Documentário de Geneton Moraes Neto revela o lado humano da derrota na Copa de 50
No próximo domingo (3/11), vai ao ar, na GloboNews, o documentário “Dossiê 50: Comício a Favor dos Náufragos”, do jornalista Geneton Moraes
Atualizado em 01/11/2013 às 13:11, por
Vanessa Gonçalves.
Neto. O filme, traz depoimentos dos 11 jogadores titulares da Seleção Brasileira que perdeu a final da Copa de 1950 para o Uruguai, em pleno Maracanã, no Rio de Janeiro (RJ). Além disso, há uma entrevista com Alcides Ghiggia, autor do gol que tirou das mãos dos brasileiros a primeira taça do mundo.
IMPRENSA participou da pré-estreia do documentário em apresentação realizada no Museu do Futebol, em São Paulo (SP), no dia 19 de outubro, e pôde conferir que, mesmo para os leigos, a obra de Moraes Neto traz uma discussão sobre como o país, através da derrota, aprendeu a superar o chamado “complexo de vira-latas”, para se tornar o maior campeão do futebol a partir de 1958.
Crédito:Globo News/ Divulgação Jornalista retrata o drama dos jogadores após a derrota no Maracanã
Além do filme, na ocasião, o jornalista lançou a segunda edição do livro “Dossiê 50”, que traz as entrevistas completas com os jogadores e o técnico da seleção brasileira da época. Neste relançamento, a obra ganha um capítulo com entrevista inédita de Alcides Edgardo Ghiggia, o carrasco brasileiro, que esteve entre a vida em a morte em 2012, após um grave acidente de carro.
Embora o chamado "Maracanazzo" ainda seja um tema tabu na imprensa nacional, Geneton Moraes Neto consegue, com delicadeza, mostrar como um simples jogo de futebol mudou a vida dos atletas e da nação, apresentando um perfil humano de um dos principais — senão o maior — drama nacional ligado ao futebol.
IMPRENSA - A Copa de 50 ainda é um tabu para a torcida e a imprensa brasileira. Por que resolveu tocar nesse assunto em livro e documentário? GENETON MORAIS NETO - O que me moveu foi – basicamente – a curiosidade de repórter. Quem gosta – e quem não gosta – de futebol ouve falar da decisão da Copa de 50 contra o Uruguai, no Maracanã: aquele foi o resultado mais surpreendente, mais traumático e mais imprevisível da história do futebol brasileiro. Ao entrevistar todos os onze jogadores, pude constatar os dramas pessoais que cada um viveu – ao longo de anos, décadas depois do jogo.
Creio que seria uma boa missão jornalística tentar levar ao público a palavra dos onze jogadores. Assim, todos conheceriam as histórias que aconteceram depois da partida, longe dos olhos do público. A Copa de 50 deixou de ser um acontecimento meramente esportivo. É um acontecimento com ressonâncias sociológicas, antropológicas, psicológicas. Você conseguiu entrevistar os 11 titulares daquela partida. Quanto tempo levou para reunir esses depoimentos e como foi convencê-los a falar do assunto? Nenhum dos onze se recusou a falar. Não é exagero dizer que cada um dos jogadores tinha um “grito atravessado na garganta”. O time de 50 tinha uma mágoa: ninguém reconhecia que eles tinham dado ao Brasil o primeiro título de relevância: o vice-campeonato mundial. Mas o trauma da inesperadíssima derrota no Maracanã foi tão grande que terminou encobrindo qualquer outra coisa.
Crédito:Globo / Divulgação Jornalista entrevistou o carrasco brasileiro, Alcides Ghiggia
Na sua opinião, qual o papel da imprensa em fazer desses jogadores vilões ao longo de tantas décadas? A imprensa foi co-responsável pela derrota, porque participou do clima de otimismo exagerado. Não somente a imprensa: os jogadores e a torcida também não admitiam a derrota. A culpa foi de todos. Mas sejamos razoáveis: o Brasil jogava pelo empate na decisão, fez um a zero no segundo tempo, tinha noventa e nove por cento da torcida a favor e aplicara, dias antes, duas goleadas acachapantes ( 6 a 1 na Espanha e 7 a 1 na Suécia). Quem admitiria a possibilidade de derrota? Ninguém. O capitão do Brasil, Augusto, me fez uma confidência: disse que entrou em campo pensando num placar de três a zero para o Brasil. E mais ainda: Ghiggia, autor do gol do Uruguai, me disse que, um dia antes do jogo, dirigentes disseram aos jogadores uruguaios que não seria vergonha perder de quatro a zero para o Brasil... Ou seja: nem os uruguaios acreditavam que o Brasil pudesse perder. Perdeu. O fascinante do futebol é que ele pode ser dramático e absolutamente imprevisível. Se tudo corresse como o previsto, não teria graça. No livro, percebe-se que esses atletas ficaram muito marcados pela derrota. Como foi passar esses sentimentos em imagens em áudio sem ser "piegas"? Tive o cuidado de quase não usar adjetivos no documentário. A palavra dos jogadores já é suficiente para dar a dimensão humana do que aconteceu. Qual a expectativa de retorno para o documentário? Qual o público-alvo desse produto? O documentário não terá lançamento comercial. Vai ser exibido pela Globonews — nos dias 3 de novembro, às 20h30, com reprise no sábado ( 9/11), às 18h30 e também à 0h05, no feriado do dia (15/11).
