Dois tapas no estômago de um comunicador

Dois tapas no estômago de um comunicador

Atualizado em 05/11/2009 às 16:11, por Lucia Faria.

Dois documentários divulgados por minha agência nos últimos tempos, ambos produzidos pelo cliente Prodigo Films, me incomodaram bastante. Não pela qualidade estética, óbvio, pois são realmente muito bons. Mas pela abordagem de temáticas tão entranhadas na cidade de São Paulo e que refletem a desordem social com a qual temos convivido. O primeiro foi Motoboys_Vida Loca, de Caíto Ortiz, e bem recentemente Pixo. Este último, dirigido pelo fotógrafo João Wainer e o irmão Roberto T. Oliveira, da produtora Sindicato Paralelo, acaba de ser exibido na Mostra Internacional de Cinema de São Paulo, com a plateia lotada de pichadores.

Incomodou por vários motivos. Faço parte da turma que acha pichação vandalismo e, jamais, manifestação artística. A cidade já tão maltratada pelo poder público não precisava ficar ainda mais feia e degradada. Portanto, entro na sala de cinema com meus pré-conceitos aflorados. De cara, antipatizo com aquela turma. Dez minutos depois começam a ruir minhas teses. Surgem na tela jovens alijados dos seus direitos básicos de acesso à educação, diversão e cultura. A maioria deixa claro que quer chamar atenção e encontra na pichação uma forma de se divertir e também protestar. Um deles, analfabeto, só sabe ler as letras estampadas nos muros da cidade. Ele entende os códigos de sua tribo, como se ainda estivéssemos na pré-história. Vale a pergunta: como um jovem ainda pode ser analfabeto na quarta maior cidade do mundo? Não dá para acreditar.

Na saída do cinema, lá estão eles dando entrevista para jornalistas e virando celebridade por algum tempo. O mocinho que substituiu os calmantes pelo spray também está lá, demonstrando que a turma o acolheu exatamente pelo seu desajuste.

Na época da divulgação de Motoboys tive a mesma sensação. Minha raiva por boa parte da categoria se transformou em outra coisa que não sei definir. Seria compaixão? Que nome dar? Continuo a xingá-los na rua - e eles a mim - mas na hora da raiva penso em tudo o que ouvi naquele documentário. Tento entender.

E o que tem tudo isso a ver com a comunicação corporativa, tema desta coluna semanal? Aparentemente nada. No fundo, tudo. Como comunicadores temos de rasgar preconceitos, ouvir o outro lado, entender o funcionamento da teia urbana. Precisamos ler todas as revistas possíveis, abrir os ouvidos para gêneros musicais que não gostamos, conhecer novos costumes. Quem olha apenas para o seu umbigo e para os posts dos amigos no Facebook não pode ser chamado de comunicador.