É possível fazer cobertura sem expor o repórter ao perigo, diz presidente da Abraji

As recentes manifestações do País deixaram números preocupantes em relação à segurança e liberdade de atuação de profissionais da imprensa.

Atualizado em 22/07/2013 às 17:07, por Guilherme Sardas.

Crédito:Abraji


Segundo levantamento da Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo, informações de sindicatos, redações e da ONG Repórteres Sem Fronteiras, foram pelo menos 53 casos de violação contra jornalistas.

Desses, 34 são referentes à agressão, hostilidade ou ameaça por parte da polícia, seis prisões (com duração entre minutos e três dias),e 12 ocorrências de autoria dos manifestantes. Quase metade dos casos ocorreram em São Paulo. O veículo com mais vítimas foi a Folha de S.Paulo , com sete vítimas.

Na entrevista abaixo, o atual presidente da Abraji fala sobre como a entidade entendeu e reagiu a este cenário. “É possível fazer boas coberturas de uma forma que o repórter esteja o mínimo exposto possível”, garante. Confirma a entrevista na íntegra.

Como você viu as hostilidades aos profissionais da imprensa por parte de manifestantes?
MARCELO MOREIRA – Muito do que os manifestantes pedem nas ruas é resultado de reportagens que foram levadas ao público graças ao trabalho de jornalistas que se empenharam em descobrir coisas erradas. Se a gente olhar a pauta de reivindicações, ela é parecida com a pauta de reportagens que já foram publicadas. As pessoas vão estar amanhã nas ruas protestando contra a utilização de aviões da FAB por representantes do Senado e do Congresso por conta do trabalho da imprensa. Quando o jornalista que exerce esse papel é vítima de violência por parte do manifestante, isso demonstra que o manifestante não está do lado dele, do lado da sociedade, de um país melhor.

Para a Abraji, a maioria dos ataques da PM contra jornalistas foi intencional ou não intencional?
No começo, não me parece que os jornalistas eram alvos. As primeiras notícias que recebemos é de que jornalistas estavam trabalhando na cobertura e que, por acaso, eram atingidos por balas borracha. Mas, depois, aconteceram casos de prisões de jornalistas. São duas situações de risco que o repórter está sujeito a correr. Por isso, já fizemos treinamentos para jornalistas em diversas situações, inclusive manifestações. Quando os jornalistas estão cobrindo manifestações, ele pode estar vulnerável e esses dois tipos de violência. A acidental e a intencional. A acidental é menos grave: a gente tem que se precaver com medidas de proteção: capacetes, bonés de plástico, máscaras de gás por conta do gás lacrimogênio, e saber se posicionar dentro das manifestações para ficar na linha cruzada. Agora, quando você é alvo,você tem que planejar mais: tem que planejar até como ir às manifestações.Dependendo da situação, talvez, a melhor forma seja cobrir de uma forma mais afastada para evitar ser alvo.

Que tipo de preparação esse novo cenário exige em relação a essa hostilidade?
Este tipo de cobertura é inédito nesse volume. Ninguém imaginava que pudéssemos passar por uma revolta popular tão grande. A gente já tem um protocolo de segurança que já é aplicado no Brasil e fora do Brasil. Já mandamos jornalistas cobrirem revoltas na Primavera Árabe, entre outras manifestações. O que é inédito agora é o volume. Vemos centenas de equipes fazendo cobertura de riscos. A Abraji fez um levantamento, até semana passada, tinham já 54 casos de registros de agressões a jornalistas. A gente fez um resumo bem detalhado de cada caso, não fiz essa separação de quantos foram intencionais. O que tenho aqui é que São Paulo teve mais casos de acidentes. Se você for pegar o número de jornalistas assassinados em 2003, você vai ver que a maioria foi no Iraque. No ano passado, é na Síria. Então, é natural que haja esse crescimento. Felizmente, não tivemos nenhuma morte.

O que é indicado?
Primeiro compromisso do jornalista é com a verdade. A missão número um é informar. Informar é um desafio grande nesse contexto porque compromete a segurança do repórter. O dilema é cumprir da melhor forma possível a missão de informar, sem expor a vida do jornalista. O risco é inerente à profissão? Sim, em vários casos, sim. Agora, compensa o risco? Tem que ter em mente que nenhuma ida vale uma reportagem. Se você consegue incutir isso dentro da redação, é possível fazer boas coberturas de uma forma que o repórter esteja o mínimo exposto possível.

Há algum planejamento no contexto das manifestações?
Sim, a Abraji faz isso pelo menos há oitos anos. Por conta das manifestações, o que estamos fazendo nesse momento é que criamos dentro da Abraji um trabalho focado na divulgação de alertas de segurança. Já existem regras internacionais no site da Abraji, com dicas bem práticas, como o efeito de máscaras de gás, o efeito negativo ou positivo do vinagre. O vinagre não ajuda em nada, diferentemente do que se imagina. Além disso, estamos monitorando caso a caso, e emitindo notas de repúdio, e repassando as normas padrões que vêm sendo repassadas para o mundo todo.