A íntegra do depoimento dos jogadores foi publicada no livro “Dossiê 50” - que acaba de ganhar um nova edição, em duas versões: em papel, pela Maquinária Editora, e em formato digital, por uma nova editora de São Paulo, a e-galáxia. Você não é especialista em jornalismo esportivo. Acha que essa distância ajudou a traduzir o drama em torno deste jogo? O livro e, especialmente, o documentário, não são para iniciados em futebol: são também para “leigos”. De qualquer maneira, quem quiser uma explicação técnica para o que aconteceu encontrará na entrevista de Ademir. Lá, ele diz por que o esquema tático do Uruguai impediu que ele tivesse as grandes atuações dos jogos anteriores – quando fez nove gols. É até hoje o maior artilheiro do Brasil numa Copa. Após esse mergulho no esporte, pretende se aventurar no tema novamente? De vez em quando, aparece alguém para sugerir: “Por que você não faz um Dossiê 98 ?”. Não tenho planos de me ocupar de futebol nessa escala. Mas quem sabe? Na sua opinião, se o Brasil perder a Copa de 2014 no Maracanã, acha que os jogadores viverão o mesmo drama? Ou a imprensa agora sabe se distanciar mais e condenar menos? Jamais aquela situação se repetirá. Jamais o Brasil jogará pelo empate numa decisão de Copa do Mundo, porque as regras mudaram. Creio que é hora de a gente olhar para 1950 não com os olhos críticos de quem encara uma “tragédia”. É hora de – primeiro – anistiar os jogadores. E, também, bater palmas para eles, porque eles pagaram um preço alto por um resultado que, no fim das contas, é parte do futebol.
IMPRENSA participou da pré-estreia do documentário em apresentação realizada no Museu do Futebol, em São Paulo (SP), no dia 19 de outubro, e pôde conferir que, mesmo para os leigos, a obra de Moraes Neto traz uma discussão sobre como o país, através da derrota, aprendeu a superar o chamado “complexo de vira-latas”, para se tornar o maior campeão do futebol a partir de 1958.
Crédito:Globo News/ Divulgação Jornalista retrata o drama dos jogadores após a derrota no Maracanã
Além do filme, na ocasião, o jornalista lançou a segunda edição do livro “Dossiê 50”, que traz as entrevistas completas com os jogadores e o técnico da seleção brasileira da época. Neste relançamento, a obra ganha um capítulo com entrevista inédita de Alcides Edgardo Ghiggia, o carrasco brasileiro, que esteve entre a vida em a morte em 2012, após um grave acidente de carro.
Embora o chamado "Maracanazzo" ainda seja um tema tabu na imprensa nacional, Geneton Moraes Neto consegue, com delicadeza, mostrar como um simples jogo de futebol mudou a vida dos atletas e da nação, apresentando um perfil humano de um dos principais — senão o maior — drama nacional ligado ao futebol.
IMPRENSA - A Copa de 50 ainda é um tabu para a torcida e a imprensa brasileira. Por que resolveu tocar nesse assunto em livro e documentário? GENETON MORAIS NETO - O que me moveu foi – basicamente – a curiosidade de repórter. Quem gosta – e quem não gosta – de futebol ouve falar da decisão da Copa de 50 contra o Uruguai, no Maracanã: aquele foi o resultado mais surpreendente, mais traumático e mais imprevisível da história do futebol brasileiro. Ao entrevistar todos os onze jogadores, pude constatar os dramas pessoais que cada um viveu – ao longo de anos, décadas depois do jogo.
