Distanciamento das novas gerações faz sindicatos repensarem suas estratégias
Mudança no cenário político e distanciamento das novas gerações faz sindicatos e associações repensarem suas estratégias
Atualizado em 02/04/2012 às 18:04, por
Luiz Gustavo Pacete*.
Mudança no cenário político e distanciamento das novas gerações faz sindicatos e associações repensarem suas estratégias
No final de 2011, o jornalista Fred Ghedini oficializou uma questão que não é nova e vem incomodando associações de imprensa já há alguns anos. “Por que jornalistas e sindicatos andam tão distantes?”. O questionamento vem de sua tese de doutoramento apresentada à pós-graduação da Escola de Comunicação e Artes da USP (ECA). Entre as várias questões levantadas pelo profissional, o fato de cada vez mais jornalistas estarem distantes dos sindicatos e entidades da classe, é a que mais tem matutado na cabeça de diversos profissionais da área. Ghedini presidiu o sindicato de São Paulo entre 2000 e 2006 e já considerava a situação inaceitável na época.
A preocupação com a situação dos sindicatos realmente não é de agora. As mudanças no cenário político desde a década de 1980 e a queda na obrigatoriedade do diploma em 2009, fizeram com que a relação com jornalistas ficasse cada vez mais fraca. “Penso nos profissionais que não viveram na faculdade um ambiente de luta política e de disputas ideológicas, como acontecia na vida universitária dos que hoje têm mais de 40 anos. O sindicato que não entender a necessidade de atrair essa nova geração está condenado à fragilidade, ao desaparecimento, ou se transformar em mero emissor de carteirinhas”, alertou Aziz Filho, então presidente do sindicato dos jornalistas do Rio de Janeiro, em um de seus artigos de 2005.
Ernesto Marques, presidente da Associação Baiana de Imprensa (ABI), também observa mudanças nas motivações políticas da nova geração. “Os jornalistas estavam mais próximos da entidade até a década de 1980. Mas, a partir do momento em que direitos são adquiridos e que a liberdade parece ser cláusula pétrea, é como se não fosse mais necessário lutar por esses princípios”, critica. A aluna do terceiro ano de jornalismo da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) Bibiana Guaraldi confirma que sua geração tem noção da importância que o sindicato teve no passado, mas não do papel que desenvolve atualmente.
Ghedini lembra que a decisão do Supremo contra a exigência do diploma do curso de jornalismo também contribuiu para diminuir o nível de sindicalização. Ele aponta que durante os primeiros dez anos do século XXI, o número de sindicalizados girou em torno de 4,5 mil (sendo 3,7 mil sócios ativos e 850 sócios aposentados), número que caiu para 4 mil desde 2010.
George Washington Silva, ex-presidente do sindicato de jornalistas de Sergipe, aponta que a queda do diploma enfraqueceu a posição das entidades. “Infelizmente, as afirmações mais comuns que ouvimos de jornalistas que abandonaram o sindicato são ‘agora não há mais nada a se fazer, a profissão foi pelo ralo’”. Silva considera um equívoco o trabalhador imaginar que a sua organização sindical não pode fazer nada por ele só por causa da queda da obrigatoriedade do diploma.
Estratégias de aproximação Desde 2011, a ABI desenvolve em Salvador um esforço para se aproximar das novas gerações. “Inauguramos uma sala de cinema e também temos projetos para inaugurar o Museu da Imprensa no próximo ano, além de desenvolver um trabalho com as faculdades criando um site que se possa reunir toda a produção acadêmica”, revela.
O professor mestre do departamento de jornalismo da PUC Urbano Nojosa critica a ausência das entidades na universidade. “Eu praticamente nunca vi ação do sindicato nas universidades e se não vejo na PUC, que tem essa tradição de ambiente mais politizado, não acredito que tenha em outros lugares”, explica.
Felipe Neri, recém-formado pela Universidade de Brasília, discorda. Ele vê um esforço por parte do sindicato local para se aproximar dos novos profissionais. “Quando eu estava na faculdade eles estiveram lá várias vezes, nas aulas, em debates, e ainda tiveram presença muito forte nas redes sociais. Estão em busca não só dos mais jovens, mas dos jornalistas em geral”, diz. Aparente exceção que, ao que tudo indica, deve ser a regra para garantir a relevância das entidades junto aos jornalistas.
MUDANÇA E TRADIÇÃO
O sindicato dos jornalistas no Estado de São Paulo completa 75 anos no mês de abril e escolhe seu novo presidente neste ano. José Augusto Camargo, atual presidente da entidade, fala sobre o esforço para aproximar-se das novas gerações. Sustentação “Mesmo com a decisão do STF de suspender a obrigatoriedade do diploma, a gente sabia que existiam vários problemas de desrespeito, mas a profissão estava estruturada também em torno desse pilar que é o diploma. Com a queda, o pilar fica abalado. Quer dizer, voltamos a 1968, quando entrou a lei do diploma”. Desafio “O momento requer unidade entre os jornalistas mais experientes e a geração nova, quem está na faculdade e quem não está. Todos têm que se unir, porque a profissão precisa de uma estrutura. Tem que ter regra. Temos que lutar pela organização dessa estruturação”. Estudantes “Temos estudantes que se pré-sindicalizam, recebem nosso material. Temos política constante de ir às universidades e fazemos isso cotidianamente. Mas pretendemos aprofundar essa pré-sindicalização. Nos últimos dois anos, começamos a atuar mais nas redes sociais, e recebemos muitos comentários e contatos. Também aumentou a procura de estudantes que vêm tirar dúvidas”
*Com Jéssica Oliveira
No final de 2011, o jornalista Fred Ghedini oficializou uma questão que não é nova e vem incomodando associações de imprensa já há alguns anos. “Por que jornalistas e sindicatos andam tão distantes?”. O questionamento vem de sua tese de doutoramento apresentada à pós-graduação da Escola de Comunicação e Artes da USP (ECA). Entre as várias questões levantadas pelo profissional, o fato de cada vez mais jornalistas estarem distantes dos sindicatos e entidades da classe, é a que mais tem matutado na cabeça de diversos profissionais da área. Ghedini presidiu o sindicato de São Paulo entre 2000 e 2006 e já considerava a situação inaceitável na época.
