Doce Jayme

Doce Jayme

Atualizado em 13/02/2009 às 18:02, por Rodrigo Manzano.

Se a nossa redação fosse o planeta Terra, eu estaria sentado no Ártico e o Jayme Camargo, na Antártica. Além do fato de eu estar de costas, um armário obstruía nosso campo de visão, de maneira que a presença do Jayme, nunca algo anunciado, era uma quase-ausência. Silencioso, discreto, educado, imperceptível. Ele foi apresentado a mim como a pessoa mais culta que nosso interlocutor havia conhecido. De fato, talvez o fosse, mas, como bem cabe aos intelectuais de verdade, sua cultura nunca era um traço que se percebesse assim, à primeira vista.

A verdade é que essa é uma boa maneira para dizer que eu não conhecia o Jayme. Adorável figura de hábitos matinais, quase sempre o encontrava quando ele já estava partindo da revista, enquanto eu estava chegando. De certa forma, isso me constrangia um pouco, porque eu sempre acabava por imaginar que ele estivesse pensando que eu acordava muito tarde e era folgado, o que não era verdade, já que também ele não me conhecia. Trabalhávamos em projetos e áreas diferentes, mas vez ou outra precisávamos conversar e tratar de assuntos comuns. Às vezes, ele vinha à minha mesa fazer perguntas específicas ou pedir ajuda em algum serviço. Eu adorava colaborar com ele, até mesmo porque apenas os grandes intelectuais podem fazer perguntas tão básicas sem parecerem ridículos. Eu, como não sou um intelectual, sempre tive medo de parecer ridículo, então nunca fiz perguntas ao Jayme. E, por isso, não soube ao certo quem ele era. Hoje, quando soube que ele tinha morrido, resolvi procurar seu nome no Google para conhecê-lo, estupidamente, um pouco melhor.

Quando enfrentamos perdas assim, repentinas, e precisamos encarar uma mesa vazia como signo de uma ausência definitiva, perdemos um pouco o rumo das nossas emoções. As redações da revista e do portal IMPRENSA, ao longo da tarde, ficaram muito sensibilizadas. Eu me lembrei da Carta das Cinzas Brancas, escritas no século XV por Rennyo Shonin, o 8o patriarca de uma escola do Budismo da Terra Pura no Japão: "Considerando-se com atenção a aparência da frágil vida dos homens, vemos quão fugaz é esse período, em que todas as coisas mundanas são semelhantes a miragens. Nunca se ouviu falar de alguém que tenha vivido dez mil anos.A vida flui tão rápida! Quem consegue manter-se até a idade de cem anos? Nem eu nem ninguém pode garantir o dia de hoje ou o dia de amanhã. Dizem que os que hão de morrer e os que já morreram são mais numerosos que pingos de chuva que já caíram ou das gotas de orvalho que ainda cairão. Nosso corpo, que pela manhã ostenta faces rosadas, ao entardecer pode estar transformado em cinzas brancas."

Já no hospital, Jayme ligou hoje pela manhã para a revista para dar recados sobre seu trabalho. Morreu logo depois. Então lamentei que, antes que isso acontecesse, não tivesse atravessado o planeta para encontrá-lo, logo ali, na Antártica de nossa redação. O que nos consola, jovens do Ártico, é que vamos lembrar dele a partir de tudo o que um homem silencioso, discreto e educado pode nos ensinar em sua quase-ausência. E que agora, verdadeiramente ausente, ele se torna, aqui na IMPRENSA, uma quase-presença.