É possível se envolver com tema da cobertura sem prejudicar a pauta, dizem jornalistas
Jornalistas contam sobre o envolvimento pessoal em determinadas coberturas
Atualizado em 14/08/2014 às 14:08, por
Gabriela Ferigato.
Ao ler uma breve notícia no The New York Times sobre a morte de toda uma família no Kansas (EUA), o escritor Truman Capote decidiu ir até o local para investigar e escrever sobre o assunto. Quase seis anos depois, em 1965, a história foi publicada na revista The New Yorker .
Marco do chamado jornalismo literário, a intensa relação de Capote com as suas fontes, especificamente com um dos acusados, foi tópico de muitas discussões sobre os limites que o profissional respeitar durante uma reportagem.
Nos primeiros anos do curso de jornalismo é pregado aos alunos algumas “regras” básicas de conduta. Manter a isenção, o distanciamento e a imparcialidade diante dos fatos estão no topo da lista. Por vezes, de forma mais intensa, como foi o caso de Capote, em outros casos de maneira mais pontual, é difícil manter a distância em algumas ocasiões.
Em julho deste ano, durante a gravação de uma matéria sobre alunos de uma rede estadual em Santo André (SP) que não receberam o uniforme escolar, a repórter Ananda Apple, do “SPTV”, da Rede Globo, tirou as meias que usava para entregar a uma criança com frio. “Cheguei a dar minha própria meia para ela, porque eu tenho duas menininhas, sei o que é isso”, disse com a voz embargada.
Nos bastidores de algumas coberturas, outras jornalistas já passaram por situações semelhantes. Marilu Cabañas, da Rádio Brasil Atual, conta que durante a campanha “Criança no Lixo, Nunca Mais!”, promovida pelo Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef) em 2000, foi até um lixão em Santana de Parnaíba (SP) e conversou com uma mulher que tinha perdido a filha uma semana antes de sua visita. A menina havia sido esmagada por um caminhão de lixo.
“Eu fui até a prefeitura cobrar medidas. Essa matéria demorou quase dois anos, porque eu fiquei em cima até que eles acabassem com o lixão. A reportagem chegou às mãos de Lila Covas, ex-primeira dama na época, e ela fez com que o secretário de habitação construísse um conjunto habitacional. Além disso, o lixão foi retirado”, conta Marilu.
Crédito:acervo pessoal A jornalista Marilu Cabañas conta sobre uma cobertura em um lixão de São Paulo Mas o que marcou a jornalista foi a relação com Cíntia, uma das filhas dessa família que manteve contato. A repórter os visitava com frequência por causa da matéria, e, em um feriado de Páscoa, pensou em levar um ovo para a menina. “Fiquei em conflito. Como ficaria a questão da notícia? Não levei. Quando cheguei lá, ela havia guardado um brinquedo que veio em um ovo que ganhou para mim. Essa ideia de limite é bobagem. Essa experiência me provou isso”, conta.
Em outros casos, a cobertura de uma reportagem foi o estopim para o envolvimento em um projeto social. Há seis anos, após realizar uma matéria sobre proteção animal para o “Globo Repórter”, a jornalista Rosane Marchetti, do Grupo RBS, se tornou ainda mais defensora da causa.
“Claro que sempre gostei de animais, mas foi depois de fazer o programa que vi que realmente faltam condições. Observei que muitas vezes os próprios funcionários de Centros de Resgate e Tratamento de animais tiravam dinheiro do próprio bolso para comprar alimento. Da verba destinada ao Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama), 70% vai para fiscalização e apenas 30% para recuperação”, contextualiza.
Recentemente um bicho-preguiça viajou pelo país na traseira de um caminhão e o motorista só percebeu sua presença no Rio Grande do Sul. Biólogos da região decidiram que ele deveria ser devolvido ao seu habitat natural. E o Tocantins foi o local escolhido. Sid, como foi batizado, só pôde partir por meio de uma vaquinha feita por Rosane e mais dois veterinários, sendo que ela contribuiu com metade do valor.