A preocupação com a situação dos sindicatos realmente não é de agora. As mudanças no cenário político desde a década de 1980 e a queda na obrigatoriedade do diploma em 2009, fizeram com que a relação com jornalistas ficasse cada vez mais fraca. “Penso nos profissionais que não viveram na faculdade um ambiente de luta política e de disputas ideológicas, como acontecia na vida universitária dos que hoje têm mais de 40 anos. O sindicato que não entender a necessidade de atrair essa nova geração está condenado à fragilidade, ao desaparecimento, ou se transformar em mero emissor de carteirinhas”, alertou Aziz Filho, então presidente do sindicato dos jornalistas do Rio de Janeiro, em um de seus artigos de 2005.
Ernesto Marques, presidente da Associação Baiana de Imprensa (ABI), também observa mudanças nas motivações políticas da nova geração. “Os jornalistas estavam mais próximos da entidade até a década de 1980. Mas, a partir do momento em que direitos são adquiridos e que a liberdade parece ser cláusula pétrea, é como se não fosse mais necessário lutar por esses princípios”, critica. A aluna do terceiro ano de jornalismo da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) Bibiana Guaraldi confirma que sua geração tem noção da importância que o sindicato teve no passado, mas não do papel que desenvolve atualmente.
Ghedini lembra que a decisão do Supremo contra a exigência do diploma do curso de jornalismo também contribuiu para diminuir o nível de sindicalização. Ele aponta que durante os primeiros dez anos do século XXI, o número de sindicalizados girou em torno de 4,5 mil (sendo 3,7 mil sócios ativos e 850 sócios aposentados), número que caiu para 4 mil desde 2010.
George Washington Silva, ex-presidente do sindicato de jornalistas de Sergipe, aponta que a queda do diploma enfraqueceu a posição das entidades. “Infelizmente, as afirmações mais comuns que ouvimos de jornalistas que abandonaram o sindicato são ‘agora não há mais nada a se fazer, a profissão foi pelo ralo’”. Silva considera um equívoco o trabalhador imaginar que a sua organização sindical não pode fazer nada por ele só por causa da queda da obrigatoriedade do diploma.
Estratégias de aproximação Desde 2011, a ABI desenvolve em Salvador um esforço para se aproximar das novas gerações. “Inauguramos uma sala de cinema e também temos projetos para inaugurar o Museu da Imprensa no próximo ano, além de desenvolver um trabalho com as faculdades criando um site que se possa reunir toda a produção acadêmica”, revela.
O professor mestre do departamento de jornalismo da PUC Urbano Nojosa critica a ausência das entidades na universidade. “Eu praticamente nunca vi ação do sindicato nas universidades e se não vejo na PUC, que tem essa tradição de ambiente mais politizado, não acredito que tenha em outros lugares”, explica.
Felipe Neri, recém-formado pela Universidade de Brasília, discorda. Ele vê um esforço por parte do sindicato local para se aproximar dos novos profissionais. “Quando eu estava na faculdade eles estiveram lá várias vezes, nas aulas, em debates, e ainda tiveram presença muito forte nas redes sociais. Estão em busca não só dos mais jovens, mas dos jornalistas em geral”, diz. Aparente exceção que, ao que tudo indica, deve ser a regra para garantir a relevância das entidades junto aos jornalistas.
MUDANÇA E TRADIÇÃO
O sindicato dos jornalistas no Estado de São Paulo completa 75 anos no mês de abril e escolhe seu novo presidente neste ano. José Augusto Camargo, atual presidente da entidade, fala sobre o esforço para aproximar-se das novas gerações. Sustentação “Mesmo com a decisão do STF de suspender a obrigatoriedade do diploma, a gente sabia que existiam vários problemas de desrespeito, mas a profissão estava estruturada também em torno desse pilar que é o diploma. Com a queda, o pilar fica abalado. Quer dizer, voltamos a 1968, quando entrou a lei do diploma”. Desafio “O momento requer unidade entre os jornalistas mais experientes e a geração nova, quem está na faculdade e quem não está. Todos têm que se unir, porque a profissão precisa de uma estrutura. Tem que ter regra. Temos que lutar pela organização dessa estruturação”. Estudantes “Temos estudantes que se pré-sindicalizam, recebem nosso material. Temos política constante de ir às universidades e fazemos isso cotidianamente. Mas pretendemos aprofundar essa pré-sindicalização. Nos últimos dois anos, começamos a atuar mais nas redes sociais, e recebemos muitos comentários e contatos. Também aumentou a procura de estudantes que vêm tirar dúvidas”
*Com Jéssica Oliveira






