"É um exemplo ruim para o resto do mundo”, diz jornalista perseguido pelo governo dos EUA
Em entrevista exclusiva à IMPRENSA, James Risen afirma que os EUA são "um exemplo ruim para o resto do mundo" em liberdade de imprensa.
Atualizado em 16/10/2014 às 16:10, por
Lucas Carvalho*.
Crédito:Divulgação James Risen nega-se a divulgar fonte para o governo americano
Tudo começou em 2006, quando Risen publicou “The State of War” (“Estado de Guerra”, em português), livro que denunciou um confuso esquema da Agência Central de Inteligência dos EUA (CIA, na sigla em inglês) para sabotar o programa nuclear iraniano. A ideia era que um agende duplo entregasse aos cientistas do Irã uma série de diagramas que explicavam o passo a passo de como desenvolver uma bomba atômica.
Os desenhos, porém, possuíam um grave defeito. Caso passasse desapercebido pelos iranianos, poderiam retardar o desenvolvimento de seu programa nuclear em décadas. O caso é que o plano deu errado. O agente duplo contratado para entregar os diagramas traiu a CIA e denunciou o esquema aos cientistas do Irã que, no fim das contas, acabaram retirando informações valiosas dos planos mesmo assim. Crédito:Divulgação
Obra que desencadeou perseguição ao jornalista A informação adquirida por Risen partiu de um ex-agente da CIA, cujo nome, obviamente, o jornalista jamais revelou. Embaraçado com o vazamento, o governo norte-americano resolveu investigar e, em 2010, indiciou o ex-agente secreto Jeffrey Sterling como responsável por “colocar em risco a segurança nacional”.
Desde então, o Departamento de Justiça dos EUA tem pressionado James Risen a revelar a identidade de sua fonte ou ao menos testemunhar contra Sterling. A contínua recusa do jornalista o colocou numa batalha judicial que se arrasta há cinco anos – processo que o governo norte-americano não comenta oficialmente.
Em entrevista exclusiva à IMPRENSA, Risen afirma que a “perseguição” do governo vem de longa data. No mesmo ano em que “State of War” chegou às livrarias, o jornalista venceu o prêmio Pulitzer por denunciar um dos muitos esquemas de espionagem da Agência Nacional de Segurança (NSA, na sigla em inglês), que incluía grampos em telefones de milhares de cidadãos norte-americanos.
A reportagem, escrita ao lado do jornalista Eric Lichtblau, é o que teria chamado a atenção da administração de Barack Obama. “O governo ficou realmente furioso conosco por termos revelado alguns dos programas de espionagem da NSA e eles queriam encontrar um jeito de impedir que fizéssemos nossas reportagens. Eles decidiram não ir atrás do jornal e vieram atrás de mim, separadamente, por outras coisas que estavam no meu livro”, diz.
Segundo Risen, o governo alega que suas reportagens “põem em risco a segurança nacional”. Porém, o jornalista duvida que seu trabalho tenha, de maneira concreta, prejudicado o Estado. “Eu acredito que uma imprensa agressiva é necessária em uma democracia para fiscalizar o governo”, acrescenta.
Mesmo sem poder discutir em detalhes a ação que enfrenta na Justiça, Risen não esconde seu descontentamento com a atitude do governo Obama. Em outubro, o jornalista lança seu novo livro, “Pay Any Price” (“A qualquer preço”, em português), que divulga informações inéditas sobre as guerras conduzidas pelos EUA no Oriente Médio no combate ao terrorismo. “Esse novo livro é a minha resposta à campanha do governo contra mim. É minha forma de dizer que vou continuar a reportar e investigar agressivamente as operações do governo”, diz.
“Inimigo da liberdade de imprensa”
Em diversas situações, Risen fez questão de criticar publicamente o presidente norte-americano Barack Obama. Em recente entrevista à coluna de Maureen Dowd no NYT , o jornalista disse que a atual administração é “a pior inimiga da liberdade de imprensa que já encontramos em pelo menos uma geração”.
O fato é que casos de denunciantes e jornalistas processados por vazamentos de informações sigilosas multiplicaram-se sob o governo Obama. São notórios os casos de Edward Snowden, Bradley Manning, Julian Assange e mais “oito ou nove” ações contra repórteres, de acordo com Risen. Para o jornalista, isso representa uma séria ameaça à liberdade de imprensa nos EUA.
“Sempre houve problemas entre nós da imprensa e o governo, mas ficou pior desde o 11 de setembro e durante a guerra ao terror. Primeiro sob a administração Bush e o governo Obama acabou intensificando as coisas”, diz o autor, afirmando que o número de processos por casos de vazamento hoje é maior do que em todos os governos anteriores juntos. “Acho que esse índice fala por si”, acrescenta.
Crédito:Divulgação
Nova obra é resposta de Risen ao governo Nos recentes protestos pela morte de Michael Brown em Ferguson, Missouri, diversos jornalistas foram presos ou ameaçados por forças policiais. Na opinião de Risen, isso é um reflexo de uma postura das autoridades que tem se intensificado com os anos. “Essa atitude acabou sendo desenvolvida em todos os níveis do governo, ou seja, de manter jornalistas à distância. E isso, para a liberdade de imprensa, é muito ruim.”
Segundo o jornalista, o que o governo dos EUA está tentando fazer é causar um “efeito inibidor”: intimidar jornalistas que se interessam por questões de segurança nacional a recuarem, e, assim, “manter a verdade sobre a guerra ao terror em segredo”. “Eles estão tentando suprimir a verdade”, afirma.
Em defesa dos jornalistas
Tramita no Congresso norte-americano uma proposta conhecida como “Lei Escudo” para repórteres. A ideia é proteger a atividade dos jornalistas de tentativas de espionagem ou mesmo resguardá-los em casos de processos por denúncias. Para Risen, porém, não há garantias de que essa iniciativa tenha, de fato, algum efeito prático.
“O governo quer colocar vários adendos ao texto. Tudo depende de como a versão final será escrita, algumas propostas são melhores do que outras, mas duvido que seja aprovada pelo Congresso em pouco tempo”, opina.
As perspectivas de Risen para o futuro não são as melhores, mas o jornalista não perde o otimismo. Segundo ele, a única resposta que a imprensa pode dar aos esforços de mantê-la em silêncio é “seguir em frente”. “Acho que a única resposta para jornalistas seja continuar investigando de forma agressiva as ações do governo. É única maneira de lidar com isso”.
“Tradicionalmente, os Estados Unidos são um modelo para o resto do mundo no que diz respeito à liberdade de imprensa, mas fico preocupado com a forma como a administração Obama tem lidado com todas essas ações ou que isso possa mandar uma mensagem ruim aos outros países: a mensagem de que não tem problema intimidar e reprimir a imprensa. Acho que esse é um exemplo ruim para o resto do mundo”, conclui Risen.
* Com supervisão de Vanessa Gonçalves





