos documentos secretos entregues por Snowden. Os mais recentes revelaram como o governo norte-americano monitorava até mesmo e-mails e ligações de governantes, como a presidente Dilma Rousseff e a chanceler alemã, Angela Merkel.
“O governo britânico foi muito hostil quando publicamos as primeiras matérias. Ameaçaram entrar com uma ação legal, levaram membros da agência de segurança local na redação para destruírem nossos computadores e ameaçaram até mesmo fechar o jornal”.
Contato imediato
O envolvimento de Sônia com a pauta começou em julho passado, quando a jornalista recebeu uma inesperada ligação do diretor do “Fántástico” a respeito de uma entrevista com Glenn Greenwald. O jornalista norte-americano foi o escolhido por Snowden para receber os documentos secretos e estava interessado em conversar com ela.
“Em todo o momento Glenn se mostrou muito cuidadoso e criterioso com as informações que poderiam colocar em risco os envolvidos no caso. Ele é um excelente guardião dos documentos. Ao conhecê-lo entendi perfeitamente porque Snowden o escolheu”, disse Sônia.
Crédito: “É uma atitude que não demonstrou egoísmo”, diz Sônia Bridi sobre revelações de Snowden Sônia Bridi entrevistou Snowden para o "Fantástico" A jornalista aproveitou para ressaltar também suas impressões sobre o que levou o ex-agente da NSA a vazar os documentos secretos. Ela disse que com base em suas apurações e também na de colegas, que acredita nas motivações sinceras dele. “Fiquei convencida que ele está agindo de acordo com sua consciência. Movido por um desejo de ‘vamos mudar o mundo’. Ele renunciou a muita coisa e está em uma condição que não gostaria que meus filhos jamais estivessem. É uma atitude que não demonstrou nada de egoísmo”.
Parceiro da Globo na cobertura, o Guardian foi elogiado pelo conteúdo produzido sobre o assunto, sobretudo, em suas plataformas digitais. “O especial foi um divisor de águas no jornalismo. É, sem dúvida, uma nova forma de produzir notícia. Desde a apresentação gráfica ao texto são matérias que situam o leitor”, disse Sônia, que concluiu: “Vejo jornalistas falando com desprezo da internet, mas jornalismo é jornalismo. Ele precisa ser feito com responsabilidade, essa essência não muda”.
Aprendizados
Sobre os desafios de ter feito parte dessa cobertura, MacAskill destacou as preocupações que o jornal teve com as questões legais. Desde o começo da apuração o Guardian procurou seus advogados para saber das consequências de fazer tais revelações, principalmente porque os arquivos foram copiados por Snowden sem autorização do governo norte-americano.
Crédito: “É uma atitude que não demonstrou egoísmo”, diz Sônia Bridi sobre revelações de Snowden MackAskill falou sobre as pressões do governo inglês após as matérias do "Guardian" sobre espionagem A comunicação durante a apuração também foi um ponto crítico, devido a possibilidade das conversas estarem sendo monitoradas, explicou o jornalista. “Quando fui falar com o Snowden na China e depois na Rússia, não tinha como eu ligar para o meu editor e contar o teor da entrevista, muito menos mandar um e-mail”.
Questionados sobre o que mudou em sua rotina após tomarem conhecimento do poder de vigilância norte-americano, os jornalistas confessaram que antes eram bastante ingênuos e não se preocupavam com a segurança de sua comunicação. Mas que isso mudou completamente. Ambos agora usam e-mails criptografados.
“Eu era ingênuo em relação à essa vigilância. Não achava que agências de segurança pudessem vigiar minhas conversas, e-mails. Hoje, não tenho dúvidas de que todos os jornalistas deveriam usar criptografia. No Guardian todos passamos a usar. Mais do que apenas nos proteger, isso também protege nossas fontes. Essa é nossa obrigação como jornalistas”, disse MacAskill.
Sônia concordou com o colega. “Eu não fazia ideia dessa vigilância toda. Já até brinquei por telefone com meu editor do “Fantástico”, dizendo: ‘Poxa, será que a NSA está nos ouvindo?’. Ninguém imagina que eles se preocupariam em ouvir uma bobagem como aquela”.

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