Diferentes sim, mas não desiguais, por Juliana Bevilaqua dos Santos / Universidade de Caxias do Sul
Diferentes sim, mas não desiguais, por Juliana Bevilaqua dos Santos / Universidade de Caxias do Sul
Atualizado em 07/03/2005 às 11:03, por
Juliana Bevilaqua dos Santos e estudante de jornalismo da Universidade de Caxias do Sul.
"O fato de estarmos aqui... é o triunfo de muitas mulheres que nos antecederam: as visionárias, as bruxas, as sufragistas, as feministas e, sem dúvida, as poetas. Porque esta realidade foi utopia, como é utopia o que falta conquistar". (Maria Guerra - México)
Discutir a questão de gênero não é uma tarefa fácil. Ainda mais quando iniciado o diálogo, ouve-se, até mesmo das próprias mulheres, que as desigualdades já foram superadas. É equivocada tal afirmação, por que os fatos nos provam que as desigualdades estão presentes no nosso dia a dia. Essa sensação de direitos iguais é falsa quando presenciamos todas as formas de violência cometidas contra a mulher, que na maioria das vezes, parte da própria casa; quando nos deparamos com o baixo número de mulheres ocupando cargos de direção; e quando constatamos que 70% da população pobre do mundo é formada por mulheres. Estes são apenas alguns exemplos que mostram que a construção histórica e social reservou um lugar para as mulheres de inferioridade em relação aos homens.
As mulheres, ao contrário dos negros e judeus, não são minoria. São tantas ou mais que os homens. Então por que ainda continuamos na condição de submissão? O problema é que não existe solidariedade de interesses entre as mulheres e os laços que unem as mulheres a seus opressores é muito forte. As mulheres burguesas defendem os homens burgueses; as mulheres brancas defendem os homens brancos. Assim como o mais pobre branco sente orgulho ao se comparar com um negro qualquer, o mais miserável e deplorável homem, sente orgulho em não ser mulher. Em uma das passagens da bíblia, há uma frase muito interessante, que de certa forma explica a discriminação existente: "É melhor a maldade do homem do que a bondade da mulher: a mulher cobre de vergonha e chega a expor ao insulto". (Eclo 42, 14). É vergonhoso, mas foi este o ensinamento passado para muitas gerações. Daí a perpetuação da cultura machista da sociedade, principalmente da sociedade cristã. E tudo isso em nome de Deus.
Mesmo identificando a opressão, as mulheres continuam aceitando essa situação. Se somos as grandes responsáveis pela educação infantil, por que ainda reproduzimos os vícios machistas e permitimos que se mantenha a exploração, a "coisificação" e a opressão? Continuamos dando carrinhos para os meninos brincarem e bonecas para as meninas, preparando-as assim para a função de ser mãe. Continuamos dando as tarefas domésticas para as garotas executarem, enquanto os garotos assistem televisão ou jogam futebol na rua. Continuamos propagando o velho ditado "em briga de marido e mulher ninguém mete a colher", permitindo que assim, ninguém denuncie a violência doméstica. Além do clássico dito "segurem suas cabritas, porque o meu bode está solto", um exemplo cruel da discriminação e opressão de gênero, que pode ser usado, pelos mais insanos como justificativa para caso de abuso sexual. Continuamos aceitando que nossos esposos e namorados se sintam nossos donos e nos chamem de "minha propriedade", como se fossemos um objeto que se compra no mercado. Como se nossa função fosse de prazer e utilidade e nossa existência se resumisse a servir.
É necessário que se repense a cultura que presenciamos, vivemos e reproduzimos. Isso não significa que as mulheres devam sair por aí fazendo coisas que os homens fazem. Não podemos negar as características próprias da natureza feminina, mas não podemos confundir fragilidade com inferioridade, até porque não existe um sexo frágil e sim, pessoas frágeis. Como já dizia um amigo de Fernando Gabeira, "Os fracos são mais frágeis; logo são mais fortes. É tudo uma questão de se unirem". Por isso a importância das mulheres se reconhecerem, identificando a opressão e se organizarem na luta por uma sociedade verdadeiramente justa.
Já foram muitas as conquistas, como o direito de votar, trabalhar e estudar. No Brasil de 1940, a legislação autorizava as empresas a pagarem 10% menos para as funcionárias mulheres, sob alegação de que as mesmas geravam gastos com higiene e proteção. Hoje, a lei não permite mais essa diferenciação, mas mesmo sabendo que não se cumpre, já é um grande avanço garantir legalmente esse direito. É claro que a luta das mulheres não pode se resumir à conquista da mesma remuneração de um homem. Ela deve ir além, buscando alcançar um salário digno, tanto para as mulheres quanto para os homens.
Colada à questão salarial, está a questão profissional. Mesmo que mulheres passem a ocupar postos que se restringiam aos homens, não significa que a igualdade tenha sido alcançada. Muitas mulheres sofrem discriminação nestes espaços por serem as únicas num universo exclusivamente masculino. Somos a maioria lecionando em escolas de ensino fundamental, mas nas universidades, onde o salário e o prestígio são maiores, a representação masculina predomina.
Na política, a resistência é ainda maior, pois crescemos dentro da cultura de que "lugar de mulher é na cozinha" e de que "política é coisa de homem". Por isso a dificuldade em eleger mulheres para cargos políticos. Primeiro, que nem todas desejam concorrer e segundo, que as mulheres não votam em mulheres, por não acreditarem em si próprias. Daí a importância das ações afirmativas, como as cotas. Pode parecer artificial reservar vagas para as mulheres, mas é a partir dessas medidas que estaremos afirmando que a igualdade de gênero não existe e precisa ser buscada. As cotas representam um mecanismo de inserção política que dá visibilidade à luta das mulheres.
Por mais que seja difícil discutir essa questão, ela se faz necessária, pois é a partir daí que apontaremos para novos rumos de uma nova sociedade, sem qualquer forma de opressão econômica, social e cultural. Onde as mulheres tenham direito à participação política efetiva, acesso à água, a terra, à educação, onde possam decidir sobre seu corpo e sua sexualidade, e tenham integridade e autonomia. Enfim, uma sociedade justa e igualitária. E é preciso que fique claro que a emancipação das mulheres será obra das próprias mulheres, e não dos homens.
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
BEAUVOIR, Simone de. O Segundo Sexo: Fatos e Mitos; tradução de Sérgio Milliet. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1980.
INFORMATIVO DA MARCHA MUNDIAL DE MULHERES. Campanha pelo Aumento do Salário Mínimo. Jun 2003.
COORDENAÇÃO NACIONAL DOS TRABALHADORES DA JUSTIÇA: Sindijus/PR, Sindjus/RS, Sinjus/MG, Sindi-Justiça/RJ e Sindjump/MA. 8 de Março: A História do Dia Internacional da Mulher. 2004.
TERRIBILI, Alessandra. Por que discutir gênero? Artigo da diretoria de mulheres da União Nacional de Estudantes (UNE). 2004.






