Do Outro Lado Da Rua
Onde passamos e não olhamos
Do Outro Lado Da Rua
Onde passamos e não olhamos
Do Outro Lado Da Rua
Onde passamos e não olhamos
Por Untitled Document Eu nasci em São Paulo, no bairro do Itaim Paulista. Fiz até o 2º ano do primário, com 8 anos minha mãe morreu e tive que parar de estudar, fui trabalhar como doméstica só que como era criança as patroas não pagavam, davam roupas e alimento . Éramos em quatro irmãos, eu, Silvio (10), Adilson (12) e Cláudio (6), quando eu tinha 12 anos, meu pai arrumou uma mulher e colocou a gente num orfanato, ficamos lá até os 18 anos, quando saí de lá não tinha para onde ir e fui para as ruas, nunca mais vi meus irmãos e nem meu pai, sinto a falta deles, acho que é por isso que tenho 4 filhos ; Gisele (17), Thiago (15), Giselda (13) , Brendo (6) e um neto o Matheus (3) filho da Gisele, sempre gostei de família grande.
Todos os pais dos meu filhos conheci na rua, cada um filho é com um pai diferente, todos eles me abandonaram, morei dois anos com o pai de Gisele, mas ele foi embora e a única coisa que deixou foi um barraco com um quarto, uma cozinha e um banheirinho fora, o chão de cimento no Jardim Imperial, quando chove molha tudo e quando venta os telhados voam com o vento e tem que pegar o telhado colocar no lugar com peso e desejando que esta seja a última ventania. Eu vivo aqui nesta rua, fiz uma casinha de papelão que para entrar nela tem que entrar deitada, fiz para me proteger do sol, chuva e do frio.
Durante o dia sou biqueira, olho os carros das pessoas que deixam, para ir a missa, ganho R$ 10,00 a R$ 20,00 reais por dia, quando tem missa de finado, uma vez por mês ganho R$ 30,00 a R$ 40,00 reais. Vou para casa uma vez por semana, matar as saudades que sinto dos meus filhos e do meu neto, levo o dinheiro que ganho trabalhando, a mini cesta básica e roupas que ganho da igreja Santuário das Almas.
Eu durmo aqui pois a noite é que dá mais movimento de carro,há 15 anos estou nesta rua, sou conhecida das pessoas, elas sabem que eu olho o carro mesmo, não faço como esses guardadores de carro que falam que vão olhar, pegam o dinheiro e vão embora, já morei, no Vale do Anhangabaú, Santana e Estação da Luz, saí desses lugares porque não ganhava dinheiro.
Já fumei muita maconha, mas ficava meio área e com isso era uma presa fácil para alguém chegar e fazer alguma coisa comigo, a uns 10 anos atrás levei duas facadas, estava dormindo de bruços e veio alguém e me esfaqueou nas costas não vi quem era e nem desconfio quem foi, me recuperei , mas agora com essa chacina que está acontecendo com meus irmãos de rua, fico lembrando o que aconteceu comigo, é muito triste, doloroso, nesta violência perdi uma amiga , ainda estou triste, pois ela era uma pessoa muito boa e sinto a falta dela não tenho mais para quem contar segredos, ela sempre vinha aqui me visitar e a gente conversava muito.
Sou católica, eu rezo todos os dias, peço a Deus por mim, pelos meus filhos e pelos meus irmãos de rua, para que nada de ruim aconteça com a gente. Estas pessoas que estão matando meus irmãos de rua, todos nós conhecemos , são os seguranças das lojas como o Paulo Paulada, este nome foi dado a ele pela gente porque quando tinha alguém dormindo em frente de alguma loja, ele chegava dava paulada para que saísse dali, também tem o Alemão que quando alguém está se drogando ele quebra o cocô verde na cabeça da pessoa. A violência contra os moradores de rua sempre existiu, passamos por toda forma de humilhação, as pessoas passam e gritam vão trabalhar seus vagabundos chutam a gente, além de viver ao relento, eu vivo na rua porque não tenho opção, sou analfabeta e negra.
E estou aqui para dar uma educação para meus filhos para eles não passarem o que eu passei e passo, sonho com um futuro melhor para eles, para mim eu só quero que eles tenham uma casa de bloco, e tenha uma profissão e eu que continue ganhando meu dinheirinho trabalhando. A minha vida é triste, acordo as 6h30 da manhã quando tem missa, três vezes por semana, quando não tem acordo às 8h00 horas, não tomo café da manhã, almoço e janto no Porto Seguro eles deixam a gente tomar banho uma vez por dia, é uma entidade que fica nesta rua eles dá comida para a gente da rua. Limpo meu cantinho e vou conversar com os meus amigos aqui da rua do lado, depois volto para cá e começo a trabalhar, antigamente tinha muito movimento nesta rua agora a única movimentação é na igreja quando tem missa, mesmo assim prefiro morar aqui pois conheço todo mundo e é em frente a igreja que me dá um pouco de alívio para suportar a minha vida.
Não tive infância, acho muito importante para criança a brincadeira, até os oito anos eu brincava de boneca, cirandinha, pega-pega com meus irmãos depois no orfanato brincava com os brinquedos que ganhava no natal, por isso quero que meus filhos tenha infância que eles brinquem bastante quando não estão vendendo balas no farol ou estudando, quando vou em casa é uma festa, deixo de ser gente grande e viro criança , ensinei para eles as brincadeiras que brincava com meus irmãos e eles adoram é como eu voltasse a infância, só que agora são meus filhos e quero passar para eles o que eu aprendi.
Sacrifico minha vida para eles não morarem na rua e poderem estudar, nunca teria coragem de fazer com eles o que meu pai fez com os filhos de colocar em orfanato, passei por isso e sei que é muito triste, mesmo meus filhos não tendo uma infância como eu queria, nunca os abandonarei eles podem contar comigo para tudo, eu só tenho eles e eles só tem a mim, levamos a vida muito humilde, mas com muito amor, acho que isso é a melhor coisa, apesar deles não terem conforto ter algo que vão levar para sempre como eu.
Foto:
Maria Célia dos Santos, 34, a eterna busca por sair das ruas
JORNAL ABERTURA
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Matéria: Procedj
Profa. Jaqueline Lemos






