E foi um jornalista que nos devolveu Cartola

E foi um jornalista que nos devolveu Cartola

Atualizado em 30/11/2010 às 20:11, por Thaís Naldoni.

Nesta terça-feira (30/11), a música brasileira lembra os 30 anos de falecimento de Angenor de Oliveira, o cantor e compositor Cartola. A mim, parece estranho esse número, afinal, tenho 30 anos e mesmo sem ter tido tempo de ver Cartola em ação, sei de cor e salteado todas as suas músicas. E sei de muita gente que ama as composições de um dos melhores sambistas de que o Brasil já teve notícia, tendo nascido anos depois de sua morte... isso é o que chamamos de "legado".
Então, neste dia em que é lembrado o mestre Cartola, ouço aqui na redação de IMPRENSA que Luan Santana prepara sua "biografia" e que Fiuk acaba de lançar a sua. Sinceramente, penso: como assim, biografia? O que, pelo amor dos céus, meninos - sim, meninos - de no máximo 20 anos de idade têm de tão interessante em sua "longa" vida que renda uma biografia? Ah, claro, Geisy Arruda também lançou a sua.
Essa sequência de "absurdos literários" (por assim dizer), a meu ver, são - em parte - responsabilidade da mídia. Nada contra os jovens talentos. É importante que eles sejam fomentados em todas as áreas, mas a imprensa é responsável pelo certo "endeusamento" atribuído a algumas celebridades, quando faz parecer que seu passeio na praia ou compras no supermercado são fatos surpreendentes. Quantas e quantas vezes lemos grandes chamadas que dizem algo como: "Fulana de tal come milho na praia". Se o ditado "água mole em pedra dura tanto bate até que fura" é verdadeiro, o leitor acaba achando mesmo que situações triviais, quando feitas por pessoas com proeminência na mídia, são espetaculares. Ao ponto até de o próprio foco da matéria acreditar, e resolver compilar em livro seus grandes feitos.
Deu saudade de quando a imprensa trazia em si uma pitada de poesia. No caso de Cartola, por exemplo, depois de ter estourado como compositor nas vozes de Araci de Almeida, Carmen Miranda, Francisco Alves, Mário Reis e Silvio Caldas na década de 30, passou toda a década de 40 sumido do mundo da música. Até que nos anos 50, em 1956, um jornalista o "resgatou".
Sérgio Porto, o Stanislaw Ponte Preta, encontrou Cartola lavando carros em um estacionamento no Rio de Janeiro (RJ). Ficou tão incomodado em ver aquele grande compositor longe do exercício de seu talento e vivendo na miséria, que resolveu ajudá-lo. Usou a influência que tinha na imprensa nacional e passou a divulgar que o havia reencontrado. Acionou seus contatos, fontes e colegas e o levou a programas de rádio. Depois, o incentivou a criar novas canções.
Dali para frente, Cartola renasceu. Teve suas músicas gravadas por diversos novos intérpretes até que, aos 66 anos, gravou seu primeiro disco e imortalizou sua voz.
Está aí um dos poderes da imprensa, dos comunicadores, dos jornalistas. Levar a conhecimento público trabalhos, iniciativas, pessoas, talentos. Uso o espaço como um agradecimento a Sérgio Porto por nos ter trazido Cartola de volta. E hoje, mesmo 30 anos depois de sua morte, ele ainda não foi embora. E, por sorte de todos nós, não há de ir.