"Dinâmica do crime continua", diz Rafael Soares, repórter especializado em segurança pública

Especializado em segurança pública, o jornalista Rafael Soares vem colecionando prêmios de direitos humanos por suas séries de reportagens publicadas na Revista Época e no jornal Extra sobre temas como a atuação das milícias no Rio de Janeiro e a prática de tortura nos quartéis.

Atualizado em 09/04/2020 às 11:04, por Leandro Haberli.

jornalista Rafael Soares vem colecionando prêmios de direitos humanos por suas séries de reportagens publicadas na Revista Época e no jornal Extra sobre temas como a atuação das milícias no Rio de Janeiro e a prática de tortura nos quartéis.
Fruto de seis meses de apuração, a série "A invasão", por exemplo, ganhou o Prêmio Patrícia Acioli de Direitos Humanos em dezembro último, ao revelar que PMs de Itaboraí têm envolvimento direto com a milícia que atua na cidade fluminense.
Já a série Tortura no Quartel foi uma das vencedoras do 35º prêmio Direitos Humanos de Jornalismo. Crédito: Reprodução Twitter
Rafael também tem se destacado pela cobertura dos impactos do coronavírus na segurança pública do Rio de Janeiro, mostrando, por exemplo, que os policiais estão tendo que comprar máscaras e álcool em gel do próprio bolso e que a pandemia não alterou a dinâmica da violenta disputa territorial entre traficantes rivais nas favelas.
Em entrevista ao Portal IMPRENSA, Rafael falou sobre os impactos da pandemia em sua rotina de trabalho e sobre as constantes ameaças que recebe por seu trabalho jornalístico de alto risco.
Portal IMPRENSA - Como o coronavírus mudou sua rotina de cobertura? Estamos trabalhando no esquema home office há três semanas. Para mim é um desafio enorme, porque diminuiu muito meu contato com as fontes. Na área de segurança pública, o contato com as fontes é fundamental e, na maior parte das vezes, ele se dá de forma presencial, porque as fontes têm receio de falar por telefone. Isso mudou muito a minha rotina e estou tendo que encontrar uma nova forma de trabalhar. O jornal forneceu material de proteção, como máscara e álcool gel, mas, para mim, ainda não foi necessário, porque não saí para nenhuma pauta que precisasse usar, porque não estou na cobertura de coronavírus. Continuo na área de segurança pública. É claro que na minha área as pautas se voltam mais para as consequências do coronavírus. Eu não tive que entrar em comunidade. O meu trabalho é tentar entender como a rotina da segurança pública mudou e como a sociedade sente isso. E também tem muita gente da Justiça criminal, dos órgãos do Ministério Público, que não está trabalhando presencialmente. Mas há formas de driblar isso, como a Lei de Acesso à Informação.
Portal IMPRENSA - Você acredita que o coronavírus pode aumentar ou diminuir o poder do crime organizado no Rio? Não acho que exista nenhuma relação entre o coronavírus e o crime organizado. A pandemia não teve impacto direto na questão da segurança pública no Rio, que já é muito complexa por si só. O que está acontecendo - e aí a gente vai ter que tentar entender o que isso vai gerar - é uma diminuição da produtividade policial. Há menos operações policiais. Isso é fato. Mas não dá para dizer o que isso vai gerar lá na frente, porque a dinâmica do crime, com disputas nas favelas, continua. As disputas não aumentaram nem diminuíram. Elas seguiram a dinâmica normal, como se não estivesse acontecendo nada. O crime e as milícias continuam agindo, independente de coronavírus. O crime tem muita fonte de renda. O tráfico não vive só de venda de drogas. Ele sobrevive de roubo de carga, roubo de carro, clonagem de veículo. O crime se adapta muito. Não creio que essa questão econômica vai afetar o crime.
Portal IMPRENSA - Como você avalia o papel das milícias no Brasil de hoje? Não conheço como é a dinâmica das milícias fora do Rio. As milícias são o maior desafio da segurança pública no Rio há mais de uma década, e também vão ser na próxima década, pela capilaridade. As milícias estão dentro do Estado, das instituições do poder público e dentro da cidade sem o poder do fuzil. O tráfico tem uma questão muito geográfica e localizada. Ele está dentro das favelas onde o Estado está ausente. Já a milícia está onde o Estado está. Ela está na cidade de uma forma muito clara. Nos bairros, as famílias e o comércio têm que pagar taxas. Isso está se alastrando pelo Rio. Na região metropolitana, Niterói, Itaborai, Maricá, os municípios da Baixada fluminense. Todos têm milícia. É algo muito rentável e que, infelizmente, a comunidade ainda bate palma, porque existe a falsa sensação de segurança. É muito complicado de combater porque elas estão dentro do poder público.
Portal IMPRENSA - Outros jornalistas brasileiros que cobrem segurança pública já tiveram que sair do país. Você já teve que se esconder? Ficar um tempo fora? É natural que na minha área de atuação existam ameaças. Já aconteceu comigo e com outros colegas. O que eu posso dizer é que tenho a sorte de trabalhar em um veículo que me dá suporte e me dá apoio quando eu não posso me expor. Há três anos eu precisei tirar licença, parar de trabalhar e sair do Estado por conta de ameaças que chegaram pelo WhatsApp. O jornal bancou isso. Mas isso é inerente à minha área de atuação, que precisa mexer com pessoas poderosas, com gente que usa essas táticas para amedrontar. Eu comecei a trabalhar com segurança pública há 8 anos, como estagiário do Extra. Desde o início sempre teve esse aspecto,mesmo nas entrelinhas. O mais importante é ter suporte da empresa.