E a Amazônia vai sumindo ao roncar das motosserras...
E a Amazônia vai sumindo ao roncar das motosserras...
Há momentos em que a gente tem mesmo que se irritar, chutar o pau da barraca, como acentua a expressão do povo. Um deles, e que se repete periodicamente, diz respeito à divulgação das estatísticas, oficiais ou não, sobre o desmatamento da Amazônia e suas equivocadas e parciais interpretações.
As manchetes dos jornais proclamavam pornograficamente nesta quarta-feira (05/08/2009) que o desmate na Amazônia havia se reduzido substancialmente nos últimos 11 meses - agosto de 2008 a junho de 2009 (55% em relação ao mesmo período de 2007-2008) e os comentários ouvidos aqui e acolá eram muitas vezes de satisfação ou de conforto.
"Puxa, o Governo já controlou a situação", dizia um otimista inveterado, daqueles que acham que o PAC é a salvação da lavoura. "Quero ver se vão continuar colocando a culpa no agronegócio", rosnava outro, fazendo coro com a bancada ruralista. E um terceiro (não consegui escutar todos os comentários de tão nervoso que estava!), mais desconfiado, inquiria em voz alta, desconfiado mas não convicto: "estes dados do INPE são confiáveis?".
Não existe desmatamento que se possa comemorar, muito menos quando ele equivale, como o de agora, a quase 13 mil quilômetros quadrados, um desmatamento dramático igual à metade do Estado de Alagoas.
O fato de estes dados indicarem que contemplamos a menor taxa de desmatamento dos últimos 20 anos só serve para auto-elogio das autoridades porque, na prática, eles são assustadores, como reconhece o próprio ministro Carlos Minc. Ele, aliás como ambientalista da velha guarda e agora porta-voz ambiental do Lula, se vê sempre num dilema: dar gritos de alegria para levantar a bola do Governo ou chorar copiosamente porque, do jeito que a coisa vai, irá faltar floresta lá pra frente.
O importante é que a sociedade e a imprensa não se tornem reféns da interpretação que alguns arautos falsos da sustentabilidade (que freqüentam inclusive a mídia brasileira) andam fazendo do nosso "esforço ambientalista oficial" porque qualquer que sejam os dados eles mostram a nossa incompetência para brecar o desmatamento. A floresta vai se desmanchando ao roncar das motosserras, ao barulho surdo das patas dos bois e à fome da soja que chega rapidamente para ocupar a terra devastada.
A política ambiental brasileira é predadora porque está comprometida com um modelo de desenvolvimento que é insustentável e que privilegia antes o progresso (???) do que o meio ambiente, antes o lucro dos investidores do que a qualidade de vida dos cidadãos. Na verdade, ela está absolutamente sintonizada com o paradigma do desenvolvimento sustentável (quanta hipocrisia!) que, no fundo, utiliza indicadores como o PIB e outros menos votados, bem ao gosto dos organismos internacionais, para justificar o nosso crescimento (???) e alavancar votos em períodos pré-eleitorais. Uma perspectiva ultrapassada que insiste em ignorar que os países emergentes (sobretudo os que integram os Brics, como nós) estão contribuindo cada vez mais para o agravamento do efeito estufa e que, a exemplo das nações ditas hegemônicas, todos nós temos que ajudar a pagar a conta ambiental.
O risco de continuarmos trabalhando com esta visão de curto prazo (11 meses não significam nada para a história do planeta) é que esse olhar estreito, focado no presente, nos impede de vislumbrar claramente o futuro. E ele será tenebroso, se a cada dois anos um Estado de Alagoas cheinho de floresta, de bio e sociodiversidade, estiver indo literalmente para o ralo.
O discurso continua se sobrepondo à realidade porque, no fundo, governo e oposição (que tem se alternado na omissão odiosa em relação ao meio ambiente) estão com os olhos e os bolsos votados para as eleições de 2010 e não para a catástrofe que se avizinha inevitável em 2050 ou um pouco mais. E não se trata efetivamente de uma teoria da conspiração porque a contabilidade ambiental não aceita devaneios: ao ritmo de 13 mil quilômetros quadrados de desmate anuais, não teremos nada a comemorar daqui a 40 anos. Talvez nos desesperemos antes disso porque, com este ritmo, o solo e água também terão virado poeira e vapor bem antes desta data.
