"É sua mãe!"

"É sua mãe!"

Atualizado em 03/11/2008 às 12:11, por Nelson Varón Cadena.

O título acima é uma das ofensas menos contundentes na imprensa brasileira, em tempos de campanha eleitoral, no século XIX. Os jornais representavam partidos que se diziam liberais, conservadores, constitucionais ou republicanos e o seu público alvo era a elite que por sua vez almejava ser representada nas assembléias municipais, estaduais ou mesmo na Corte, num sistema de eleições indiretas. E era essa elite pensante, supostamente educada na Europa, ou nos melhores estabelecimentos de ensino no Brasil, que trocava insultos pelos jornais, acobertada pelo anonimato, estabelecendo uma relação de poder através de baixos instintos que supriam a argumentação, neste caso, tida como de menor eficiência. Desqualificava-se o oponente com palavras de baixíssimo calão, atribuindo-lhe a condição de veado, corno, ladrão, covarde.... Era essa classe política que chutava na canela para atingir a honra, os jornais como instrumento, que se dizia representante dos nobres ideais consagrados pela Revolução Francesa.

O contexto e a legislação
Isabel Lustosa no seu livro "Insultos Impressos" abordou o assunto, num contexto específico do período pré-independência, ou seja, entre 1821-1823, a obra leitura obrigatória para quem deseja compreender o papel da imprensa na transição política que resultou no "Fico" de Dom Pedro I. Mas, os insultos reproduzidos pela autora parecem, permitam-me o exagero, orações do Convento das Irmãs Salesianas se comparados com a virulência dos insultos do período pós-independência e mesmo da segunda metade do século XIX; situações em que se perde definitivamente a compostura e a linguagem se assemelha, ou supera um barraco de feira livre, com todo respeito pelos feirantes de boas maneiras.

Contextos diferentes explicam esta "evolução" no mau trato (e maltrato) ao adversário. No período pré-independência a legislação, fundamentada nos princípios da Revolução do Porto, estava sujeita a interpretação das cortes locais e o Brasil fazia essa transição da imprensa sob censura prévia para a imprensa livre, aos trancos e barrancos. Já no período pós-independência a liberdade de imprensa passou a ser um direito constitucional e mesmo com as restrições impostas através de portarias complementares, em tempos de disputa eleitoral escrevia-se sem amarras. Textos que eram identificados como "A Pedidos" ou "Correspondências", pagos, ou supostamente pagos por terceiros para dirimir responsabilidades, legado francês (Journal de Paris) que proliferou também na imprensa portuguesa sob a vinheta de "Comunicados" e no Brasil assimilamos no pior estilo.

Veneno puro
"Pede-se a certo moço que abstenha-se de pôr-se na esquina onde seu pai tem loja, a falar bestialmente das pessoas, por ser um cão desprezível, que tem relações com moleques... impostor, biltre namoricador... se não coibir-se mandarei que o capitão lhe esfregue as ventas com uma buceta, para ver se assim se encolhe essa língua suja e negra". Este texto publicado em "A Formiga", edição de 12/09/1869, é um exemplo da maledicência extrema que a seção "A Pedidos" revelava.

Mas é o alvo político que provocava os maiores insultos como este publicado no "O Rabecão", edição de 07/08/1847: "Pergunta-se ao maroto, descarado, ladrão, patife, sevandija e corno Manuel da Silva Ribeiro se dos muitos cavalos que furtou ainda lhe resta uma égua que a queira alugar?" Ou este outro publicado no jornal concorrente:" Peço a palavra em resposta as incongruentes garatujas estampadas no mulambo, ou trapo de mênstruo intitulado Rabecão: Não tremas porque não é nessa lata mas vil que as nádegas de um negro que enxovalho as minhas mãos... Não temes que eu conjure os homens do Serva para confundir-te infame hermafrodito, sevandija, punheta de enxurradas, maroto do cu arrombado?".

No mesmo estilo destemido e sem limites: " ... Responde Miserável lapuz... Retira-te desgraçado vai para o pasto de algum engenho comer capim e merda". Ou, então, este insulto contra Domingos Faria Machado: "Olha, Domingos, meu filho, não te metas em camisa de onze varas, deixa de ser gazeteiro... O chifre de teu pai me dizia toda vida, de ruim mouro nunca bom cristão". Ou, ainda, esta perola de "O Propulsor" contra "O Norte": "Gente imbecil, cretina por excelência; não fora o adiantamento da hora de que dispomos para a circulação de nosso jornal independente, saberíamos levá-la de roldão com todas as suas pornografias, próprias de cérebros atrofiados".

"Fino trato"
A 5 de fevereiro de 1870 o alvo de "A Formiga", já citado, era a classe conservadora:" O instrumento aviltante dos ridículos da hodierna força política precisa agradar e não acha outro meio senão desnaturando os fatos, cuspindo a infâmia e a peçonha, vírus dos répteis imundos". "Prosseguia atacando José Ramiro Das Chagas: "O enteado de cordéis, bacharel de borra, candidato taboqueado, desertou das colunas de "O Progresso" e foi meter-se nos esterquilínios de "O Critico". E fez bem, "Os vermes criaram-se e alimentam-se nos monturos. Os chacais nutrem-se de cadáveres em putrefação e as toupeiras só nas latrinas estão bem".

Mais uma provocação: "Pergunta-se ao infame detrator, que disse era melhor sair de joelhos aos pés de uma moça, do que com uma garrafa na boca, o que será melhor agora: Si sair com uma garrafa na boca ou si ser devasso, prevaricador, ladrão de caixas, pressepeiro, tido e havido por um dos tratantes e caloteiros desta cidade, e hoje capacho?".

Quem planta ventos...
Colhe tempestades. O fato é que a virulência da linguagem da seção "A Pedidos" dos jornais brasileiros, no século XIX, quase sempre teve o mesmo desfecho e não poderia ser diferente: agressões físicas, tentativas de assassinato e crimes de mando, empastelamento e destruição total das oficinas onde eram impressos os jornais. Os chefes políticos e também proprietários dos veículos de comunicação primeiro argumentavam, depois partiam para a injúria, as vezes calunia, o jornal como instrumento e finalmente para as chamadas vias de fato, identificados os autores dos escritos anônimos.O poder público servia esses propósitos através de suas forças policiais que se engajavam no conflito, ou se omitiam de suas responsabilidades.

E claro, o anonimato favorecia também a extorsão como o caso denunciado pelo "Óculo Mágico" em 31/09/1867: "Quem é mercenário, o que a seu respeito nada consta, ou aquele que munido de uma "Correspondência" vai ao proprietário da loja e dele exige a quantia de 50$ reis para não ser publicada?".