"É o primeiro grande desafio do aluno", diz jornalista sobre trabalho de conclusão de curso

"E o TCC?". A pergunta pode demorar, parecer que está longe, mas chega para todos os alunos em algum momento, especialmente no último ano de faculdade.

Atualizado em 06/02/2014 às 16:02, por Jéssica Oliveira,  Alana Rodrigues* e  Lucas Carvalho*.

pode demorar, parecer que está longe, mas chega para todos os alunos em algum momento, especialmente no último ano de faculdade. Quem já passou pelo Trabalho de Conclusão de Curso (TCC) lembra as incontáveis vezes a que respondeu a essa questão, em todos os ambientes: familiar, profissional e social. Nessa fase, geralmente, o aluno faz uma série de escolhas — tema, formato, opção de sozinho ou em grupo, orientador, organização de tempo e prioridades — e passa por diversas etapas: pesquisa, apuração, edição e apresentação.

Crédito:SXC Alunos precisam ter cronograma para acompanhar ritmo do TCC
"É o primeiro grande desafio do aluno e o professor tem que ter a sensibilidade de perceber e saber lidar com isso. O título não dá toda a condição ao professor de orientar, é preciso uma capacidade técnico, acadêmica e emocional", defende a jornalista e doutoranda em comunicação Ana Paula Sampaio Guedes.

Ex-professora e coordenadora de TCCs do curso de jornalismo do Centro Universitário Jorge Amado (Unijorge), na Bahia, ela elaborou o novo projeto dos trabalhos finais, que prevê essa etapa de forma multimídia e híbrida, com cada professor co-orientando em sua área.

À IMPRENSA, ela falou sobre a importância da organização e da vontade do aluno de realizar o TCC, deu dicas de como escolher o orientador e manter com ele uma boa relação, comentou as principais dificuldades nessa fase da graduação. Na galeria, sete alunos em diferentes fases do TCC contam suas experiências.
IMPRENSA - O estudante deve encarar o TCC como um laboratório, um momento para testar mídias e temas diferentes do seu interesse pessoal ou apostar no que, eventualmente, esteja mais acostumado? Ana Guedes - Sempre digo ao aluno: faça o que você quiser fazer, traga o seu desejo. Se a gente tolhe o aluno no início, tolhe a paixão e aí não tem TCC. Ele precisa ter vontade de fazer. Se a gente coloca limites, limita as escolhas. Claro que vamos dizer se é possível, conversar para tirar dele o que "ele" quer, não o que "a gente" quer. É preciso dar a liberdade ao aluno. No começo o aluno pode não saber nada do tema, mas no final está ensinando ao professor. É sempre desafiador. O professor precisa estar lado a lado para fazer um bom trabalho no final.

Como o estudante pode escolher um bom orientador? Nesse formato mais tradicional, em que o estudante escolhe o orientador, o ideal é pensar a área de atuação do professor. Facilita muito quando ele entende o formato do trabalho que o aluno propõe, porque ele tem uma bibliografia interessante, sabe a lógica de produção, de pensar e de executar... E sobre o tema, o orientador praticamente aprende junto com o aluno. Outra coisa é conversar com pessoas que foram orientadas por aquele professor, perguntar como é o método de trabalho dele.

É importante ver se o professor combina com seu ritmo, se ele trabalha com calendário, prazos elásticos ou curtos, qual o grau de exigência. Pela minha experiência, os melhores professores são os mais exigentes. Às vezes, os alunos ficam com até com medo. Ótimo! Porque fulano vai te levar no limite possível de aprendizagem. Às vezes, o aluno precisa que o professor exija muito, senão o aluno morre na praia. Não é pela dificuldade do TCC, mas por não aguentar trabalhar sob pressão.

E como deve ser essa relação aluno-orientador?
Acho bacana ter periodicidade. No caso da graduação, é importante o encontro semanal. É importante porque é com esse prazo que o aluno vai trabalhar para cumprir um determinado estudo. E isso dá ritmo. Ele precisa atender a agenda e o cronograma combinados com o orientador, para receber direção ou o barco vai à deriva, entra no mar e se perde. Mas o mais importante no TCC é o aluno, não o professor. O professor só direciona, o aluno precisa ter sagacidade e vontade de fazer um bom trabalho. O melhor aluno é aquele que é curioso, é o que move o jornalista. Mas o perfil do aluno hoje é de um indivíduo acomodado, que espera o professor fazer. A gente já percebe um bom TCC na elaboração do projeto, pois vê se ele partiu de um aluno curioso, inconformado, auto-exigente e que aceita desafios.
Quais são as principais dificuldades que os estudantes costumam ter durante o TCC? Você tem dicas para lidar com elas? Eles não estão habituados a cumprir prazos e lidar com cobranças, e isso aumenta o nível de tensão. Quando é um tema pouco explorado, ele tem dificuldade de conseguir conseguir material humano e de pesquisa, como fontes oficiais, personagens... Por exemplo, muitas vezes os órgãos públicos percebem o TCC como algo que não tem a mesma relevância que a imprensa tem, e isso complica muito para o aluno que precisa de uma determinada fonte. E não é nem por falta de tato, traquejo, comunicação, é porque eles não têm uma guarida de uma instituição.

Outra dificuldade é conciliar a vida pessoal com o TCC. Os alunos são filhos, são namorados, netos, amigos e essas demandas acabam ficando em segundo plano. Outra questão preocupante são os problemas internos quando os alunos fazem o TCC em grupo. As divergências, os problemas, se refletem absolutamente no TCC. A qualidade cai. Até brinco que o TCC é um casamento e, no último semestre, não tem direito a divórcio. É preciso ter dedicação e paixão. Quando esse aluno perde a paixão, o resultado é ruim, medíocre, abaixo do que ele pode dar. Nesse sentido, digo que o melhor é escolher pessoas com afinidade intelectual, emocional, de ponto de vista ou o TCC vira ringue.
O TCC é importante para o futuro jornalista? Pode abrir portas no mercado de trabalho? Muito. Já orientei TCCs que viraram quadros de TV, outro que se tornou programa de uma secretaria para web, TCCs que viraram livros e foram publicados. Comunicação é um trabalho de exposição, não é para se esconder. Quando a gente faz qualquer coisa é para mostrar ao público. O aluno tem que produzir para ser visto durante todo o curso. O TCC é o final dessa produção. E nesse tempo o aluno vai aprendendo a receber críticas e lidar com elas.
*Com supervisão de Vanessa Gonçalves
Sobre o especial De segunda-feira (3/2) até sexta (7/2), IMPRENSA apresenta um especial para futuros estudantes de jornalismo, alunos e recém-formados. A série está dividida em cinco partes: , , i , o ano de TCC e o papel da pós-graduação na profissão. Ouvimos alunos, professores, recrutadores e profissionais de mercado do Brasil inteiro. A primeira pode ser lida , a segunda , a terceira .