Estamos assistindo a uma degradação sem precedentes e que só é aceitável na fala das autoridades e daqueles que fingem não enxergar o problema (madeireiros, pecuaristas, exportadores de soja, de cana, agroquímicas, mineradoras etc) porque ele escancara a insustentabilidade de seus negócios e a sua irresponsabilidade em relação às futuras gerações de brasileiros.
Estamos consumindo cada vez mais energia, desperdiçando cada vez mais água, emporcalhando cada vez mais o solo e o ar e sobretudo contribuindo para disseminar as chamadas monoculturas da mente. Monoculturas da mente que estão comprometidas com uma visão transgênica, avessa à diversidade, à pluralidade e que legitima monopólios de sementes, a solução química e agora medicamentosa, como temos assistido no episódio da gripe suína.
A falta de compromisso com o interesse público nesse caso é patente e não pode permanecer mascarada apenas porque, pontualmente, alguns dados, algumas estatísticas são divulgadas para nos seduzir. É fundamental olhar além da notícia, além dos números, além dos discursos de autoridades porque a verdade não costuma estar transparente e exige espírito investigativo. Sobretudo quando muitos a desejam esconder.
Aqueles que vêem os dados agora divulgados e começam a imaginar que caminhamos para uma redução progressiva do desmatamento estão equivocados porque a trajetória do desmatamento ao longo dos anos indica que temos idas e vindas o tempo todo, ao sabor do preço das commodities, da competência ou não da fiscalização e de governantes e empresários que tenham ou não vontade política para exigir respeito à natureza. E eles continuam em falta, apesar das bravatas e das falas mansas de ministros e executivos de negócios.
Alguns Estados continuam desmatando escandalosamente e nada tem ficado impune à ação dos predadores que andam investindo sistematicamente no marketing verde, patrocinando o processo sujo de limpeza de imagem.
Cláudio Ângelo , editor de Ciência da Folha de S. Paulo, em análise publicada neste jornal na quarta-feira (05/08/2009), contesta alguns dados divulgados pelo INPE e acrescenta uma outra questão: há uma nova geografia do desmatamento e ele agora se concentra no coração do Pará e do Maranhão, onde o combate é mais difícil.
A situação pode se complicar ainda mais, se novas estradas, já prometidas pelo Governo, forem efetivamente implantadas na Amazônia sem qualquer controle porque elas, tradicionalmente, têm sido condutoras da devastação, da ocupação desordenada, atraindo não apenas pessoas humildes que buscam uma alternativa para sua desesperança, mas aventureiros gananciosos financiados por empresários sem escrúpulos.
Um país que não consegue frear a corrupção nas casas do Congresso, que busca blindar políticos que confundem, vergonhosamente, o interesse público e privado, que vê ex-presidente cassado rugindo em debate no Senado como se fosse o paladino da ética, tem poucas chances de proteger a Amazônia.
As motosserras só irão se calar quando a sociedade, esclarecida e indignada, der um basta a esta agressão brutal ao nosso patrimônio cultural e à nossa biodiversidade.
Só teremos chance, se tivermos ainda a capacidade de nos indignarmos com a acomodação de políticos e da imprensa que reproduzem números e estatísticas, fazendo mágicas com porcentagens sem sentido e sensacionalismo com manchetes vazias.
Falemos a verdade e encaremos de frente o problema: não é o desmatamento que está diminuindo, é a própria Amazônia a um ritmo acelerado como são todos os ritmos da sociedade moderna, que costuma ser injusta e não democrática porque pautada pelos que já têm poder político e econômico e se lambuzam, vergonhosamente, com o dinheiro público.
Mais metade de um Estado de Alagoas de floresta já se foi. Quantas mais teremos que perder antes de tomarmos vergonha na cara?
Não choremos pela Amazônia, briguemos por ela. Cada árvore que cai não deve nos provocar lágrimas, mas gritos de revolta. Que cada um de nós se inspire em Chico Mendes e na irmã Dorothy, mártires em defesa da floresta. É preciso resistir. Sempre.






