Diferença na cobertura de naufrágio com refugiados e de buscas por submersível enseja debate jornalístico

A intensa cobertura jornalística da busca pelo submersível Titan e o desinteresse de boa parte dos meios de comunicação pelo naufrágio, na Grécia, na semana passada, de uma embarcação que levava mais de 700 refugiados, ensejou um debate sobre apelo midiático e seletividade dos veículos de imprensa na cobertura desse tipo de tragédia.

Atualizado em 23/06/2023 às 15:06, por Redação Portal IMPRENSA.


Enquanto o desaparecimento do submersível Titan e de seus excêntricos turistas ganhou as manchetes durante dias, o naufrágio dos refugiados, ocorrido quatro dias antes, teve pouquíssima repercussão nos veículos de comunicação, redes sociais e na opinião pública - mesmo sendo considerado uma das maiores tragédias humanitárias dos últimos tempos. Crédito: Reprodução Democracy Now! Acredita-se que os 700 migrantes que viajavam em navio que naufragou na costa da Grécia morreram
Coerência

"Isso diz muito da seletividade da percepção da tragédia, diz muito da categorização de pessoas, de nós, diz muito sobre o que somos e sobre o que necessitamos avançar como humanidade", escreveu Florestan Fernandes Jr em coluna publicada no Brasil 247 ontem. Hoje, porém, uma rápida olhada na home do portal, do qual Florestan é diretor de redação, revela três matérias dedicadas ao submersível e nenhuma à tragédia na costa grega.
Também com posicionamento editorial progressista, o portal americano Democracy Now! parece ter sido mais coerente em sua crítica à invisibilidade do naufrágio com refugiados nos órgãos de imprensa. O veículo promoveu hoje um debate mediado pela jornalista Amy Goodman, com a participação de Giorgos Kosmopoulos, ativista sênior de migração da Anistia Internacional, e Laurence Bondard, porta-voz e gerente de comunicações de operações da SOS Méditerranée, uma organização não governamental de resgate que opera no Mediterrâneo.
Além de mostrar que a tragédia no Mediterrâneo, que vem sendo considerada o mais mortífero naufrágio de refugiados da história, recebeu muito menos atenção dos veículos de imprensa do que a busca pelos cinco passageiros que embarcaram no submersível para ver os destroços do Titanic, a conversa destacou as críticas à Guarda Costeira grega por supostamente não ter ajudado a resgatar os refugiados - a maioria mulheres e crianças do Paquistão, Afeganistão, Egito, Síria e Palestina.
A conversa promovida pelo Democracy Now! também salientou uma apuração do jornal El País relatando que as autoridades gregas rastrearam o navio com refugiados por mais de 12 horas, mas não ativaram nenhuma operação de resgate, mesmo depois de ficarem sabendo que o motor da embarcação quebrou.