Creio que seria uma boa missão jornalística tentar levar ao público a palavra dos onze jogadores. Assim, todos conheceriam as histórias que aconteceram depois da partida, longe dos olhos do público. A Copa de 50 deixou de ser um acontecimento meramente esportivo. É um acontecimento com ressonâncias sociológicas, antropológicas, psicológicas. Você conseguiu entrevistar os 11 titulares daquela partida. Quanto tempo levou para reunir esses depoimentos e como foi convencê-los a falar do assunto? Nenhum dos onze se recusou a falar. Não é exagero dizer que cada um dos jogadores tinha um “grito atravessado na garganta”. O time de 50 tinha uma mágoa: ninguém reconhecia que eles tinham dado ao Brasil o primeiro título de relevância: o vice-campeonato mundial. Mas o trauma da inesperadíssima derrota no Maracanã foi tão grande que terminou encobrindo qualquer outra coisa.
Crédito:Globo / Divulgação Jornalista entrevistou o carrasco brasileiro, Alcides Ghiggia
Na sua opinião, qual o papel da imprensa em fazer desses jogadores vilões ao longo de tantas décadas? A imprensa foi co-responsável pela derrota, porque participou do clima de otimismo exagerado. Não somente a imprensa: os jogadores e a torcida também não admitiam a derrota. A culpa foi de todos. Mas sejamos razoáveis: o Brasil jogava pelo empate na decisão, fez um a zero no segundo tempo, tinha noventa e nove por cento da torcida a favor e aplicara, dias antes, duas goleadas acachapantes ( 6 a 1 na Espanha e 7 a 1 na Suécia). Quem admitiria a possibilidade de derrota? Ninguém. O capitão do Brasil, Augusto, me fez uma confidência: disse que entrou em campo pensando num placar de três a zero para o Brasil. E mais ainda: Ghiggia, autor do gol do Uruguai, me disse que, um dia antes do jogo, dirigentes disseram aos jogadores uruguaios que não seria vergonha perder de quatro a zero para o Brasil... Ou seja: nem os uruguaios acreditavam que o Brasil pudesse perder. Perdeu. O fascinante do futebol é que ele pode ser dramático e absolutamente imprevisível. Se tudo corresse como o previsto, não teria graça. No livro, percebe-se que esses atletas ficaram muito marcados pela derrota. Como foi passar esses sentimentos em imagens em áudio sem ser "piegas"? Tive o cuidado de quase não usar adjetivos no documentário. A palavra dos jogadores já é suficiente para dar a dimensão humana do que aconteceu. Qual a expectativa de retorno para o documentário? Qual o público-alvo desse produto? O documentário não terá lançamento comercial. Vai ser exibido pela Globonews — nos dias 3 de novembro, às 20h30, com reprise no sábado ( 9/11), às 18h30 e também à 0h05, no feriado do dia (15/11).
A íntegra do depoimento dos jogadores foi publicada no livro “Dossiê 50” - que acaba de ganhar um nova edição, em duas versões: em papel, pela Maquinária Editora, e em formato digital, por uma nova editora de São Paulo, a e-galáxia. Você não é especialista em jornalismo esportivo. Acha que essa distância ajudou a traduzir o drama em torno deste jogo? O livro e, especialmente, o documentário, não são para iniciados em futebol: são também para “leigos”. De qualquer maneira, quem quiser uma explicação técnica para o que aconteceu encontrará na entrevista de Ademir. Lá, ele diz por que o esquema tático do Uruguai impediu que ele tivesse as grandes atuações dos jogos anteriores – quando fez nove gols. É até hoje o maior artilheiro do Brasil numa Copa. Após esse mergulho no esporte, pretende se aventurar no tema novamente? De vez em quando, aparece alguém para sugerir: “Por que você não faz um Dossiê 98 ?”. Não tenho planos de me ocupar de futebol nessa escala. Mas quem sabe? Na sua opinião, se o Brasil perder a Copa de 2014 no Maracanã, acha que os jogadores viverão o mesmo drama? Ou a imprensa agora sabe se distanciar mais e condenar menos? Jamais aquela situação se repetirá. Jamais o Brasil jogará pelo empate numa decisão de Copa do Mundo, porque as regras mudaram. Creio que é hora de a gente olhar para 1950 não com os olhos críticos de quem encara uma “tragédia”. É hora de – primeiro – anistiar os jogadores. E, também, bater palmas para eles, porque eles pagaram um preço alto por um resultado que, no fim das contas, é parte do futebol.





