“É praticamente impossível um jornalista comentarista chegar à TV aberta”, diz Noriega

Maurício Noriega é um dos principais comentaristas esportivos do SporTV. Compõe o time, cada vez mais raro, dos que chegaram ao espaço privi

Atualizado em 27/05/2013 às 15:05, por Guilherme Sardas.


Crédito:Divulgação Maurício Noriega

legiado da análise após trabalho duro na reportagem esportiva. Traz o esporte no sangue. Seu pai, Luiz Noriega (1930-2012), é nome conhecido e exaltado por várias gerações do jornalismo.

Mediador de uma das mesas do "Seminário de Jornalismo Esportivo: Grandes Coberturas" [realizado pelo Instituto Internacional de Ciências Sociais-IICS, e que teve IMPRENSA como um de seus apoiadores, no último dia 20 de maio], “Nori”, como é chamado carinhosamente pelos colegas, falou sobre a função que desempenha.


Não deixou perguntas sem respostas, nem botou para escanteio a habilidade analítica que vem lhe diferenciando no comentário esportivo. Deixa claro que prefere o trabalho de jornalistas comentaristas ao dos ex-jogadores. "Eles atendem mais ao que eu vejo do jogo"


Afirma ainda ter consciência de que, hoje, ser comentarista de TV aberta é praticamente impossível para um jornalista de formação. “As TVs abertas trabalham mais com a grife. Importa mais onde o comentarista jogou do que aquilo que ele diz. Nesse sentido, na TV aberta, o ex-jogador sai ganhando. É praticamente impossível para um jornalista”, destaca.


No papo abaixo, ele fala de como chegou à função e dá dicas para colegas que queiram trilhar o mesmo caminho. Confira o papo na íntegra.


IMPRENSA – Antes de ser comentarista, você foi repórter. Lá atrás, já pensava em comentar futebol?

MAURÍCIO NORIEGA - Não posso dizer que aconteceu por acaso. Quando fui diretor de conteúdo do portal “Esporte Já” fazíamos transmissão de jogos por rádio e pela Internet. Fui comentarista em algumas transmissões, e alguns colegas de lá, como o Juarez Soares e o Tatá Muniz, falaram: “Você vai bem. Pode ser um caminho para você.” Talvez, por ser filho de narrador, sabia um pouco como era complicado trabalhar em TV. Mas, a partir dali, passei a pensar na ideia com mais carinho.


Existem formas para um jornalista se preparar para se tornar um bom comentarista, um bom analista tático?

O caminho é estudar. O futebol é mais simples que outras modalidades. Agora, acho muito complicado para um jornalista querer começar a carreira como comentarista. Tem que ser repórter antes, a função fundamental de nosso meio. E tem que assistir muitos jogos, treinos, conviver com o ambiente, perguntar muito para as pessoas que vieram antes. Se ele não for um bom repórter, dificilmente, será um bom comentarista. Isso, no caso de comentarista jornalista, o que é diferente de um ex-jogador ou ex-treinador.


Como você vê a atuação de comentaristas ex-atletas e ex-jogadores?

Não vejo como concorrentes. Eles não ocupam a vaga de ninguém. Nesse ponto, vai muito do gosto do cliente. Existem jornalistas comentaristas que são melhores que jogadores comentando, e vice-versa. Essa resposta tem que ser dada pelo próprio consumidor, ouvinte ou telespectador. Também não acho que basta que ela tenha sido um bom jogador de futebol para ser um bom comentarista. Pode ter sido um jogador de improviso, intuitivo. Cito aqui sem medo de ofender o Pelé, que foi o maior jogador de todos os tempos, mas não foi o maior comentarista de todos os tempos. Tem jogadores que foram muito piores que o Pelé e foram muito melhores como comentaristas.


Quais são seus comentaristas preferidos?

Gosto muito do Lédio Carmona, do Paulo Calçade e do Mauro Beting. Entre jogadores, gosto muito do Casagrande, do Júnior. Mas, tenho uma preferência por comentaristas jornalistas. Eles atendem mais ao que eu vejo do jogo. Fico mais satisfeito com comentaristas jornalistas.


Você vê a TV aberta como um espaço de menos liberdade crítica que a TV fechada?

Não vejo essa diferenciação. Nunca recebi nenhuma orientação para pegar mais leve no SporTV. O que existe é a coisa de ser respeitoso com aquele atleta que está lá. Você não vai me ouvir falar que o cara é “perna de pau”, que não sabe chutar. Acho um crime falar isso. Além disso, às vezes, ex-jogadores que pararam de jogar recentemente podem ter algum receio em criticar um ex-colega. Mas, acho que com o tempo isso vai acabando.


Ser comentarista oficial de TV aberta é um norte para sua carreira?

Honestamente, não penso nisso, porque é muito difícil. Para um jornalista brasileiro, hoje, ser comentarista de TV aberta é praticamente impossível, por uma questão de conceito das TVs abertas. As TVs abertas trabalham muito mais com o impacto, com a grife. Nesse sentido, na TV aberta, o ex-jogador sai ganhando. Importa mais onde ele jogou e não com o que ele diz. A TV por assinatura, sendo um jogador ou não, a preocupação é maior com o conteúdo, e não com que ele foi.