Crédito:acervo pessoal A jornalista Rosane Marchetti contribuiu com metade da vaquinha para a preguiça Sid retornar ao seu habitat natural Há trinta anos, Rosane fez uma reportagem na Casa do Menino Jesus de Praga, no Rio Grande do Sul, que ajuda jovens em situação vegetativa. Desde então, contribui mensalmente com a instituição.
“A gente tem que contar um fato, mas aquela coisa de dizer que não somos responsáveis por fazer mudanças é errada. Temos que mostrar realidades que possam ser mudadas. Essa postura de ser apenas um contador de fatos era muito cômoda. Hoje o jornalista faz parte da realidade contada e está mais integrado”, diz.
Jornalista x Fonte
Para a repórter Silvia Bessa, do jornal Diário de Pernambuco , o que não pode acontecer é a relação entre fonte e jornalista comprometer a qualidade da informação. Segundo ela, é possível que o profissional crie artifícios para ajudar as pessoas sem que haja essa interferência.
Crédito:acervo pessoal Durante suas viagens pelo Sertão, a jornalista Silvia Bessa impôs algumas regras sobre envolvimento com fontes “Durante as minhas viagens pelo Sertão, eu mesma me impus regras. Geralmente levo roupa, comida e, se quiser dar algo ao entrevistado necessitado, dou depois da entrevista, após o fim do trabalho. Acho que esse tipo de conduta mantém uma relação maior de independência entre o jornalista e o entrevistado. A relação de poder entre nós profissionais e cidadãos muito pobres já existe pela natureza das classes sociais. Não precisamos aumentá-la”, ressalta.
Mas, como tudo na vida, há exceções. Ao passar em frente a uma casa na Bahia que possuía captador de energia solar e que serviria como energia alternativa, Silvia resolveu parar com sua equipe para fazer uma reportagem. Durante a entrevista com a família, a filha do casal escondeu o caderno da repórter.
“Constrangido, o pai pediu que ela pegasse o caderninho. Ela, sem jeito e com os olhos baixos, o devolveu. Quando vi o caderno (nem lembrava como era), notei que tinha uma capa infantil. O pai, então, me disse: “Acho que ela nunca viu um desses”. Imagine o nó na garganta. Arranquei as folhas já escritas e dei a ela o caderno. A entrevista com o pai não tinha acabado”, conta.
Marco do chamado jornalismo literário, a intensa relação de Capote com as suas fontes, especificamente com um dos acusados, foi tópico de muitas discussões sobre os limites que o profissional respeitar durante uma reportagem.
Nos primeiros anos do curso de jornalismo é pregado aos alunos algumas “regras” básicas de conduta. Manter a isenção, o distanciamento e a imparcialidade diante dos fatos estão no topo da lista. Por vezes, de forma mais intensa, como foi o caso de Capote, em outros casos de maneira mais pontual, é difícil manter a distância em algumas ocasiões.
Em julho deste ano, durante a gravação de uma matéria sobre alunos de uma rede estadual em Santo André (SP) que não receberam o uniforme escolar, a repórter Ananda Apple, do “SPTV”, da Rede Globo, tirou as meias que usava para entregar a uma criança com frio. “Cheguei a dar minha própria meia para ela, porque eu tenho duas menininhas, sei o que é isso”, disse com a voz embargada.
Nos bastidores de algumas coberturas, outras jornalistas já passaram por situações semelhantes. Marilu Cabañas, da Rádio Brasil Atual, conta que durante a campanha “Criança no Lixo, Nunca Mais!”, promovida pelo Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef) em 2000, foi até um lixão em Santana de Parnaíba (SP) e conversou com uma mulher que tinha perdido a filha uma semana antes de sua visita. A menina havia sido esmagada por um caminhão de lixo.
“Eu fui até a prefeitura cobrar medidas. Essa matéria demorou quase dois anos, porque eu fiquei em cima até que eles acabassem com o lixão. A reportagem chegou às mãos de Lila Covas, ex-primeira dama na época, e ela fez com que o secretário de habitação construísse um conjunto habitacional. Além disso, o lixão foi retirado”, conta Marilu.
Crédito:acervo pessoal A jornalista Marilu Cabañas conta sobre uma cobertura em um lixão de São Paulo Mas o que marcou a jornalista foi a relação com Cíntia, uma das filhas dessa família que manteve contato. A repórter os visitava com frequência por causa da matéria, e, em um feriado de Páscoa, pensou em levar um ovo para a menina. “Fiquei em conflito. Como ficaria a questão da notícia? Não levei. Quando cheguei lá, ela havia guardado um brinquedo que veio em um ovo que ganhou para mim. Essa ideia de limite é bobagem. Essa experiência me provou isso”, conta.
Em outros casos, a cobertura de uma reportagem foi o estopim para o envolvimento em um projeto social. Há seis anos, após realizar uma matéria sobre proteção animal para o “Globo Repórter”, a jornalista Rosane Marchetti, do Grupo RBS, se tornou ainda mais defensora da causa.
“Claro que sempre gostei de animais, mas foi depois de fazer o programa que vi que realmente faltam condições. Observei que muitas vezes os próprios funcionários de Centros de Resgate e Tratamento de animais tiravam dinheiro do próprio bolso para comprar alimento. Da verba destinada ao Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama), 70% vai para fiscalização e apenas 30% para recuperação”, contextualiza.
Recentemente um bicho-preguiça viajou pelo país na traseira de um caminhão e o motorista só percebeu sua presença no Rio Grande do Sul. Biólogos da região decidiram que ele deveria ser devolvido ao seu habitat natural. E o Tocantins foi o local escolhido. Sid, como foi batizado, só pôde partir por meio de uma vaquinha feita por Rosane e mais dois veterinários, sendo que ela contribuiu com metade do valor.
Crédito:acervo pessoal A jornalista Rosane Marchetti contribuiu com metade da vaquinha para a preguiça Sid retornar ao seu habitat natural Há trinta anos, Rosane fez uma reportagem na Casa do Menino Jesus de Praga, no Rio Grande do Sul, que ajuda jovens em situação vegetativa. Desde então, contribui mensalmente com a instituição.
“A gente tem que contar um fato, mas aquela coisa de dizer que não somos responsáveis por fazer mudanças é errada. Temos que mostrar realidades que possam ser mudadas. Essa postura de ser apenas um contador de fatos era muito cômoda. Hoje o jornalista faz parte da realidade contada e está mais integrado”, diz.
Jornalista x Fonte
Para a repórter Silvia Bessa, do jornal Diário de Pernambuco , o que não pode acontecer é a relação entre fonte e jornalista comprometer a qualidade da informação. Segundo ela, é possível que o profissional crie artifícios para ajudar as pessoas sem que haja essa interferência.
Crédito:acervo pessoal Durante suas viagens pelo Sertão, a jornalista Silvia Bessa impôs algumas regras sobre envolvimento com fontes “Durante as minhas viagens pelo Sertão, eu mesma me impus regras. Geralmente levo roupa, comida e, se quiser dar algo ao entrevistado necessitado, dou depois da entrevista, após o fim do trabalho. Acho que esse tipo de conduta mantém uma relação maior de independência entre o jornalista e o entrevistado. A relação de poder entre nós profissionais e cidadãos muito pobres já existe pela natureza das classes sociais. Não precisamos aumentá-la”, ressalta.
Mas, como tudo na vida, há exceções. Ao passar em frente a uma casa na Bahia que possuía captador de energia solar e que serviria como energia alternativa, Silvia resolveu parar com sua equipe para fazer uma reportagem. Durante a entrevista com a família, a filha do casal escondeu o caderno da repórter.
“Constrangido, o pai pediu que ela pegasse o caderninho. Ela, sem jeito e com os olhos baixos, o devolveu. Quando vi o caderno (nem lembrava como era), notei que tinha uma capa infantil. O pai, então, me disse: “Acho que ela nunca viu um desses”. Imagine o nó na garganta. Arranquei as folhas já escritas e dei a ela o caderno. A entrevista com o pai não tinha acabado”, conta.





